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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no McDonald's

rabiscado pela Gaffe, em 22.04.14

Estou em crer que conhecemos os amigos no berço e na infância. Se mantivermos alguns dos vários que se perdem na adolescência, somos gente com sorte. Daí também a importância que é dada aos primeiros anos de vida.

A partir de certa altura, deixamos de transformar em amigos os que passam por nós e que ficam connosco por tempo determinado. Celebramos uma espécie de contrato a termo certo com os que encontramos no caminho.

Ao meu lado tenho um número considerável de pessoas que trabalham comigo. A maioria é escandalosamente inteligente e chega de vários quadrantes do saber. Como é lógico, gosto de alguns e os outros não me dizem grande coisa, para além daquilo que me interessa e que contribui para complementar o que faço. Acompanho-os, discuto com eles banalidades, tontices sem qualquer utilidade, como é apanágio dos amigos, e às vezes fico bem-disposta, outras vezes não. Penso que me iriam fazer falta se desaparecessem de repente e tenho a certeza que não deixam de ser boas gentes. Mas não sou amiga deles. Trabalho com eles e é inevitável que nasçam alguns laços de proximidade, nada mais.

A partir de certa altura, o círculo de gente nova que nos rodeia não interfere com aquele que foi traçado na infância e se tornou um núcleo duro, capaz de resistir e fazer frente a qualquer catástrofe que nos aconteça. No entanto, este grupo é também responsável pelo fechar de hipóteses que nos surgem de incluir numa intimidade mais profunda aqueles que vão surgindo e vão provando, mal ou bem, que são capazes de grandes feitos (geralmente feitos pequenos) para conseguirem o estatuto que entregamos aos que estão cá dentro desde sempre. Os antigos funcionam como anti-corpos e atacam os que ameaçam, mesmo não ameaçando coisinha nenhuma, a estabilidade e o poder que a amizade exerce sobre nós. São naturalmente egoístas, ciumentos e muitas vezes manipuladores, mas são o que nos resta de extraordinário e talvez os únicos que nos provam que são capazes de arrojo e de feitos medonhos e perigosos só para ficar por perto ou só para conservar os pedaços enormes de nós que foram guardando sem qualquer esforço. Arranjam-nos sérios problemas com a mania que entendem o nosso funcionamento emocional; calam-se e reprimem a vontade de estourar, quando falar é ofensivo e chegam mesmo a procurar-nos para nos levar com eles aos confins da terra. Só porque sim.

Este porque sim é, ao mesmo tempo, a desculpa mais idiota do planeta e a mais incrível metamorfose da necessidade de estar presente, mesmo em silêncio (porque transportar-nos aos confins da terra exige mais concentração do que se pensa).

Talvez seja por isso que os que trabalham comigo não são meus amigos. Nunca repartimos um McDonald's – Big MacMenu ao som da Callas, nunca desataram comigo às gargalhadas sem razão nenhuma, nunca se sentaram no meu gabinete a olhar caladinhos a porcaria do bonsai que me ofereceram e que não sei tratar, nunca espancaram ninguém por minha causa, nunca correram mundos só porque me queriam ensinar a chorar sem medo ou a rir sem rede, nunca bebemos juntos vinhos proibidos e secretos desviados das adegas de cadeados e aloquetes mais seguros, nunca os vi sinceramente tristes só porque espirrei e nunca os avisei que tinha um blog e que este, exactamente este, é o meu milésimo post. 

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A Gaffe não sabe ler

rabiscado pela Gaffe, em 22.04.14

O petiz já sabe ler.

Reconhece as letras, sabe uni-las, constrói sílabas, ergue frases e chega aos fins dos parágrafos estafado, mas feliz.

Esta felicidade estende-se aos adultos que, para além de considerarem ter encontrado na família um prodígio inesperado, ficam libertos da maçadoria que se vinha tornando ler ou inventar histórias todas as noites à beira sono e ao canto da exaustão, quando o miúdo reivindicava o direito de ouvir a construção da fantasia pelas vozes que lhe desvendavam, que lhe decifravam, os signos e os mistérios contidos num livro.

No início, repetir as mesmas histórias era uma bênção que nos parecia maldição até batermos contra a vontade infantil de ouvir Sherazades improvisadas e inábeis.

Éramos três. O livro, a criança e a pobre criatura cansada que noite após noite servia de intermediária entre a fantasia e a avidez de sonho do ouvinte.

- Hoje é a tua vez. Ontem contei duas seguidas!

Agora que já sabe ler, é um alívio! É autónomo. Já permite que os deixemos, a ele e ao livro, entregues um ao outro.

 

Agora que já sabe ler, odeia ler.

 

Reconhece as letras, sabe uni-las, constrói sílabas, ergue frases e chega aos fins dos parágrafos estafado e perdido por completo no labirinto que foi descobrindo, mas onde ainda não encontrou saída. A frase vai-se erguendo sem sentido. lida, mas não entendida, como se cada palavra conquistada se perdesse no tempo que leva a conquista e que impede que a união das parcelas não tenha resultado.

Ao parar de ouvir o contador de histórias, porque se tornou capaz de as procurar e decifrar sozinho, ao ser entregue sem apoio ao livro, deu início a uma luta que perde noite após noite, à beira do sono já despovoado. 

Cultivar o prazer de ler numa criança é continuar a ler-lhe, mesmo quando sabemos que ela já vai tocando as frases com tranquilidade. É permanecer três, mesmo pensando que dois já bastavam.
Creio que descobrimos isso apenas quando o miúdo nos avisa que saltamos uma frase, quando nos aponta, com o dedo a passear nas palavras certas, lendo a frase, palavra por palavra, o erro que cometemos descrevendo em tons de azul o vestido da princesa, quando é lilás para condizer com os olhos do seu príncipe e nos retira, paternalmente, o livro da mão.

Creio que descobrimos isso apenas quando ouvimos, numa noite qualquer à beira cansaço, a criança declarar com convicção que não lemos como deve ser, desatando-nos o livro que abrimos cautelosos e soltando, como deve ser, a história até adormecermos os três.

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