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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na sessão literária

rabiscado pela Gaffe, em 23.04.14

No Dia Mundial do Livro nada mais apropriado (e vergonhoso) do que recordar a sessão literária a que decidimos assistir, eu e o meu irmão, num anoitecer invernoso de há uns anos.

 

O meu irmão é tímido e usa calças apertadas. A junção destes dois factores provoca embaraços divertidos.  
Quando chegamos a mesa já estava ocupada pelo, na altura, jovem autor, de testa larga e nariz bonito; por um senhor com a raiz do cabelo pintada de branco (desnecessariamente, porque a restante cabeleira preta asa de corvo era já um primor); por uma senhora loira e rechonchuda, de pernas e dentes cruzados e por um cavalheiro minúsculo perdido atrás do arranjo de flores amarelas com verdes secos pelo meio. Dele, vislumbrava apenas um breve arrepio de cabelo tosco encimado por duas folhinhas do floral arranjo.  
Não foi o meu irmão ter provocado um cataclismo ao arrastar a cadeira no soalho flutuante, arrancando das entranhas do público uma indignação assassina que me levou, para cortar o gelo, a cumprimentar os presentes com o meu sorriso n.º 5, com sabor a Chanel, nem o facto de parecermos duas mimosas bailarinas em plié ao tentar colocar os tutus nas cadeiras, que me provocou uma insustentável vontade de desatar a rir. Acontece que, na descida rumo ao assento, ousei abrir o livro que no átrio tinha comprado e bati num verso:  Eu sou eu sempre, mas sou também a Dona Adelaide 
O poema continuava, relativamente extenso, e sabia que cedo ou tarde a senhora loira, de dentes em cruz, nos brindaria com a leitura solfejada e tonificada do que agora lia.  
Eu sou eu sempre, mas também sou a Dona Adelaide
O que corria nas minhas veias e me acelerava o coração, era a vontade daninha de mostrar o verso ao meu irmão e, mimando o surpreso inocente, exclamar: 
- Não fazia ideia que o José Luís Peixoto também era nossa tia! 
Mas o rapaz apunhalava-me já com o cotovelo e receava represálias mais sinistras se ousasse dar tal passo. 
Contive-me. Aproveitaria o momento em que a loiraça anafada o recitasse.  
Percebia que as pernas do meu irmão demasiado abertas não permitiam a concentração exigida ao lugar e pelo autor. Creio que pensava a todo o instante que seria decepado pelas cuecas em provação e asfixia.  
As miúdas, nas cadeiras da frente, saltitavam trauliteiras com guizos nas delas, góticas cuecas em transes mais negros, sempre que o autor procurava o Eu que lhe traz os Outros. Sentia partir o fio que unia a minha solene compostura à minha vontade de as crucificar.  
Ouço o meu irmão, aflito, a preocupar-se: 
- Está quieta! Ignora as miúdas e ouve o senhor!  
Ouvia o senhor, embora o senhor lutasse cansado com perguntas tolas e me deixasse solta a pairar na sala.  
Apanho um saco de plástico repleto de livros (o jovem autor autografará todos de uma vez). 
Apanho a mulher, na fila da frente, a recitar baixinho.  
Apanho um cartaz a anunciar a hora do conto.  
Apanho com os saltos e os guinchos das moças e sei que não posso aguentar por mais tempo os pinchinhos e guinchos das duas mulheres.  
Procuro acomodar-me. Faço descer o meu corpo o mais que posso e, quando a minha cabeça fica ao nível daquele das moçoilas, descubro todo o impulso dos grunhidos.  
Dali, e naquele ângulo, as raparigas conseguiam ver que o autor sempre que esbracejava e lutava com as surreais perguntas a soar na sala, abria as pernas e deslizava. Abria as pernas e deixava adivinhar o que a Dona Adelaide não teria nunca a não ser pelo casamento.  
Mas seria o vislumbrar do âmago do poema o que despertava fanicos nas donzelas?  
Perguntei-lhes. Nada mais fácil!  


Saímos a meio da sessão. O meu irmão já com as cuecas no sítio do costume, pálido, a cambalear com uma colecção de insultos na maleta e eu sem poder ouvir a senhora loira a revelar ao público a duplicidade da minha tia: 
Eu sou eu sempre, mas também sou a Dona Adelaide

 

Devia existir uma criatura completamente disponível, paga, subsidiada, apoiada, subvencionada, com bolsa da Gulbenkian e portes incluídos, para me esbofetear quando me torno estranha e desato a destruir coisas mais sérias.  

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A Gaffe sem asas

rabiscado pela Gaffe, em 23.04.14

Quando era criança, há pouco tempo atrás, tinha a certeza que a inteligência encarnava nos corpos que escolhia à toa, transformando-os numa espécie de anjos com asas dentro. Não acreditava que os que tocavam a genialidade, ainda que de forma imponderável e etérea, tivessem corpo físico sujeito às exigências mais violentas da carne. Eram insuspeitos, impolutos, intocáveis, isentos de terra e de lama, envoltos em poeira de conto medieval com a consistência do ferro de armadura e até o fascínio vertiginoso pelo abismo que se abre de súbito quando um corpo nu e desejado se torna bracelete, anel, colar no nosso corpo, não despertava neles.  
Assexuava-os, divinizando-os.  
Não lhes negava o corpo, mas via asas dentro, longe de mim, que era um terreno bicho, verme, insecto a mirar estrelas.

 
Agora espio a minha irmã.  
Tem o cabelo cortado por um cabeleireiro das estrelas, curto, quase em demasia. Reflecte a luz, como se fossem penas duma ave ao sol as madeixas pequenas sobrepostas. Os olhos pardos, descobertos, poços de lâminas abertas finalmente. A boca desenhada a prumo, obediente às regras do perfeito. O corpo esguio, flexível, modulado, alto demais - saiu ao pai! -  dizem os homens curtos, habituados a resumos dentro.  
Está atenta ao que lê, de sobrancelhas erguidas, escarninhas. Os dedos longos nas páginas são corta-papel e o baloiço do pé faz compassar o tempo.  
Detém todo o poder que lhe foi dado como se houvesse memória de batalhas naquilo que decide e a inteligência à flor da pele veste-a melhor do que Dior faria. Fica-lhe bem, como um perfume fiel há tanto tempo que deixa de se fazer sentir a quem o usa. 


Olho a minha irmã como o bicho terreno que segue o rasto dos cometas, mas sei que a mulher que espreito do chão da minha lura, é ténue como eu e não tem asas.  


Longe, há pouco tempo ainda, era criança. Agora sou igual a toda a gente.

Ilustração - David Downton

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