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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe icónica

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.14

A Gaffe procura, entediada, encontrar uma rapariga esperta algures no tempo que tivesse conseguido ultrapassá-lo e permanecer intacta como ícone de elegância pura.

Encontra quase de imediato a mulher que lhe interessa. Hesita, passando como uma brisa da tarde, por Diana de Gales, mas percebe que pré-Moschino a princesa não passava de uma parola inglesa repleta de folharecos e rendilhados.

A Gaffe elege como símbolo de elegância intemporal, Jacqueline Lee Bouvier , Jackie Kennedy, Jackie O., como se queira(A Gaffe escolhe sempre Jackie O.) que soube esculpir, sob a batuta do amigo e estilista Oleg Cassini e enquanto membro do clã Kennedy, um estilo pessoal, emblemático, poderoso, inconfundível, repleto de chapéus e de cor, que marcou de forma segura e indiscutível um novo período de moda.

O uso constante de jóias de valor inestimável misturadas com t-shirts, saias ciganas e lenços Hermès , vai lentamente criar o apelidado de glamour ocasional apoiado por 10 atitudes que a Gaffe revisita agora, sem fotos ilustrativas que são uma maçada ter de escolher porque se encontram aos milhares dispersas por todo o lado:

 

1 – Os chapéus  

O chapéu sem aba plana era uma assinatura Kennedy de longa data. Em 1961, Cassini decidiu que Jacqueline precisava de um off -hat, acreditando que o chapéu não deve nem pode  trair ou esconder o rosto de uma primeira-dama.

Anteriormente reservados a militares e a hospedeiras de bordo, Jackie Kennedy fez deste chapéu relativamente desconhecido uma tendência internacional.

 

2 – Os lenços

Jacqueline usava frequentemente um lenço na cabeça. Foi pioneira!  Unindo lenços de seda com óculos, quase máscaras, de grandes dimensões, cria o  estilo Jackie O. que vai unir estes adereços a saias ciganas e blusas absolutamente clean.

 

3 – Os padrões grandes

Foram a sua primeira declaração de moda durante os seus primeiros anos como primeira-dama. Vieram com uma assinatura grega e tornavam-se símbolos da vida e de extravagância.

 

4 - A silhueta em A

Patente nos vestidos em tons ternos e nos conjuntos de duas peças em gama pastel, a linha e os cortes  escolhidos forneciam-lhe uma silhueta em A que foi fundamental para a sua marca como esposa de um presidente. Um recuo ao  New Look de Dior, que levantou bainhas na década de 1950.

 

5 – Os volumes  

Das ondas dos casacos de Hubert de Givenchy para a massa do seu cabelo, Jacqueline gostava de volumes. O seu penteado icónico foi criado pelo Sr. Kenneth , muitas vezes descrito como o primeiro cabeleireiro de celebridades do mundo.

 

6 – O branco

Muito antes Margiela tinha defendido o anonimato gritante de branco. Jacqueline usava-o sempre que podia, quer para descansar do outro lado da costa de Amalfi ou para cumprimentar a Rainha, em 1961. O branco tornou-se conhecido pela sua sombra gelada. Na sua última aparição pública, no Ballet Teatro do Lincoln Center na sua Gala de Abertura em 1993, Jackie deslumbra com o branco de Carolina Herrera.

 

7 – O monocromático  

Jackie era famosa pelo uso de cores sólidas. Os monocromáticos de Jean -Louis Scherrer, Christian Dior e Givenchy, mesmo depois de ser aconselhada a trocar os três parisienses pela americana Diana Vreeland.

 

8 – As  mangas 3/4

Jacqueline praticamente patenteou o comprimento da manga 3/4 . Desde os fatos justos aos vestidos e blusas, as mangas acentuavam as jóias, as luvas e as bolsas caixa de chocolate.

 

9 - Valentino

Tornando-se Onassis em 1968, a Kennedy apaixona-se por Valentino e usa-o, branco, no dia do casamento. O vestido torna-se a peça de alta-costura mais reproduzida da história.

Valentino, eternamente amado por Jackie, sabe homenageá-la:

 - Ela tinha essa qualidade interior de fazer elegante o vestido mais simples, a capa mais pobre, o mais antigo par de calças. O seu modo de usar um lenço ou um par de óculos de sol, uma bolsa ou uns sapatos uma tiara ou um chapéu, era natural. Jacqueline não pensava duas vezes, sabia por instinto.

 

10 – O tailleur

Em 22 de Novembro de 1963, Jackie optou por um tailleur rosa morango, de lã, com gola azul-marinho. O conjunto torna-se icónico para uma nação, carregando parte do peso da memória do assassinato do presidente. Será interessante saber que:

 

- Foi uma cópia exacta de um tailleur Chanel, usando-se mesmo um tecido Chanel, mas foi confeccionado nos EUA para evitar a crítica política.

- Jackie usou o tailleur rosa seis vezes antes da viagem para Dallas, incluindo uma viagem para Londres 1962. (Michelle Obama aprendeu imenso com Jackie neste aspecto.)

- A assistente pessoal de Jackie , Providencia Paredes, escolheu o tailleur para a viagem a Dallas porque JFK disse-lhe para levar algo leve porque é suposto ser quente por lá.

- Jacqueline continuou a usá-lo depois de seu regresso a Washington DC. Vestia-o quando Lyndon B. Johnson foi empossado presidente. Nunca foram retiradas as manchas de sangue.

- Deixe-os ver o que fizeram com Jack. – Diz a Kennedy acendendo o seu cigarro congelado.

- O tailleur foi remetido para o Arquivo Nacional com o intuito de se preservar também dessa forma o momento histórico manchado de sangue. Permanece ali como presente de Caroline Kennedy.

 

Uma rapariga esperta sabe fazer com que o tempo a siga ou acompanhe sem nunca ter de se preocupar em ser ultrapassada.   

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A Gaffe dos mendigos

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.14

Pimentas é quase centenário.

Não é um indigente esfarrapado, nem um doloroso sem-abrigo. Tem a inequívoca protecção da minha avó, que lhe dá guarida em troca de ilusórios arranjos nas sebes do jardim, alguns hectares de terra fértil e cardeneta num Banco qualquer, presa no casaco por um fio (casaco e caderneta).
É avarento, malandro e ladino oportunista.

Todas as Segundas, Quintas e Domingos desce ao povoado e pede esmola.

Arrasta o corpo magro e desgrenhado e, planta-se nas ruas que conhece, estendendo a mão à mesquinha burguesia.

Sabe de cor todas as caras e todas as manias e usa a fabulosa teia da lisonja para caçar benévolas moedas e empáticos sorrisos.

- Só volto a incomodá-los daqui a três semanas! Mente safado, gengivas desdentadas e olhos minúsculos azuis, despudorados.

O seu maior ardil, a sua armadilha tortuosa, consiste em tratar por Senhor Doutor todos os eventuais beneméritos abordados, independentemente dos graus académicos obtidos pelos apanhados.

- O Senhor Doutor não se importa de me dar uma esmolinha? A Senhora Doutora é uma Santa! Só os volto a incomodar daqui a três semanas!

Recolhe o tilintar mais chorudo no boné das moedas.

 

Ontem, esmolei da mesma forma.

O meu irmão voltou para Paris e eu pedi também a minha esmola.

De alma ajoelhada e mão estendida, mendiguei a Deus: 

- O Senhor Doutor não se importa de mo trazer depressa?!

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