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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe vítima de bullying

rabiscado pela Gaffe, em 04.05.14

Recebo a chamada da minha avó.

 

- O seu primo chega amanhã da Polónia. Aquilo do programa Pegásus.

- Erasmus, avó. Erasmus. – Tento corrigir.

- Foi o que eu disse, minha querida. É necessário que alguém o vá buscar ao aeroporto. Tentei avisar a sua irmã. Neste momento está impenetrável.

- Incontactável, avó. Incontactável.

- Também, minha querida. Seja como for, é melhor não o deixar especado no aeroporto.

 

Tento explicar que estou engripada e que, mesmo que não o estivesse, não vejo o meu primo há mais de uma década e que não o reconheceria nem que fizesse o esforço que não tenciono fazer.

 

- Acene-lhe com um lenço branco. Resulta imenso em Fátima! Vai ver que não é difícil. Basta procurar um rapazinho com um ar de leste. Ele faz-lhe um sinal qualquer.

 

Proponho a minha prima para a recolha do rebento polaco, mas a minha prima encetou uma relativamente sóbria relação com um hipotético titular e, ao contrário do esperado, o senhor foi aceite com agrado pela matriarca da família. Fechada em copas (em rainha das ditas, para ser mais específica e monárquica o mais que consigo), a rapariga não comenta sequer o significado das figuras do possível brasão do homem. 

 

 - A sua prima anda demasiado ocupada com aquela coisa abençoada que é o novo namorado.

Silêncio. Depois numa rajada surda:

- Seria conveniente conhecer as intenções da família do rapaz.

- Não seria mais prudente ser ele a investigar as intenções desta família?! – Coloco a questão que de tão retórica começa a tornar-se maçadora.

- Minha querida, nós já sabemos qual o objectivo desta gente toda ao abençoar a união da sua prima com as armas e os brasões assinalados. Sempre foi nossa intenção unir o útil da sua prima ao agradável que é ter uma neta repleta de títulos nobiliárquicos. O seu avô é que sempre considerou uma treta de nova-rica os meus projectos tarados.

- Mas tu não és uma nova-rica, avó.  – Delicio-me, espetando a agulha da ambiguidade na palavra unida pelo maldoso hífen.

- É desagradável fazer-mo lembrar, minha querida. Vejo-me obrigada a recordar-lhe que também não vai para nova e que está cada vez mais parecida com o seu avô.

Não é desvantagem.

 

- Vá buscar o Pegásus. Não se esqueça. Não me pergunte as horas a que chega que eu sou uma velha-rica e não fixo nada.

É inútil qualquer argumento.

 

- Então vá! – O aviso de que vai mudar de assunto. - Quando é que volta a Paris?

Respondo pela milésima vez.

- Quero que leve um queijo da serra à sua tia. – Ponto assente. Não adianta muito a minha mais genuína estupefacção.

 

- Nós as velhas pindéricas, minha querida, vingamo-nos assim: infestamos as Louis Vuitton das tontas empertigaditas com apontamentos bucólicos vindos da tradição cultural de um povo. O útil, aqui, é ter raízes, o agradável é saber depois lidar com asas.

 

E desliga o telefone depois de me beijar.

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