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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe tropical

rabiscado pela Gaffe, em 16.05.14

Rapazes!

Neste Verão usem e abusem do allure aventureiro. Tramas artesanais. Linhos e algodão do puro.  

Falem-nos de aventuras bravas e de perigos de selvas tropicais, de jibóias e jacarés gigantes, de florestas-virgens e de feridas e das tropicais tempestades que vos encharcaram.

 

Não interessa nada que saibamos que o vosso estado se deve apenas a um balde de água fria.

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A Gaffe do Amigo

rabiscado pela Gaffe, em 16.05.14

Lembro-me das tardes penduradas nos ramos como arrecadas nas orelhas das mulheres.


Chegávamos no Verão e ficávamos sentados nas pedras que nos entardeciam.

Trazias a camisa sempre suja, aberta pelo pássaro da cal do sol e as calças rasgadas no joelho e sangue de cerejas e da manhã de amoras. As tuas botas gemiam no soalho ferido pelos rastos e riscos que lhe abrias e o aroma que chegava rugindo nas tílias era tornado brando pelo teu suor.

Cansávamo-nos e queríamos despir-nos e deixarmos de ser gente. Queríamos ser vento e vinho e sono nos olhos. Queríamos ser velhos como o rosto do anjo de pedra no centro do lago.
Trazias na cara o o cheiro do trigo seco ou da semente inútil na ausência do ninho. Na boca o olhar que vem nas pupilas dos pombos e nos olhos das maçãs que escaldam de cansadas.

 

As minhas mãos sem as tuas eram trapos quebrados, poeira e terra seca.

 

Às vezes uma libélula azul como os profetas pousava-te no braço. Deixavas de respirar para que não fugisse.


Sentava-me longe de ti que escrevias e procurava não te perturbar.

Ficavas vergado sobre os papéis em desordem e conseguia seguir-te o perfil definido e quase agudo.

A luz era quase flamenga. Quase Caravaggio ou talvez Vermeer, que a luz nunca permite ser entregue a alguém.

Via a planura da tua testa larga e ampla, o nariz que de tão recto é já perfeito, os dedos que por vezes tamborilavam no tampo em mogno da mesa onde se espalhava o branco dos papéis que ias riscando.

 

(A barba agora invade tudo, como trepadeira ou de grade ou pedaços de setas mortas nas batalhas dos desertos. Já não tens olhos. Tens barba e dentro da barba duas luzes vivas, rasas, que estremecem quando as aves escaldam o silêncio com o bico aberto e grito estilhaçado.)

 

Sorrias ao ver-me a ver-te.

Depois retornavas à ausência, quase um corpo.

Parecias um gigante. Ainda mais gigante que na véspera.

Erguias o olhar. Desviavas e inclinavas a cabeça. Esquivavas-te na penumbra.

Então eu via na fuga lenta desse olhar que me espantava, a forma das pestanas. A alargada tristeza presa nelas. Compactas e negras, demoradas, longas, adensavam as sombras e quase escureciam tudo o que em redor tinha uma luz.

Quase um abismo. Quase corvos. Quase infâmia. Afrontavam a luz, a quase luz, e nos papéis dispersos deixavam as sombras que eram já palavras.

 

Às vezes quase lia. Quase entendia.  

 

Pousava a minha cabeça no teu colo e deixava-me a chorar sem ter motivo, que o teu coração tinha-o no peito trocado pelo meu, na tua mão, e não havia perigo. A tua mão sossegava o meu cabelo. A tua mão aquietava a luz que vinha nervosa por entre as rendas das cortinas. A tua mão sossegava a minha vida inteira.

Inclinavas-te para mim. Dizias-me em murmúrio que na vida apenas valem os instantes e que Morte e Amor são coisas bem pequenas.

 

Crescemos sem o tempo passar no trilho das formigas e na fuga das rolas.

A tua proximidade faz-me falta. Sou melhor do que eu quando estás por perto.  

 

Procuro na memória o som daquelas tardes e de repente sei que não há nada, porque dizer um fado é como não ter braços.

 

Os homens incontornáveis são os que lembram paisagens. Ouvimos o indizível.

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