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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe corrupta

rabiscado pela Gaffe, em 23.05.14

Embora a minha irmã tenha feito um levantamento demográfico, económico, social, geográfico, espiolhado as redondezas, queimado terra, devastado as ruas e passeios e (talvez saibam os deuses!) tenha cravado a unha na demissão de potentados, não conseguiu impedir que a minha avó tivesse de recorrer à repartição de Finanças em busca da esmeralda perdida de um documento relacionado com o meu perdido avô.

Quando me atrevi a resmungar, reprovando a forma como a maninha tentava ultrapassar burocracias e fazer com a espera fosse drasticamente anulada, o resultado da contenda foi ensanguentado: 

- Quando decidires ser hipócrita, tenta sê-lo com alguma sedução. Agora vai brincar, enquanto tento que a avó passe à frente de trinta e duas velhinhas, doze caquécticos e quatro crianças. 

 

Conseguiu.

Na repartição de Finanças da área de residência, ficamos sentadinhas nas cadeiras depois de nos dizerem que já tinham sido informados e que nos atenderiam logo que saísse do gabinete uma das tais velhinhas resistentes à sanha exterminadora da minha irmã.

 

Esperar é uma maçada.

Esperar é uma estopada.

Esperar é um aborrecimento.

 

Quando a senhora entrou, amei-a de imediato!

Pequenina e encolhidinha, com olhinhos minúsculos e sorriso de deslumbramento fácil. Embrulhada em xailes e de papel na mão, perdida e minúscula, sumida e miúda, confusa e errante.

Ajudei.

Não foi uma forma de serenar a minha consciência. Já tinha abençoado a minha irmã pela manipulação das filas. Mas quando ela sorriu, o meu coração ruivo recolheu o mel e disparou solicito.

No guichet usei o ficheiro 315/SE – Sedução de Emergência – que consiste numa aproximação tímida, levemente embaraçada, com uso do franzir de sobrancelhas, inclinação breve junto à cana do nariz, provocando uma brevíssima brisa de desprotecção, evitar o contacto visual (o que inevitável cria uma sensação de timidez irresistível), desviando sorrateira os olhos quando sou olhada e, finalmente, um humedecer estratégico do lábio superior com a pontinha da língua, num desmaio dela!

Resulta sempre.

O rapagão do guichet derrama-se, esfarela-se, entorna-se e a velhinha por quem me apaixonei é envolvida por atenções pouco vulgares. Missão cumprida.

Sorri (é tão formoso o sorriso da senhora!) e num lance de perfeita carteirista, sinto-a tocar na minha mão quieta.

 

Na palma da minha mão espantada, deixou malandra um euro de gorjeta.

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