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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de madrugada

rabiscado pela Gaffe, em 09.06.14

Chego ao Porto de madrugada.

A Avenida goteja escuro por entre as luzes de mercúrio.
Arrasto as malas, subo, abro a porta e atiro as chaves para depois as esquecer.
Descalço-me.
Apetece-me ficar pregada ao chão, à procura de vida aqui dentro.


Não há ninguém à nossa espera. Ninguém acende as luzes. Ninguém gosta de iluminar a saudade. Saudade não sei se de nós ou de alguém que nunca chega.
Às vezes sentimos que toda a nossa vida é uma entrada num lugar vazio onde só nós esperamos.
Se tivéssemos alguém nas madrugadas em que chegamos de longe e temos frio!


O dia começa. Sento-me na cama e fico aqui, a olhar uma cadeira.


Às vezes, queremos tanto olhar, sentir calor e pertencer a alguém!
Sentir, por uma madrugada apenas, a nossa vida dentro dos olhos simples de quem ficou à espera.

 

Mas a Gaffe decidiu que não voltará a visitar cidades deprimentes. Uma decisão que surge da ameaça de ter de regressar ao trabalho dentro de duas horas.

Toma um duche frio, solta e espalha o cabelo, abre de par em par a janela do quarto e bate com a carantonha da vizinha possuída pelo demónio ensandecido das limpezas que petrifica incrédulo ao ver uma ruiva toda nua a abandonar definitivamente a nostalgia que a desarmou e tornou bastante séria.

Não há nada como começar o dia despida de certezas.

 

Abram alas, Senhores! Que se abram alas! 


Que se incendeiem os arbustos! Que se pendurem lâmpadas nas árvores! Que se desenhem arabescos com néon! Que entrem os palhaços trapezistas! Que corram purpurinas! Que estourem os foguetes nas bandas de província e que rodopie tresloucada a solidão! 

 

Cheguei aqui, agora, meus Senhores! Já pode começar a dança do viver!

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