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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no feriado

rabiscado pela Gaffe, em 10.06.14

Tive um sonho mau. Não chega a ser pesadelo, porque neste país não se atinge, nem em sonhos, os graus mais elevados do organograma onírico.

Sonhei que estava em frente de um velho bispo, vestido de roxo, que jogava às cartas com um caquéctico e asqueroso ministro. Trocavam de cartas, num jogo de pega-lá-uma-e-dá-cá-outra-em-troca. O facto de ambos terem oito mãos não me provocou qualquer perplexidade. Havia na cena uma pitada de Ingmar Bergman para dar um cheirinho a coisa profunda que resolvi não interpretar. Não acredito que seja sempre conveniente, útil ou mesmo salutar, procurar as metáforas e os símbolos freudianos logo que nos aparece pela frente um sonho sinistro com capacidade para ser metamorfose de qualquer coisa podre no nosso inconsciente.

Neste caso, parece-me mais engraçado e menos aflitivo aliar estas duas macabras criaturas a situações quotidianas, comuns e corriqueiras.

Neste alinhamento, o que eles trocavam era a data dos feriados, anulando uns, remarcando outros, abdicando o bispo do religioso se o outro se dispusesse a esquecer um dos civis.

 

A anulação de feriados, que obedece à reflexão alemã resumida no Protugal-não-trabalha-e-tem-férias-até-dar-com-um-pau, é um reflexo pavloviano a que nos vamos habituando a observar no governo português sempre que a senhora Merkel dá uma apitadela. A Alemanha espirra e o governo da nação a que pertenço grita santinha!, esquecendo que, se a Europa se desintegrar, com todos os países que dela fazem parte afundados em lodo, caos e miséria, o bode expiatório será o estado que quis encabeçar e liderar o projecto europeu e, mais uma vez, não será muito confortável ser-se alemão. A coincidência de vontades e a união de forças entre os países mais frágeis, mais desgastados e mais devastados da União Europeia, não é de forma nenhuma uma possibilidade real ou uma hipótese a ser considerada.

A capitulação de Portugal é um facto mais que provado quando se anula o feriado do 1º de Dezembro e se faz dançar o do 5 de Outubro.

Não interessa saber que no 1º de Dezembro ninguém se lembra de ir até à fronteira com Espanha (apesar do acordo de Chengen não dificultar estas andanças) e deitar a língua de fora aos nuestros hermanos e que no 5 de Outubro há apenas meia dúzia de monárquicos anacrónicos a choramingar panfletos pindéricos. O que é de importância capital é percebermos que ambas as datas são marcos da consolidação de uma entidade, não só cultural, mas também política e social, que contribui necessariamente para a edificação de um imaginário simbólico, de uma estrutura comunitária coesa essencial à sobrevivência e à soberania de um povo. 

 

É dramático o facto dos jovens universitários portugueses afirmarem que a Gioconda foi pintada por Leonardo Dicaprio ou que não leram o Evangelho Segundo Jesus Cristo porque as coisas da religião não são com eles ou que o tecto da Capela Sistina é do Tomás Taveira (e mais aqui, que tenho vergonha de transcrever tudo no post). Não é sequer engraçado. Não me faz sequer sorrir. É escandaloso que se permita o acesso ao ensino universitário a idiotas que demonstram, com uns sorrisos alarves, tamanha ausência de acervo cultural, tão profundo desconhecimento dos mais básicos, dos mais primários, dados do arquivo cultural da humanidade.

Contribuir para este descalabro, para este encerrar de símbolos, anulando efemérides deste tipo, já por si pouco dominantes na Ideia de comunidade, é apagar o capital simbólico de um país. É apagar da memória colectiva de um povo os momentos de consolidação de uma entidade única e imprescindível à sua soberania. É anuir, sorrindo condescendente e paternalmente, quando um jovem português declara que a Gioconda uma obra de Dicaprio ou que a Restauração da Independência talvez seja um bar no Bairro Alto.

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