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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe esclarece

rabiscado pela Gaffe, em 31.07.14

Tendo em conta a confusão patenteada pela amiga, a Gaffe decide esclarecer de modo simples a diferença entre retrossexuaismetrossexuais ubersexuais (espécie saída do exagero dos segundos que cuidam da imagem como quem trata o serviço de jantar da rainha Vitória herdado pela avó).

 

Os ubersexuais, que se seguiram aos metrossexuais e que com eles partilham pontos em comum que já toda a gente sobejamente conhece e enjoa, são um nicho controverso e antagónico que, como parece lógico, é uma reacção mais ou menos exagerada ao modo como é delicadamente encarado o corpo masculino pelos seus antecessores.

 

Os retrossexuais aparentemente são uns javardos deliciosos. Estão-se borrando - a Gaffe receia que literalmente - para a imagem depilada dos anteriores e desprezam qualquer unguento ou creme ou seja o que for que cheire a alfazema ou a aloé com que os primeiros untam o corpo até se escorregar na calçada.

 

São adeptos do desporto e não se incomodam com uma pitada de violência no meio do jogo. São abrutalhados, grosseiros, rudes e fazem xixi nas árvores. Barbeiam-se com uma face de mato e tratam as coisas como deve ser, ou seja, acabam por ser educados como os velhos cavalheiros do passado.

 

Há outras características que podem ser conhecidas com uma breve pesquisa no Google.

 

A verdade é que a Gaffe se identifica muito mais com este tipo de homem do que com os melados e picuinhas que conhecem todas as perfumarias da cidade e todas as marcas de cosmética ao dispor. Sempre lhe pareceram uns idiotas chapados que não perdem uma ocasião para debater os prós e os contras de uma depilação a laser com o mulherio da vizinhança.

 

Podem ser uns génios, mas a Gaffe acredita que a genialidade perde pouco tempo com o acerto das sobrancelhas ou com o corte em triângulo rigoroso, e devidamente aparado, dos pelos púbicos.

 

A Gaffe é preconceituosa. Também tem em comum esta pequena inconveniência com os retrossexuais.  

 Foto - Clint Eastwood por Bill Eppridge

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A Gaffe essencial

rabiscado pela Gaffe, em 31.07.14

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Gavetas:

A Gaffe simplificada

rabiscado pela Gaffe, em 30.07.14

Facílimas de encontrar e absolutamente práticas!

Três imagens de três formas de percorrer as avenidas de um Verão capaz de nos despir sem qualquer preconceito ou pudor.

 

Alexa Chung - camisa clássica com um allure masculino e vagamente descuidado + shorts + carteira pequena Valentino e sabrinas-ballet.

Olivia Palermo - vestido branco breezy  + saco franjado + sabrinas confortáveis ​​+ óculos ligeiramente vintage.

 

Miranda Kerr – Saco-tanque + uma pitada sexy no soutien que surge maroto + skinnies + um conjunto de bons acessórios básicos.

 

Embora a Gaffe não se comprometa com Alexa Chung (por alguma coisa tem este sobrenome), admite que uma rapariga esperta sabe sempre enfrentar o calor das ruas com a leveza estudadíssima do que deixou de ser complexo. 

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A Gaffe coreografada

rabiscado pela Gaffe, em 30.07.14

Dimitris Papaioannou é um dos meus coreógrafos preferidos e esta é uma peça comovente.

 

Há comoções que surgem do encontro com a perfeição, com a beleza. Aquela que é composta, parecendo simples, criando um sentimento de perda ao ser vislumbrada, ou com a fragilidade do encontro com a consciência da mortalidade.

Parece ser o caso.

 

É sobretudo uma obra de antíteses e talvez por isso se torne tão comovedoramente convincente e despojada. A antítese está na origem do equilíbrio. Neutraliza.

 

Tudo aqui tende a compensar-se com o seu contrário:

 

Encontro/desencontro;

Ganho/perda;

Hesitação/certeza;

Distância/proximidade;

Desejo/aversão;

Sintonia/desarmonia;

Ternura/desapego;

Complementaridade/impenetrabilidade;

Cumplicidade/despreendimento;

(…)

 

Existe na peça uma espécie de núpcias em que o reconhecimento reflexivo e reflectido de mim num outro é utilizado para sossegar a fatalidade final de uma condenação solitária.

 

É bem melhor estar calada. Ficar quieta e deslumbrada a reconhecer que, exactamente como nesta peça, quem ama apenas se reconhece nos espelhos que não reflectem, porque estão vazios de tempo e de morte.

 

Pasmemos:

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A Gaffe em círculos

rabiscado pela Gaffe, em 29.07.14

A temperatura facilmente se aproxima dos 40º. Empurra-nos para o interior dos muros, para o interior das sombras das árvores, dos buchos e das pedras das escadas frescas, de granito guardado do sol pelas trepadeiras. No interior protegido das sombras escapa-se à asfixiante atmosfera que faz estourar os cachos de buganvílias e levanta a poeira dos caminhos que levam à casa.

 

É o calor a desenhar círculos concêntricos, apertados e distintos. Claramente sentidos, evidentemente adivinhados. É o calor que nos sorve e arrasta como títeres, impotentes marionetas movidas pelos fios de fogo.

 

Ao fim do dia mesmo a penumbra escalda e são as salas interiores, onde a temperatura desce abruptamente, as procuradas.

 

Neste fechar quente e claustrofóbico, o interior da sala maior, daquela em que as janelas se abrem para Norte, é escolhido invariavelmente. É aqui que a noite é aguardada e pela noite fora nos falamos.

 

Estes anéis circulares que se vão estreitando, são concêntricos e se analisados sem réstia de emoção, parecem indicar a única direcção daqueles que, como agora nós, enredados neles acabam por seguir. Fatais, empurram-nos para dentro, para o mais ínfimo ponto onde se iniciam ou, nesta perspectiva, onde se acabam.

 

Se observar com a mais profunda atenção e afastamento a sala onde a noite se inicia com toda a gente pousada, vejo-me longe de tudo, com uma ausência completa de vontade e sem mácula ou culpa pelo facto. Afasto-me, não por impulso desgarrado, teatral, furioso e momentâneo, mas porque não sinto falta das palavras. Talvez seja feliz e como diz o outro A felicidade não saiba contar histórias, mas, no entanto, esta minha espécie de se ser feliz é como o bicho-monstro que as crianças suspeitam que existe debaixo da cama nas noites sem sono. É uma felicidade de antes de dormir. Uma estranha suspeita de que depois do beijo da mãe que nos sossega, há mais coisas que ninguém nos diz. É uma felicidade minada pelo receio de escuro. É um sentir que há alguém, central, que nos invade e nos sorve e nos deixa exaustos e escandalosamente vazios e alarves; que faz o ar que respiramos permanecer mudo, tombado a um canto, tocado pelas mãos de um rapazinho estranho, demasiado crescido para a idade, que não tem força para lhe arrancar um choro, mas que fascinado aflora a frescura imaginada das horas em silêncio; que faz o não desejar romper mais desafios, para que o tempo se transforme num gato manhoso a dormir na sombra.

 

Há objectivamente neste calor um maléfico sorver da alma dos outros.
Tornamo-nos ninguém porque deparamos de forma abrupta com a poderosa e avassaladora e incongruente e fascinante vontade de sentir o silêncio da água que não corre.

 

No cerne, no mais profundo interior dos interiores, há o primeiro círculo que absorve tudo, mesmo a seiva nos olhos da vontade dos outros. Deixamos de sentir para sentir para ele, por ele, através dele.

 

É isto o calor aqui no Douro.

 

Diriam os entendidos que é o círculo d’oiro.

 

Eu gosto de ferrugem.  

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Gavetas:

A Gaffe a escaldar

rabiscado pela Gaffe, em 28.07.14

Este calor imenso torna a minha vida verde e vegetal.

 

Não faço literalmente nada e o tempo passa por mim a arrastar-se como ancião empobrecido.

Sem interesse, vazia, deslavada, miserável, quente, a minha vidinha deambula entre as cadeiras do jardim a arder e as poltronas das salas incendiadas.

Está calor aqui! Demasiado quente e começo a trincar o ar que respiro. Salvo-me recorrendo à sombra das árvores e ao ar condicionado que suado trabalha todo o dia.

Morro de tédio.

Nada me motiva.

Ontem comi coisas verdes e saudáveis, bebi da mais fresca fonte laboratorialmente analisada, tentei uma subtil aproximação à cadela assassina que aqui governa e que me desprezou soberanamente, ignorando a minha proposta de tréguas, arrastei dois livros das estantes para os esquecer sem abrir e adormeci alarve deitada na relva.

Tudo cenários deprimentes.

Sinto-me uma alarve inútil, alagada em tédio e asfixiada pelo calor.

 

Penso brevemente entrar em coma.

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Gavetas:

A Gaffe assassina

rabiscado pela Gaffe, em 27.07.14

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Gavetas:

A Gaffe calórica

rabiscado pela Gaffe, em 26.07.14

Entendo o sofrer daquilo a que vulgarmente se chama deficiência profissional. Compreendo que se observe o universo através do filtro que a vida se encarregou de nos colocar nos olhos. É passível de ser considerado normal equacionarmos o mundo com os instrumentos fornecidos pela constante rotina ou pela dedicação que entregamos ao que nos interessa e ocupa.

Mas, no centro deste grupo unido pela tendência a visionar o mundo com as pinças de uma objectividade oriunda de vícios profissionais, estão as... Nutricionistas!

 

Não há fuga possível! Estamos nós a dissertar sobre os mais prementes dramas globais ou a entregar a nossa mais aguda atenção à recente bisbilhotice cor-de-rosa e, lancetando o discurso, apanhamos a punhalada do:

- Já pensou em deixar de comer a porcaria dos croissants?!

Fica-se com os ditos, estalando quentes e a pingar manteiga, a meio do caminho.

Não! Nunca pensei em deixar de me enfardar com croissants que escorrem manteiga dourada e derretida, macia como nuvem a deslizar pelo queixo, quentes e trigueiros, com uma película tostada e quebradiça que se desfaz nos dentes e os encharca de sabores divinos.

 

Nunca, minha senhora.

 

Por muito que para mim olhe com reprovação estampada nas gengivas, por muito que aniquile o meu desatado prazer de comer o que não aprova, por muito que torça as sobrancelhas e quebre as conversas provando ao pessoal que em vez da amabilidade de ouvir o que se diz, está, mesquinha, a observar o que se come e a enojar-se com o futuro físico da interlocutora, nunca abdicarei dos calóricos croissants e se voltar a interromper o meu pequeno-almoço, quando ao lado do guardanapo é servida também uma calorosa discussão acerca do mais banal dos assuntos (que de tão banal é imperdoável deixar escapar), obrigo-a assistir à minha refeição do meio-dia, amordaçada e com dois pasteis de nata enfiados nos olhos e um éclair em lugar mais parco e mais carente de comida ainda mais calórica.

 

Em alternativa, faço-a comer o que a designer Anna Lomax decidiu criar e que Victoria Ling fotografou com o talento habitual. 

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A Gaffe quentinha

rabiscado pela Gaffe, em 25.07.14

Há blogs que são de Inverno!

Blogs que nos fazem sentir quentinhas, perto de lareiras, aninhadas num sofá florido, embrulhadas numa manta da Serra, de carapins tricotados pela avó, enquanto chove e troveja nas varandas do deslumbre. Blogs que nos apetece ouvir pela noite dentro.

É o caso de Diário do Purgatório.

 

Todos os meus dias. 

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A Gaffe comovida

rabiscado pela Gaffe, em 24.07.14

Há dias que nascem para nos surpreender de forma avassaladora.

 

Gosto de me encostar pela noite fora ao tronco nu do Jeremy e com ele abraçado a mim, a beijar-me a nuca e a mordiscar-me o pescoço, falar das mais absurdas tolices. Apagamos todas as luzes do interior e somos iluminados pelas da Avenida. Os dois, a trincar bolachas, vemos o mar e somos banais e idiotas.

Ontem, e porque mo recordaram, referi casualmente, entre uma dentada e um beijo pequenino, que nos conhecemos há exactamente seis meses. Ele sabia (claro!) e aproveitou para lançar a mais doce, mansa, terna, tímida e cuidadosa proposta de... noivado.
Apesar de acompanhada de um solavanco chegado do interior da alma, a minha resposta gaguejou.
Não seria justo! Alteraria princípios que respeito. Normas que estabeleci. Regras de vida. Modificaria comportamentos que me agradam. Provocaria quebras naquilo em que acredito.


- Não devemos contrariar, nem por amor, o que consideramos recto ou abdicar daquilo que estabelecemos como nossas prioridades. Seria como pedir que cortasses o cabelo! Não faz sentido! Não gosto de o ver tão comprido, mas não peço.


A comparação não foi, como é evidente, das melhores, mas não se pode pedir demasiado a uma criatura, atrapalhada e encostada a um peito em ebulição, que vai recusar um pedido de noivado.
O Jeremy sorriu. Abraçou-me e ficamos quietos a morder bolachas.
Hoje, há cerca de vinte minutos atrás, a minha irmã chegou em labaredas.


- Trago comigo um rapaz que quero que conheças.


Arrebitei as orelhas.
Repleta de glamour, a minha irmã faz surgir então o Jeremy belíssimo, moreno, luminoso, de sorriso aberto, de olhos tímidos e ... de cabelo rapado!
Rente, com o brilho da estrela da manhã.


O meu rapaz é assim!

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A Gaffe sobe e desce

rabiscado pela Gaffe, em 24.07.14

Coreia do Sul - Seul - foto de Kevin Lowry

É sempre uma alegria quando encontramos um objecto urbano banal e quotidiano a que foi entregue um encanto peculiar.

Das cores geometrizadas de Beirute às delícias florais sicilianas, das chilenas teclas de piano aos mosaicos de rosas em Teerão, estas escadas fazem calcorrear com um prazer imenso todos os momentos de chegada e abraçar com saudade todos os instantes em que temos de partir.

Ver mais )

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Gavetas:

A Gaffe Comissária

rabiscado pela Gaffe, em 23.07.14

A Gaffe tem acompanhado com bastante interesse, embora com alguma dificuldade, porque tem imenso medo que ela descubra e lhe atice o fisco, o percurso de Maria Luís Albuquerque.

Tem admirado incondicionalmente os seus conselheiros de imagem. Não há nada como um trabalho bem feito e neste caso a coisa tem corrido mesmo muito bem. Tão bem que a senhora é uma possível Comissária (europeia e não de bordo, mas mesmo assim já é qualquer coisita).

No lugar das Gayet deste mundo e das Obama do outro, uma senhora de tailleur pastel e pasta gigantesca debaixo do braço, para despertar seriedade; calada, para cultivar a expectativa; com ar sisudo para inspirar confiança; com um penteado vindo do túmulo, para evitar futilidades; sapatinhos semi-rasos para começar caminho e com um colar de pérolas muito discreto, para revelar contenção, é um golpe de mestre!
Depois, trocar de quando em vez os acessórios discretos por outros ligeiramente mais ousados, faz com que o ar caseiro pareça um bocadinho mais cosmopolita. Fica sempre bem.
A senhora tem vindo a ganhar adeptos europeus e embora nos pareça não fazer ideia nenhuma daquilo que quer para o país - nenhum político faz e ela não diz grande coisa, para não ter que escrever cartas no fim - tem sido cativante pela reserva com pinta de competência, do tipo eu sei-mas-não-digo, que já ajudou Cavaco em circos anteriores.

Maria Luís Albuquerque é possivelmente uma das Comissárias de Juncker, o que fará Moedas sair da sombra do bonsai onde se esconde e provará às raparigas espertas que uma imagem retro-renovada com um pintinha de sisudo é sempre um passaporte europeu.


Parece no entanto que a equipa que trata do allure de Albuquerque, não é a mesma que acompanha o restante elenco governamental!

A Gaffe recorda que não basta a Paulo Portas vestir lindamente – as gravatas são irrepreensíveis! – para a convencer. Ao contrário do habitual, Paulo Portas usa um penteado que imita um capachinho e tendo em conta que para Paulo Portas o tema perucas é como o dos submarinos – quanto mais visíveis, mais se afundam – não é de todo aconselhável trazer na cabeça uma imitação rasca das ditas. Paulo Portas não deve ter muitos amigos!

 

Já Passos Coelho prova que há claras alternativas ao uso do capachinho. Uma tonalidade L’Oréal  - porque merece - apaga algumas brancas, embora deixe careca a oposição, e com uma heróica madeixa rala atirada com rigor e laca para trás, consegue fazer passar despercebido o couro cabeludo desde que a luz não incida directamente na tinta.

 

A verdade é que o governo actual apresenta um grave défice de bons cabeleireiros.

 

A Gaffe podia percorrer o restante elenco da coligação que a governa, mas confessa que não está disposta a isso, até porque a impressiona imenso ter de referir Marques Guedes! O senhor lembra-lhe um velho conhecido, homem que de tão obcecado pela profissão, foi acusado de assédio sexual. Um mártir de trabalho, este seu ex-ginecologista!

 

No entanto, esta rapariga pode perfeitamente estar enganada. A Gaffe é muito propensa a erros de apreciação, costumando nadar contra a corrente, como prova a sua incapacidade, que deve envergonhar todos os comentadores que tem ouvido, em ver quem é o preto (vá lá, negro, como eles dizem) que foi eleito presidente dos Estados Unidos. Continua a afirmar a pés juntos que o homem é mulato (pronto, mestiço) e que isso até faz uma diferença substancial.


Preto, preto era o Michael Jackson!

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A Gaffe no fim da festa

rabiscado pela Gaffe, em 22.07.14

Paris raramente aceita alguém de corpo inteiro. Raros são os que fazem parte dela.

Há homens que mordem o chão daqueles que desfilam.

Em Paris as flores trazem café e há néon nas almas, brilhantina e riso e o allure de mulheres que passam sem perceber que passam sobre vidro.

Paris das esplanadas depois de finda a festa. Nas ruas que são rios e savanas, pradarias, tundras, gelo, vulcânicas passagens para outros lados, cheira a luz e a carne de perfumes raros.

Manadas de indefesos animais, restos da humana desventura de viver em grupo em que o deslumbre mata, porque cega.

Rapazes que ficaram pelo caminho na Semana em que Paris quis usar outros. Givenchy 2015 e uma manada que atravessa o rio na lentidão que desconhece a fera.

Incautos e imaturos príncipes grifados.

Grandiosa idiotice. Esplendorosa idiotice. Magnífica idiotice que nos traz à boca, sem o mover de um músculo, sem emboscar a vida, a presa que se quer.

O menino de olhos de gazela e boca a prometer um fruto. Tem um pequeno alfinete preso na braguilha. Brilha a braguilha com o alfinete preso na prega do tecido que lhe molda o sexo. Cintilam os olhos do menino de braguilha alfinetada e borboleteia, até pousar na mesa à nossa frente.

Purpurina na íris, asa de pólen, menino tonto agora preso no final da festa.

Podia ser este. Podia ser aquele ali, aqui, além. Mais este e aquele, o outro e toda a gente, porque toda a noite é uma alvorada e eles sabem perder para os encontrarmos.

Foto - Paris, depois do desfile Givenchy Primavera/Verão 2015

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A Gaffe teórica

rabiscado pela Gaffe, em 21.07.14

Sendhi Mullainathan da Universidade de Harvard e Eldar Shafir da Universidade de Princeton, dois especialistas em Economia Comportamental, acabam de publicar um interessantíssimo artigo onde declaram, numa síntese descarada e muito pouco esclarecedora, como é normal por aqui, que as nossas preocupações moldam o nosso cérebro e nos tornam menos inteligentes.

 

 Eis em resumo a Teoria da Escassez:

Na ausência do que consideramos essencial ou daquilo que necessitamos, o cérebro foca-se na procura de uma solução que rouba o espaço mental disponível.

 

Esta quase intuitiva teoria faz-nos conhecer o Efeito Túnel que refere que as nossas capacidades cognitivas, inteligência fluida, ou capacidade para analisar e resolver problemas abstractos e de controlo executivo e a capacidade de planeamento e controlo de impulsos, passam a estar subordinadas à necessidade detectada ou sentida. O Efeito Túnel consiste portanto no domínio daquilo que consideramos urgente e prioritário sobre o que não nos parece importante.

 

Apesar de um bocadinho assustador, traz vantagens:

- Prontidão de resposta - resolução de problemas com criatividade e eficácia (o famoso e tão português desenrascanço);

Sentido de valor mais apurado (um euro, um sorriso ou um minuto são bem mais valiosos se nos são escassos).

 

Mas as desvantagens são asfixiantes:

- Maior propensão para o fracasso - a mentalidade da escassez sobrecarrega e tende a resultar no insucesso por erros no processamento da informação;

- Menor capacidade de planeamento - metas a médio e a longo prazo são descuradas;

- Baixa margem de resposta a imprevistos (perda salarial, mudança familiar) por falta de disponibilidade mental. O exército do se acontecer logo se vê instala o cerco. A lógica previdente desaparece;

- Menor capacidade de autocontrolo – tende-se a falhar as metas possíveis (deixar de fumar, Recusa de fast food por parte dos obesos);

- Atrofia das competências cognitivas – contabilidade mental, análise racional e oportunidade de risco fica limitada a más escolhas;

Estupidificação de um povo.

 

O artigo dos dois cientistas não deve ter sido lido e estudado pelos governantes que continuam a não perceber que os apertos financeiros condicionam o rendimento colectivo e provocam um défice perigoso no funcionamento mental de um país.

 

Valendo o que quiserem, esta teoria vem pelo menos confirmar que a preocupante reforma de Cavaco realmente não lhe chega para as despesas. 

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A Gaffe longe do mar

rabiscado pela Gaffe, em 21.07.14

 

Que aconteceu ao contrabandista de Vila Verde de Raia?

Que é feito dos playboys de Tortosendo?

Do Louco de Trevim?

Que se passou com o casal de ferreiros apaixonados por livros?

E a Natália que dormiu na cela prisional do assassino do marido?

A Joaquina que viveu sozinha com a filha durante 20 anos numa aldeia abandonada?

 

Depois de ter reportado como jornalista correspondente os conflitos no Kosovo, Afeganistão, Iraque, Argélia, Angola, Caxemira, Sudão e Líbia, Paulo Moura, jornalista do Público, correspondente em NY, professor de jornalismo e editor da Pública, é editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Longe do Mar - Uma Viagem pela Estrada Nacional 2 - é uma pequena obra-prima que descreve história de lugares e pessoas com um rigor cativante e um uso exemplar da língua e dos processos narrativos. De Chaves a Faro, numa jornada onde o coração é aliado da razão mais objectiva, Paulo Moura entrega-nos um vislumbre absorvente de paisagens humanas que nos parecem tão distantes como aquelas de tão perto ignoramos.

 

Uma obra belíssima que prova que um pequeno aro de metal pode sustentar um diamante.

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Gavetas:

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