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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na Final

rabiscado pela Gaffe, em 10.07.14

Não é segredo que na Copa a minha selecção favorita sempre foi a da Alemanha.

Todos vestido por Hugo Boss, todos belíssimos rapazes, organizados, implacáveis, tenazes, interligados, metódicos e por aí fora, que de adjectivos estão estas avenidas cheias.

Como é evidente, tornar-se-á em triunfo sem que para tal precise de sambar. Nada menos se espera de um grupo unido de super-atletas com uma noção perfeita de coesão e de espírito de equipa primorosa e inteligentemente bem treinada.

 

Agora o que me intrigou significativamente foi a C., quando o Mundial se espalhou na mesa como um dominó de reformados, declarar com alguma solenidade a preferência pelo Brasil na Final do Campeonato, fazendo-o disputar o troféu com a selecção do Mónaco.

 

Bem sei que a C. não é criatura de grandes chutos e que os tacões dos seus Manolo Blahnik dificilmente se confundem com pitões, mas fazer entrar em campo uma equipa derrubada de modo arrasador para enfrentar uma outra que é inventada, é digno de um samba principesco.     

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Gavetas:

A Gaffe em francês

rabiscado pela Gaffe, em 10.07.14

A Gaffe tem uma novidade para dar.

Queria guardar tudo para si, porque é uma rapariga discreta, reservada e boa pessoa, mas é coisa a mais para uma alma só.  
Através de protocolos e intercâmbios que a ultrapassam, o Jeremy Irons tem esvoaçado pelos seus cantos mais científicos. Enfim, não é bem, bem, bem o Jeremy como é lógico, mas toda a gente lhe chama assim, porque ele é exactamente o actor, só que uma centena de anos mais novo. É dez anitos mais velho do que a Gaffe, mas esta moça confessa que sempre teve um fraquinho por homens grisalhos.

É aquele francês que imaginamos de revista se não conhecermos nenhum.

Senta-se mesmo ao lado  da Gaffe naquelas reuniões terríveis onde ninguém ouve um pirolito  e desata a fazer desenhinhos para lhos mostrar às escondidas. A Gaffe sorri todo lambida e pirosa, mas nunca se atreve a saltar mais do que a perna. O homem é atinado e muito correcto e a Gaffe sabe que se se descuida e solta um gritinho - ai, que giro! tão giro, tão giro! tão fofinhos os bonequinhos que faz! tem de me mostrar mais, que eu adoooooro, sim? - pode arranjar um berbicacho. Sabe lá se o tipo quer só mesmo mostrar os rabiscos. Tudo muito sério, portanto. Nada de galhofa menos própria.  

 

Pois a Gaffe tinha um post-it colado ao monitor. Nada de anormal. Isto é mais um sítio para colar post-it do que propriamente um monitor. Mas aquele chamou-lhe logo a atenção porque reconheceu a letra.  
Agora a parte melhor: o Jeremy todo informal desenhou um macaquito foleiro e escreveu por baixo:

 

Aujourd'hui, on joue?


Hoje, é melhor esclarecer, era na quarta-feira passada. 
Tendo em conta que nas reuniões onde o homem se senta ao seu lado, se por acaso encosta a perna à sua, a Gaffe fica que nem se pode levantar, imagine-se em que estado é que ficou ao ler aquilo.

Jogamos?! Brincamos?! Que coisa queria o bonitão dos seus inconfessáveis pensamentos dizer com aquilo?  
Lá fui ela toda lampeira e toda lampreia perguntar-lhe o que significava aquela caca (teve o cuidado de não dizer caca). 
Ficou esclarecida na quinta-feira. E que bom explicador o Jeremy lhe saiu!  


Agora vem a parte mais rasca: vai para outras paragens, longe daqui, no fim do mês.

Acaba neste instante de pedir outra vez, e desta vez por SMS, para a Gaffe o acompanhar. A mensagem é do melhor e até se fica com os dedos lambuzados só de a ler. Poder ir, até pode, mas não vai. Sabe que não é  puxada assim de repente para aventuras destas. A Gaffe vai esforçar-se por chorar só durante uns minutinhos e depois correr para o wc para retocar o rímel.


É evidente que parece uma daquelas miúdas adolescentes, confusas e com as hormonas aos saltos, mas a verdade é que já o andava a catrapiscar há uns meses largos e até já tinha tido sonhos tão eróticos com o tipo que nem se atreve a recordar com medo de partir os vidros das janelas. Também é verdade que ainda tem um tempito para decidir como lhe há-de dizer adeus em tempo útil.  

 

Tudo o que se diz no adeus é tão banal que nenhuma das palavras ditas sustenta o mais suave sopro, a mais fugaz das brisas.

Não há nada num adeus que mereça solidificar dentro da alma, mas há sempre um adeus pousado à nossa porta, sentado à nossa espera e beijos que docemente aguardam pelos donos.

Um adeus é espécie de morte pequena. Lava todas as máculas, todas as nódoas, todas as ofensas, todas as manipulações malditas que foram existindo. Fica apenas a memória do que foi divino, perfeito e demasiado grandioso para ser tocado ou alterado e, mesmo essa memória, lapidada pelo adeus, ampliada na luz que irradia, faz do que perdemos a eternidade. Não há saída! Somos vencidos mesmo antes de pegar em armas, mesmo antes de começar a luta. Iniciamos o que não pode ter início. Um adeus tem sequestrado o  coração que desejamos nosso.


A Gaffe vai ficar apenas com uma fotografia deste adeus tirado à toa.
O fugidio francês, canalha sedutor, perigoso e implacável, desaparece e surge um anjo branco, esguio, de olhos tristes, frágil e belíssimo.  

 

Talvez a Gaffe tenha de colar um post-it no monitor só para se lembrar porque é que as coisas consigo nunca são fáceis.

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