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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe florista

rabiscado pela Gaffe, em 16.07.14

Todas as correntes estéticas quando duram mais do que três ou quatro Primaveras, geralmente aproximam-se do fim de modo apoteótico. Os eventuais exageros são visíveis e anunciam de forma inequívoca o estrebuchar final daquilo que invadiu e dominou e caracterizou um determinado lifestyle.

A linha que guiou o hipster pelas nossas avenidas e que perdura, resistindo muitíssimo mais do que seria de esperar, é agora contaminada por uma espécie de redesenho que tenta anular o cansaço da reprodução de imagens.

O hipster aproxima o seu allure inesperadamente andrógino da fragilidade dos pormenores que surpreendem. A barba, cuidada e aparada com a perícia de um escultor experiente, imprescindível porque é suporte da sua imagem de marca, é agora sublinhada e tornada vedeta incontestável. Presas na sua densidade, seguras no seu corpo espesso, surgem pequenas flores que Victoria Vrublevska ou Peter Yankowsky fotografam.

É evidente que as nossas avenidas não se vão transformar em canteiros ambulantes. A imagem do hipster florido não é susceptível de se espalhar por estes ângulos, mas tudo se tornaria bem mais divertido se presas nas duras pilosidades destes machos enganadores cintilassem as cores das florações.

Há no entanto que separar os jardineiros. O hipster é o exemplar de uma corrente estética, logo um aglomerado de similitudes, um grupo, uma tribo, uma colecção de semelhanças que divergem pouco dentro de um mesmo espaço circular, e não propriamente a definição de uma personalidade única, indiscutivelmente original e sem contaminação daquilo que se convenciona chamar in.

Se olhar, por exemplo, para o meu querido amigo vejo-o neste instante a brincar com as folhas do livro pousado nos joelhos e descubro-lhe o perfil estranho:

Nariz demasiado recto, quase inimigo, quase agressivo, como se a testa larga, grande, belíssima, não fosse nada mais do que o anúncio e o sustentáculo daquele declive acentuado.

A barba rasa de ónix, carrega-lhe a rudeza e a cerrada cisma.

Subitamente sei: Florentino!

Imagino-o na cidade mais masculina da Europa.
Florença, construída por homens para homens, onde David branco e nu, com a lendária pedra por lapidar na cabeça pesada, demasiado jovem, desengonçado colosso a crescer, à procura do equilíbrio anatómico distorcido ainda pelo contraste da volumetria do tórax e da curvatura do abdómen e o tamanho desmesurado dos seus pés e mãos, espera contra a pedra escura a dor que terá de sentir pelo tempo fora e que lhe foi causada pelo demente que lhe partiu o segundo dedo do seu pé esquerdo.

 

Por muitas flores que se cravem nos espaços, nenhum hipster me faz suspeitar que já o vi outrora, numa vida anterior a esta, onde num Quarto com Vista sobre a Cidade eu tinha um nome Toscano e ele era Príncipe.

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