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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe em círculos

rabiscado pela Gaffe, em 29.07.14

A temperatura facilmente se aproxima dos 40º. Empurra-nos para o interior dos muros, para o interior das sombras das árvores, dos buchos e das pedras das escadas frescas, de granito guardado do sol pelas trepadeiras. No interior protegido das sombras escapa-se à asfixiante atmosfera que faz estourar os cachos de buganvílias e levanta a poeira dos caminhos que levam à casa.

 

É o calor a desenhar círculos concêntricos, apertados e distintos. Claramente sentidos, evidentemente adivinhados. É o calor que nos sorve e arrasta como títeres, impotentes marionetas movidas pelos fios de fogo.

 

Ao fim do dia mesmo a penumbra escalda e são as salas interiores, onde a temperatura desce abruptamente, as procuradas.

 

Neste fechar quente e claustrofóbico, o interior da sala maior, daquela em que as janelas se abrem para Norte, é escolhido invariavelmente. É aqui que a noite é aguardada e pela noite fora nos falamos.

 

Estes anéis circulares que se vão estreitando, são concêntricos e se analisados sem réstia de emoção, parecem indicar a única direcção daqueles que, como agora nós, enredados neles acabam por seguir. Fatais, empurram-nos para dentro, para o mais ínfimo ponto onde se iniciam ou, nesta perspectiva, onde se acabam.

 

Se observar com a mais profunda atenção e afastamento a sala onde a noite se inicia com toda a gente pousada, vejo-me longe de tudo, com uma ausência completa de vontade e sem mácula ou culpa pelo facto. Afasto-me, não por impulso desgarrado, teatral, furioso e momentâneo, mas porque não sinto falta das palavras. Talvez seja feliz e como diz o outro A felicidade não saiba contar histórias, mas, no entanto, esta minha espécie de se ser feliz é como o bicho-monstro que as crianças suspeitam que existe debaixo da cama nas noites sem sono. É uma felicidade de antes de dormir. Uma estranha suspeita de que depois do beijo da mãe que nos sossega, há mais coisas que ninguém nos diz. É uma felicidade minada pelo receio de escuro. É um sentir que há alguém, central, que nos invade e nos sorve e nos deixa exaustos e escandalosamente vazios e alarves; que faz o ar que respiramos permanecer mudo, tombado a um canto, tocado pelas mãos de um rapazinho estranho, demasiado crescido para a idade, que não tem força para lhe arrancar um choro, mas que fascinado aflora a frescura imaginada das horas em silêncio; que faz o não desejar romper mais desafios, para que o tempo se transforme num gato manhoso a dormir na sombra.

 

Há objectivamente neste calor um maléfico sorver da alma dos outros.
Tornamo-nos ninguém porque deparamos de forma abrupta com a poderosa e avassaladora e incongruente e fascinante vontade de sentir o silêncio da água que não corre.

 

No cerne, no mais profundo interior dos interiores, há o primeiro círculo que absorve tudo, mesmo a seiva nos olhos da vontade dos outros. Deixamos de sentir para sentir para ele, por ele, através dele.

 

É isto o calor aqui no Douro.

 

Diriam os entendidos que é o círculo d’oiro.

 

Eu gosto de ferrugem.  

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