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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe evidente

rabiscado pela Gaffe, em 11.08.14

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Gavetas:

A Gaffe perfumista

rabiscado pela Gaffe, em 11.08.14

Uma das mais prestigiadas perfumarias do Porto, na geração dos meus avós e dos meus pais, era a Castilho.

Situada numa importante artéria da cidade, em frente à Brasileira onde os empregados antipáticos serviam o chá e o pastelinho a senhoras empoadas e emproadas e cafezinho e água das pedras a pretensiosos e pretensos cavalheiros que liam o jornal, a Castilho era uma referência para a burguesia e alta burguesia portuense.

A chusma de empregadas conhecia as manias das clientes e estabelecia laços de cumplicidade estética e de cosmética conivência, mantendo gorduchas as prateleiras repletas de aromas e de cremes, de unguentos, de sais e de feitiços femininos e secretos.

 

Nunca fui cliente assídua. O desprendimento e a impessoalidade com que as perfumarias das grandes superfícies me atendem, acabam por me agradar e me tornar mais rápida na compra. A Castilho foi durante anos apenas a memória do perfume da minha avó, nas tardes de Primavera em que a senhora decidia abandonar a essência de Inverno.

 

Passei ontem pela Castilho.

A montra anunciava descontos em todos os produtos e expunha o perfume difícil do meu pai. Entrei.

As prateleiras desdentadas, desoladas e empobrecidas, encostavam aos cantos os restos parcos do passado glamoroso e as duas empregadas que sobraram, empastadas de tédio, de braços cruzados e olhos vagos, acabrunhantes, estendiam o tempo no exterior a passar demasiado lento pelos turistas indiferentes à decadência da loja.

 

Pergunto o preço do que quero.

Não sabem! Não está marcado.

O computador indica produto inexistente.

A senhora que está encarregada da secção foi almoçar. Chega dentro em breve.

Não há o contacto da senhora que foi almoçar. Não há ninguém que se prontifique a deslocar-se ao restaurante que com certeza é próximo. Deixam-se a aguardar durante a meia hora em que vou cirandando e experimentando batons com as cores cansadas. Nada se resolve. Nada me é dito ou explicado. As duas raparigas de silêncio cruzado vão olhando a rua que passa depressa.

Saio sem que termine o almoço da senhora responsável pela secção e pelo preço do que já não quero.

 

A decadência torna-se visível quando acreditamos que a merecemos. 

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