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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de assalto

rabiscado pela Gaffe, em 13.08.14

Já nada se faz como antigamente. Agora até para assaltar um banco é preciso pertencer à administração!

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A Gaffe e a estrela

rabiscado pela Gaffe, em 13.08.14

Mais alta do que a maioria das mulheres, movia o corpo de uma forma lenta. A estatura acentuava a sensação de que, para que houvesse alterações na sua posição, um membro deveria esperar pelo fim do movimento do outro. O tempo tinha-a feito crescer aos solavancos, aguardando a consolidação do desenvolvido para depois continuar. Quando o tempo acabou de a construir, tornou-a indefinida, quase andrógina. A imagem de mulher fatal, de cabelo longo e olhar assassino, acentuava uma fragilidade obscura, muitas vezes furtiva, que se escapava do corpo magro e tenso.
Era considerada divina pelos mundanos que zargueavam procurando ser vistos junto das migalhas de atenção, ou de desprezo disfarçado de sobranceria fotogénica, que ela distribuía metodicamente pelos medíocres e pelas poucas criaturas capazes de a prender mais do que uma hora e que conseguiam atravessar o desconforto que ela provocava, de sapatos rasos e casacos protectores, olhos de grades e frieza intimidante.

 

Lauren Bacall raramente falava e, quando falava, procurava fazê-lo desencorajando até as investidas da imbecilidade fátua. Por isso não era fácil a tarefa de lhe encontrar as palavras. Mas era fácil encontrar-lhe o sorriso.

O sorriso era um terminal de frases que ela não dizia, porque começavam e acabavam dentro dela. Era um resumo. Bastava.

 

Lauren Bacall (1924/2014) - Vanity Fair 

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A Gaffe por entre os dedos

rabiscado pela Gaffe, em 13.08.14

No tempo das areias, já lá vão vinte anos, Agosto era passado em casa da minha avó.

Um Agosto inteiro às vezes de nortada, com noites repletas de frio e de ligeira chuva.
As famílias largavam os adolescentes e a minha querida Luzia era arrastada para nos cuidar.
Chegávamos aos poucos. Como salpicos de ondas.
Primeiro a Rosário e seu o irmão que já perdeu o nome na minha memória. Tinha o cabelo cortado à rapazinho e olhos pretos. Altiva e elegante como uma gazela.
Depois, o Jorge, o meu primeiro amor de tarde friorenta, quando todos corriam pela praia molhada por uma véspera de chuvisco.
O Francisco, nadador e bravo, olímpico rapaz das ondas e do sal, que trazia a irmã,  Sónia dos cabelos loiros, um pardal traquina.

O Pedro a rugir como a ameaça dos vulcões.
Os meus irmãos chegavam com os mais velhos, no centro de Agosto.
E num Agosto qualquer chegou o João. De calças de linho branco, eterno descalço, e camisolas de algodão gigantes, para desalinhar a vida. Belíssimo, silencioso e distante como um cisne.


Passei por ali.


A casa foi vendida e morta. Não existe.
A minha irmã usa Armani e ácido na bolsa.

O meu irmão é longe.
O Jorge do meu beijo transformou-se em fumo.

O Pedro aprendeu a humilhar vulcões. 
A Sónia é actriz. Via-a no palco. Nunca deu por mim, nunca dei por ela.
O Francisco em Madrid escreve postais quando o Natal é mais sozinho.
O João morreu.


Restam as gaivotas e a Capela onde à noite corríamos para espreitar as bruxas e testar o medo.
Era o tempo das areias.


Às vezes há nortada.

 

Sempre acreditei que as imagens que retemos na memória possuem, também elas, a memória. Mais diáfana, mais esvaída do que nossa, mas igualmente labiríntica.

Quando esquecemos, fica no lugar do esquecido apenas a memória que havia nos objectos, aquela que eles possuíam e essa é como pó ou areia. Nela podemos cravar a unha, arrastar o dedo, desenhar, deixar escorregar os grãos por entre os dedos, acreditar que as nossas recordações foram forjadas, ilibando a vida.

 

Quando se trata de memória há sempre em nós uma implacável impotência. Agarram-se à alma pedaços de vida que só dementes podemos desejar perenes.
Esquecer é deixar tombar o pó e redesenhar depois por cima dele. Isto deixa-nos calmos.

 

É bom esquecer. É seguro e criativo ao mesmo tempo. No entanto, vemo-nos às vezes a confundir a memória com o memorizado. Não sabemos, por exemplo, se realmente fomos de alguém ou se apenas passou por nós a vaga ilusão de pertença. Qual foi o estado de alma que nos invadiu, qual foi o apagado, qual o desenhado depois do esquecido. Não que tal nos aflija. Já foi passado. Já temos história. A memória atenua a febre e dá-lhe a suave pacatez da convalescença como única peça para reviver.

Lembramo-nos como se tudo tivesse acontecido num lençol de areia. Quando nele entramos o corpo é arranhado pelas rugas das dunas e pelo frio da água que as vai alisando, mas aprendemos depressa a fechar os olhos.

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