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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe com café

rabiscado pela Gaffe, em 05.09.14

Há lugares, que nos entram pelos olhos e nos moldam a alma. Depois de alma já esculpida são os nossos olhos que por sua vez alteram o que vemos.

 

Uma metamorfose lenta, mas inevitável.

 

O Majestic é um lugar desses. Perfeito, decadente e tão mágico que os empregados são ogres autênticos.  

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A Gaffe atlética

rabiscado pela Gaffe, em 05.09.14

Estou zangada. Mesmo muito zangada.

Embora disfarce a minha fúria com a mantilha negra da sofisticação, não aconselho ninguém a aproximar-se.

Há dias em pareço ter garras, olhos de demente psicopata e em que todas as assassinas saídas dos filmes de terror não passam de peluches nos meus dentes.

Tudo porque ontem me esbardalhei como um trambolho entrevado.

 

Pela avenida sobrevoo, menina e moça que cedo levaram de casa de seus pais, de tacões da mana e carteira da prima, vestidinho novo, comprado em saldo e lindo de morrer, pronta a aromatizar as manhãs dos passeantes, quando vislumbro ao longe um agradável mocetão, todo elegante dentro do seu fato com um ar ligeiramente amarrotado, bonito, de negra madeixa ao vento, embora sem boina maruja ao lado,  queixo rectangular e primorosamente escanhoado, espadaúdo e a largar feromonas por tudo quanto é canto e esquina, passadeira, semáforo e beco escuro.

Que faço eu?

Toda lampeira, aprumo a pose e tento sugerir que me equilibro com especial facilidade nos andaimes Jimmy Choo. Lembro-me que uma rapariga sedutora sempre que quer ser apanhada, a primeira coisa que faz é parecer que desatou a fugir e começo a olhar para o horizonte, logo atrás do homem que faço por ignorar.

A poucos metros do rapagão, já com tudo praticamente ganho, o salto fica preso numa porcaria que me recuso a identificar – o que nos faz tombar não merece ser nomeado. Salta-me do pé o sapato. Não ânsia de o fixar, tropeço e vou toda, mas toda, sem poupar uma gotinha da mais insignificante elegância, pelo ar. Pareço uma mistura infeliz de uma nadadora em posição de partida - ou de um patinho que sabe bem nadar, cabeça para baixo, rabinho para o ar - e de uma atleta de salto em comprimento durante as passadas finais que a levam pelo ar até aterrar na areia. Tudo muito atlético.

Passo em velocidade de cruzeiro pelo homem e vou estelar-me uns metros depois já toda esbardalhada.

Podia, em vez de pata choca, ter sido um elegante cisne a morrer ou uma bailarina clássica e mais ou menos trágica em fim de bailado? Podia, mas não era a mesma coisa.

Podia ter acontecido um pas de deux retirado do velho Bolschoi? Podia, mas não seria tão humilhante como o que se seguiu.

 

O homem, já irremediavelmente condenado pelo crime de me ter visto a fazer aquelas figuras circenses, vem em meu socorro.

- Magoou-se?! Está muito pálida!

- Não! É o meu tom de pele. Se estivesse pálida estava morta. – Quando chegar a casa, flagelo-me.

- Posso ajudar?

- Obrigada. O meu sapato ficou lá atrás… - Quando chegar a casa, parto os dentes.

- Podemo-nos sentar ali na esplanada.

- É melhor não. Mais sentada do que aquilo que estou não é possível. - Quando chegar a casa, bebo cicuta.

 

Não adianta arrastar o episódio por mais tempo. O homem foi um querido, um mimo e um doce e fofinho cavalheiro, mas todas as raparigas espertas, sobretudo as esbardalhadas, sabem que nenhum romance tem início quando um dos envolvidos já viu aquilo a que o povo chama o cu à carriça antes da carriça o ter desejado.

 

Seria a mesma coisa que ter um caso com o meu ginecologista!  

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