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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe canina

rabiscado pela Gaffe, em 13.09.14

Deixem que vos mostre a Bórgia.

Bórgia é uma assassina nata.

Agora venham comigo à janela do meu quarto em casa da minha avó.

 

São sete da manhã e a minha prima acaba de fazer parar o carro à entrada do portão que se abrirá sem barulho, comandado por uma peça pequena com muitos botões minúsculos que não servem para nada a não ser para questionarmos a complexidade da vida e depois carregarmos num deles à toa.


Vá lá! Corram! Espreitem comigo.


A minha prima desce o vidro do carro e pesquisa o terreno. Não ouve o ladrar psicopata da cadela ensandecida e suspeita que a Bórgia ainda não foi presa.
A minha prima tem uma péssima relação com o neurótico animal. Tem o vício de a irritar, sabendo que as grades que a separam dela fazem com que a fúria aterrorizadora da cadela morda apenas o ferro. Sabendo-a presa, procura irritar a furiosa fera, chamando-lhe bébé, fofinha, béu-béu e babando treta cacofónica até à exaustão e ao esgotar completo das variantes mais roucas do ladrar da assassina.


Se olharmos agora para a nossa esquerda e procurarmos entre a ramagem vemos a Bórgia à espreita, quieta e muda, posta no sossego da emboscada, com os dentes atentos ao que se vai passar, completamente SOLTA!
A rapariga abre uma frinchinha na porta, devagar. Investiga. Decide telefonar cá para dentro. São sete da manhã! Espera o quê?! A minha avó declarou há muito que nunca se incomodam as pessoas antes das 09 e depois das 20 com campainhas histéricas ou notícias de óbito.
Um pé. Um contratempo. A minha prima não usa tacões altos. Para compensar, a saia é a travada.
Vai arriscar.

Hesita.

Fecha a porta.

Volta a tentar com um pezinho.
Ela aí vem! A disfarçar o medo com uma saltitante corridinha.


Um míssil de fúria disparado, a Bórgia em picado voo, desenfreada corre em direcção às pernas longas e ao pânico comprido da minha prima condenada à morte.
Depois subitamente finca as patas no chão. Quieta, a rosnar de lado. Absolutamente terrível, desmesuradamente pesadelo.
A minha prima não avança. Não pode avançar! Se mover um músculo, ficará sem ele.
A Bórgia vinga-se da forma mais perfeita.
A ganir, a minha prima ouve-se ao longe:

 

- SOCORRO!!!


Vai ter de esperar, qual estátua branca de jardim romântico, que a venham ajudar.

 

Entretanto, desço. Tenho tantas coisas para fazer que suspeito ocuparei toda a manhã longe do jardim e perto da mais curiosa e súbita falta de audição do resto da casa.

 

Foto retirada de o mundo dos outros

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