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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe olímpica

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.14

Quando os deuses decidiram que era chegada a hora de distribuir benesses, a Gaffe estava sentada na fila da frente, de perna traçada, com os sapatos Manolo Blahnik da irmã, caracóis fulvos a reflectir os relâmpagos divinos, de tailleur Chanel a preto e branco, carteira de crocodilo com ferragem Prada e o colar de pérolas da praxe.

Um luxo.

É evidente que os deuses se renderam.

- A piquena é o máximo!

A piquena teve então direito a tudo. É evidente que não tem nada a declarar a não ser os dois irmãos desesperantemente perfeitos que lhe foram doados.

Seguindo as passadas dos Espírito Santo, a Gaffe considera uma maçada ter o seu nome misturado com números de somenos importância ou a titular contas que só devem ser manuseadas pelos economistas e por aquelas criaturas que marcam uma cruzinha na ausência de rendimentos quando lhe preenchem o boletim do IRS.  

 

MAS

 

- A Gaffe sabe que nos tempos que correm é socialmente mais correcto choramingar desgraças de plástico do que usar as pérolas da avó.

- A Gaffe sabe que é mais bonito e mais fofo esgadanharmo-nos pelo panda ou pelo tigre da Malásia, tão fotogénicos, do que defender a carriça da Nova Zelândia ou o morcego do Uzbequistão que parecem os amuletos horríveis daquela tribo que seca e mirra as cabeças dos inimigos para as usar ao pescoço.

- A Gaffe sabe que não é conveniente esbardalhar um  vison, mesmo uma excelente imitação, porque nos arriscamos a ser acusadas de ter assassinado o Topo Gigio e de sermos facínoras ambientais.

- A Gaffe reconhece que chorar é mandamento neste mundo e que quem não chora não mama ou já está morto e que, posto assim, é bem melhor optar por nos desfazermos em lágrimas com make-up à prova de água, dentro de um Rolls.

- A Gaffe descobre cedo que é mais inspirador ser-se falido igual aos outros que faliram e teórico abespinhado com as tragédias pequerruchas de mundos pequeninos do que entregar ao que pede uma sardinha piedosa uma rede de pesca unida a dois tabefes nas bocas descaídas dos falidos que nós somos.

- A Gaffe percebe que um sofá caseiro e amanteigado é o lugar mais conveniente para nos insurgirmos contra a queda de aviões e caçarmos terroristas à la carte.   

          

É evidente que apesar das dádivas dos deuses, a Gaffe às vezes sente um buraco negro dentro do peito para onde é perigosíssimo espreitar.

Enche-o de reprovações beatificadas, de hipócritas revoltazitas, de condenações popularuchas, de indignações bolorentas e de mesquinhos beliscões moralistas, manda que o tapem com cimento armado em chique e vai afogar o sentimentozinho de culpa que lhe entregam no SPA do Olimpo.   

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