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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe do Halloween

rabiscado pela Gaffe, em 31.10.14

Bill Medcalf.jpgAcreditem, rapazes! A Gaffe raramente aprecia os vossos disfarces, as vossas máscaras de vampiro, as vossas monstruosidades de hipermercado ou as vossas partidinhas com aranhas de plástico. Normalmente sorri, esconde a vergonha alheia e suplica a Belzebu que reduza a cinza o vosso Halloweeen de pechisbeque.

Meus queridos, neste dia, o único receio de uma ruiva esperta é que o cabo da vassoura não faça pendant com a capeline negra azeviche Galliano. 

Ilustração - Bill Medcalf

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Gavetas:

A Gaffe conta com bruxas

rabiscado pela Gaffe, em 31.10.14

shirley_temple_17.jpgEra uma vez, Azra.

Azra era uma bruxa pequenina de cabelo cor de fogo.

O chapéu preto de Azra era mágico, assim como mágicas eram a sua vassoura e a sua longa capa preta.
Do chapéu, Azra tirava todos os sonhos e todos os desejos de tudo o que existia no Universo. Da sua longa capa preta, Azra fazia a noite que é uma boa estrada para espalhar sonhos e desejos. Na vassoura, Azra caminhava pelo céu como se tivessem asas, ela e a vassoura.
Azra vivia no castelo que trazia dentro do chapéu. Mal acordava, Azra sacudia a poeira deixada pelo sol no chão do seu quarto, sentava-se numa esterlita e lia na sua bola de orvalho os sonhos e os desejos.
Ora, daquela vez, a bola de orvalho de Azra espelhou apenas um desejo. O desejo do sol.
O sol sonhava beijar a lua que Azra trazia no coração. Sentia-se cansado e só, o grande e pobre senhor brilhante.
Azra pôs-se a pensar. Pensou tanto que o céu inteiro se cobriu de nuvens e um ou dois trovões vieram para riscar a chuva. Nada de grave.
Subitamente, Azra descobriu!
Tirou as suas pantufas de algodão doce, a sua camisa de dormir feita de teias pequeninas e de prata e decidiu voar em pleno dia.
Azra voou e fez levantar o vento e o espanto dos homens.
Lentamente o céu começou a ser coberto pela capa de Azra. A pequena bruxa voava como se fosse um pincel molhado em tinta preta. Em direcção ao sol, Azra espalhava muito devagar a noite em pleno dia.
A bruxa pequenina sentia muito calor. Os seus cabelos ficavam ainda mais vermelhos, como fios de fogo espalhados no céu, mas avançava.
Na terra os homens viam a noite começar em plena tarde, cada vez maior, como se estivesse a comer devagarinho a bolacha doirada da luz.
Então, quando toda a capa de Azra se espalhou no ar, a bruxinha viu-se em frente ao sol que lhe sorria. Azra pensou que valia a pena fazer sorrir o sol e muito lentamente tirou do coração a lua e ofereceu-lha. O sol beijou-a e Azra corou ao ver corar a lua.

 

Depois, não sei. Azra partiu levando a sua capa nega e a luz da tarde regressou muito mais forte.
Dizem que Azra volta ao entardecer, todos os dias, para oferecer a lua a todo o sol que vive no coração dos homens.
Mas isso é um segredo que não se conta a ninguém.

 

Na foto - Shirley Temple

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A Gaffe e a confidente

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.14

Veneza.jpgA senhora não encontra o isqueiro.

Procura-o, discreta, na carteira preta de verniz Cartier. Sorri. Não me quer interromper.

Falo do meu não saber do nome das ruas, porque todas as ruas eram o outro rosto. Falo-lhe do meu não saber da cor dos rios e do meu não saber da curvatura das pontes, porque todos os rios eram outros braços e porque entrava neles de olhos fechados, porque todas as pontes eram outros olhos, todos os arcos eram outros lábios.

 

A senhora brinca com o brinco. O fumo invade-lhe o cabelo mesclando de cinzento as ondas brancas puras.

 

Falo-lhe do medo que sentia quando ele vinha tarde pelas nocturnas ruas de chuvas e de esperas. Falo-lhe dos risos desatados nas avenidas soltas e desertas pelas horas, de mãos dadas a desfiar palavras. Falo-lhe das promessas, das certezas, dos seguros muros que nos resguardavam, da eternidade presa por grades de penas e de nuvens.

 

A senhora esmaga o cigarro contra a cigarreira aberta. Breve, a cigarreira, e não lha deu a mãe, mas o amante numa cidade longe no tempo e ocupada.

 

Falo-lhe dos ferros que me entraram no cérebro, não no coração, que o tinha dado, quando a porta não abriu por não haver ninguém do outro lado, por ter ficado fora, por ser apenas uma a mais, apenas uma a mais, a mendigar abrigo. Falo-lhe das escadas em caracol de espera, só para suplicar que me dissessem porque não podia amar demais. Falo-lhe da certeza de que o amor assim inadiável é o único amor que merecemos sentir.

 

A senhora e a chávena. A senhora beberrica. Sorri. Não quer interromper. Brinca com o brinco. Retira outro cigarro. Procura as ondas brancas do cabelo e inclina levemente a cabeça enquanto espera.

 

Falo-lhe dos braços que me vieram arrastar. Falo-lhe dos abraços a recolher pedaços. Falo-lhe do ódio que gosto de sentir. Falo-lhe das vielas de uma alma suja onde gostava que ele morresse ou que sentisse o mesmo que senti, que é a mesma coisa. Falo-lhe da desmesurada, deserta desolação das ruas que vivi depois de ter morrido.  

 

- O ódio, minha querida menina, é apenas a máscara escarlate pousada na gôndola do carnaval do amor. É a indiferença que afundará Veneza. Procura a indiferença. Quando a encontrares, podes tornar a amar o que perdeste dentro da alma desse homem perdido.

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A Gaffe do postal ilustrado

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.14

malas.jpgA minha avó marca a folha do livro com um postal ilustrado antes de o fechar e erguer os olhos.

Depois a cigarrilha em prata. O fumo do cigarro, esparso, no aposento.

A senhora sorri e segue com os olhos a estrada cinza ténue que se esfuma.

- Minha querida, quando decidimos partir temos de saber que nenhuma estrada nos vai levar para lá de nós. Não viajamos nunca. Ausentamo-nos.

Há lágrimas nos olhos da senhora.

(O fumo. Ah!, o fumo.)

- Partir é apenas uma ilusão que fica. Acreditamos sempre na viagem, mas o que resta em nós é a ausência sentida nossa no lugar que fica. Não viajamos a não ser por dentro.

O fumo.

- Não saímos nunca dos lugares onde fomos amados.

 

Do livro da minha avó um postal que tomba. A página perdida.

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A Gaffe de hijab

rabiscado pela Gaffe, em 28.10.14

Moda-Lisboa-LEGACY-FIlipe-Faísca-1.jpgQuando Mary Quant fez explodir as mini-saias ou YSL fez desfilar o smoking feminino, nada mais fizeram do que encarnar com o glamour das passerelles o que latejava nas ruas. Souberam de modo perfeito interpretar o pulsar dos desejos, das aspirações e das embrionárias metamorfoses do palco das avenidas. Mostraram com estrondo o que vinha a ser inconscientemente necessário. Não entraram em ruptura com o estabelecido como norma, deram apenas uma voz determinada e contínua ao que se vinha tornando evidente embora ainda detentor de pouco vocabulário.

Vestirmo-nos é também carregarmo-nos de signos, de símbolos, que comunicam como qualquer outro código. É também propormos uma identificam de grupo, é mesclarmo-nos com o quotidiano, é traduzirmos o que pensamos, o que queremos, o que nos revolta, o que nos agrada ou o que de comum existe entre os pares que escolhemos.

É idiota pensarmos que a inutilidade grassa no compasso e na cadência dos manequins. Interpretar e sermos interpretados pode ser a ponte que liga as margens do quotidiano aos passadiços da moda. O modo de passarmos.

A recente edição da Moda-Lisboa não teve história. Repetiu-se a esgotada receita e dela saímos com o paladar intacto.

Houve no entanto uma réstia de arrojo.

Os hijab e os Niqāb de Filipe Faísca prometeram muito mais do que o habitual.

Não seria a primeira vez que um criador faz estalar chicotes onde não se espera. Lagerfeld finda o seu último desfile fazendo surgir os manequins com cartazes onde se reivindica o fim da moda e a apologia da mulher liberta, numa homenagem à mãe, corajosa feminista.

Filipe Faísca insinua. Filipe Faísca promete. Filipe Faísca faz com que se espere uma intervenção contundente, mais ou menos ácida, na página que se vai escrevendo tapada na mulher do Islão.

Não se pedia muito. Não se exigia mais do que aquilo que era insinuado. Mas Filipe Faísca não cumpriu. Nada se fez, nada aconteceu. O criador declamou as banalidades do costume, os lugares comuns da praxe, as balelas habituais e transformou uma oportunidade de falar a sério através dos códigos que muitas vezes se levam a brincar.

Não prestou. Não valeu a pena.

Filipe Faísca acabou lido como seria correcto. Um homem de ceroulas, enfiado numa espécie de camisa de dormir masculina do início do século XIX, ao telefone com uma senhora que se esgota na repetição monumental dos objectos, inevitável em todos os eventos que reunam muita gente.

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A Gaffe diferente

rabiscado pela Gaffe, em 27.10.14

4822821-md.jpgConfesso que prefiro ser obrigada a olhar durante 30 segundos para a fotografia do José CId nu, com um LP a tapar as vergonhas, do que ouvir clamar ainda que durante menos tempo a igualdade das pessoas portadoras de deficiência em relação a criaturas tidas como normais.

Não são.

De nós, precisam sobretudo do reconhecimento da diferença. É meio caminho andado para a dignificação e respeito pelos direitos que lhes são inerentes e que diferem porque mais específicos e em número maior dos que são apanágio da normalidade.  

A igualdade não é democrática nestes casos. Sou igual ao portador de deficiência quando, por causa dele, são cumpridos direitos que não posso exigir porque não os tenho. Não tenho o direito a adaptações arquitectónicas, mas tenho o dever de as exigir para se cumprir o direito do Outro.

É constrangedor ser testemunha de simulacros imbecis de civilidade que surgem apensos ao tratamento que damos ao portador de deficiência em nome de uma pretensa igualdade que o prejudica.  

Embora não totalmente passível de ser aproximado deste assunto e obrigando o que é dito a ultrapassar os limites do razoável, se bem pesarmos, a gravidez, olhada pela imunologia, é uma infecção. Então a senhora infectada poderá ser tratada como uma moçoila saudável e aguentar de pé os solavancos do autocarro. É igual a nós, pode não ter a benesse do lugar vazio em horas de ponta. Justifica-se indirectamente a falta de vergonha civilizacional dos javardos que lhe ocupam o lugar. Não há sequer razão para a reserva!

À mão (não me parece de bom tom referir que temos aqui mesmo ao pé) temos Stephen Hawking,  cuja inteligência é do tamanho do aborrecimento que me desperta, e Oscar Pistorius, cujas estupendas e surpreendentes capacidades físicas (e balas) deixam qualquer normalidade para trás, para nos provar de forma mais que evidente que os portadores de deficiência são tudo menos iguais a gente sem ela.

Tratarmo-nos como iguais, forçar esta espécie de hipócrita conveniência e correcção política, resulta sempre na anomalia e na distorção do mais banal dos quotidianos.

 

Lembro-me sempre deste episódio quando me insurjo contra esta forçada igualdadezinha bacoca:

 

Para dizer adeus a Paris, nada melhor do que um jantar onde os convidados são melhores que a ementa. Temos sempre a possibilidade de dizer mal de qualquer de qualquer coisa ligada ao que se come, sem ferir susceptibilidades e sem correr o risco de cravamos as facas onde não devemos. Isto, claro, se falarmos só no que traz o menu.
A minha irmã tinha convidado  uma das suas cúmplices, e por arrasto o marido, um gentleman muito silencioso, que concordava com tudo apenas para não ter de se pronunciar sobre nada, e os dois filhos do casal.
Não sou muito apologista do alegre convívio com os mais pequerruchos. As crianças, por norma, não simpatizam comigo e, definitivamente, não crio empatia nenhuma com elas, mas os miúdos - um casal - eram engraçados e pareceu-me que, confiando na opinião generalizada, muito queridos.
O rapaz, com cerca de sete anos, era portador de trissomia 21, o que fazia dele um agradável e despreocupado companheiro de aventuras. A sua assertividade social  é deficitária e o pequeno estava envolvido num processo de aprendizagem comportamental e de socialização muito complicado, mas que passava por, e transcrevo o que ouvi, um treino constante de inclusão igualitária entre pares e exclusão do processo de diferenciação nas vivências do quotidiano, e ao qual não me parecia ligar uma pevide.
A minha irmã, amorosa, decidiu sentar-se ao lado dele e olhá-lo como igual.
Foi sorrindo e esvoaçando, saltitando e piriquitando até que a nouvelle cuisine  fez o efeito esperado no miúdo.
Virado de boca escancarada para a mulher ao seu lado, o rapazinho fez sair das entranhas mais profundas da alma um arroto digno de um tratado de medicinas alternativas.
As pernas das cadeiras tremeram, os pratos abanaram, os cristais estilhaçaram e saltaram os talheres pela mesa fora!
A minha irmã paralisada, de olhos esbugalhados e cabelo arrepiado e esguedelhado pela deslocação do ar, tentava segurar-se com as unhas cravadas na toalha!
- Pardon! – Descontrai o rapaz ainda de goelas abertas.
A exclusão do processo de diferenciação nas vivências do quotidiano, como se viu e ouviu, acabava de ser destruído pela sonora realidade solta pela diferença.

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A Gaffe do gmail

rabiscado pela Gaffe, em 26.10.14

MESSENGER2.jpgPara espanto da Gaffe, desde que se tornou mais visível com o inesperado destaque do SAPO - que prova desta forma e sem margem para dúvidas que é capaz de fazer um blog com uma facilidade estonteante - o seu email tem recebido algumas mensagens curiosas, algumas divinas, outras mais terrenas.

Divinas, porque só podem vir do céu as reprimendas e toda as repugnadas indignações expressas de forma mais ou menos anónima, ao abrigo de herméticos endereços electrónicos e salvaguardados pela ginástica do imaginário possível e permitido pela net que, sempre disponível, esconde a identificação do indivíduo atrás de jogos de palavras separadas por hífens minúsculos, pontos mirrados ou encriptadas aglutinações. Conveniente, mesmo até para a Gaffe.

Terrenas, porque acabam em convites mais ou menos íngremes ou apontam caminhos divertidos, demasiado carnais para que se possam considerar angélicos.

Esta rapariga não entendo os desvios que são feitos! Afinal todos os comentários, celestiais a tocar harpa ou vindos do Inferno a cheirar a enxofre, são acolhidos aqui sem réstia de censura.

Mas quem é a Gaffe para questionar as esconsas vias da mente e da demência humana?!

 

É forçada a admitir que todos lhe agradam.

 

O número não justifica uma qualquer classificação, mas se lhe juntarmos os que a Gaffe recebeu ao longo do tempo destas Avenidas, podemos com facilidade esboçar algumas interessantes linhas de força.

Recortemos os textos e com os excertos tentemos uma abordagem simplex.

 

1 - Mensagem SOS
Pertence a este grupo os desesperados apelos ressequidos, concisos, curtos, precisos:

 

- Telefona-me. O meu n.º é o 9*#&?"/@*
- Comia-te toda. Queres vir ter comigo? Espero por ti no Molhe.
- Tenho lido o que tu escreves e vi-te há uns tempos na Casa da Música. És boa como o "#%&(#"!#
- Por favor, responde-me a este mail. Sou teu fã incondicional.

 

 2 - Mensagem "MIX"
Mais longas e mais suaves, unem a poética aos aspectos rascas das missivas, resultando assim:

 

- Vi-te na Foz ontem à tarde. Tenho a certeza que eras tu porque não consegui deixar de olhar para ti. Não quero só o teu corpo, quero o teu talento e inteligência.
- És um sol sobre as sombras da vida. Tu brilhas por todo o lado e o teu corpo é uma praia abandonada onde gostava de passear. (Gosto particularmente deste!) 
- Leio sofregamente tudo o que escreves. És um óasis.

- Apaixonei-me por ti. Vou deixar o meu número. Telefona-me. Por favor. Só te vejo a ti. Até sonho contigo.

- Espero todas as manhãs poder ler-te. És o meu café com leite.

 

3 - Mensagem "PLUS"
Elaborada e repleta de referencias culturais:

 

- Não sei porque é que estou a escrever-te. Pareço Godot à espera do Nada.

- Descobri-te no SAPO e confesso que és tu que neste momento me preenche a minha biblioteca.

- A tua ironia é digna dos grandes. Às vezes fazes-me levar para a literatura francesa. Gostava muito de te conhecer pessoalmente.
- Se eu conseguisse transcrever o que sinto quando às vezes te leio! És uma Colette renovada.

 

4 - Mensagem "BEATUS"
Dos beatos e das beatas brevemente canonizados pelo Santo Padre:

 

- O teu modo de expressar sentimentos e sensações não são dignos de ser lidos e ferem as pessoas que prezam a dignidade, a Fé, o respeito e a verticalidade.
- Não gosto sobretudo do teu achincalhar tudo o que é respeitável. Aquilo que o homem tem de mais sagrado e humano.

- A sua frontalidade parece-me excessiva. Não deveria permitir-se falar de forma tão aberta sobre assuntos tão melindrosos. Devia ser mais contida naquilo que diz.

- É escandalosa a maneira como te referes aos outros como se os outros não fossem nada mais do que bonecos animados nas tuas mãos. Nem toda a gente quer-se ver assim despida. Há coisas sagradas que tu pareces desconhecer. Há gente que preserva a sua intimidade e tu não podes desembrulhar tudo assim ao léu.

 

5 - Mensagem "PIA"
Grupo a que pertencem as solidárias reprimendas:

-Nunca deverias andar à solta a brincar com os sentimentos das pessoas e com a lisura delas. Serás castigada pela vida, mais cedo ou mais tarde, mas é sempre tempo de retroceder. Estou ao teu dispor através do n.º !”%$#!?#*
- Nunca comentei nada no teu blog porque me sei superior àquilo e sei que és uma inocente. Tu sofreste. Entretanto deixo-te o meu n.º de telemóvel para caso desejares desabafar comigo. Estarei sempre a postos sempre que quiseres falar com alguém

 

A Gaffe está ponderar organizar um encontro destes seus queridos, preocupados, pios e sôfregos amigos. Todos juntinhos e em colaboração estreita e apertadinha, podem alterar a vida de pecado, deboche, desrespeito, falta de fé e de contenção, desta condenada rapariga, para além de lhes permitir rezar e combinar aconchegadinhos uma data de expiações escabrosas. 

 

Deslarguem-na, sim?

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A Gaffe entediada

rabiscado pela Gaffe, em 25.10.14

.De que nos serve a eternidade numa tarde solarenga de Sábado?

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Gavetas:

A Gaffe da BT

rabiscado pela Gaffe, em 25.10.14

292715_526485607380606_43711416_n.jpgO homem a baloiçar no cume da sua autoridade. Primeiro os dedos dos pés, depois o calcanhar. No balanço, move a anca, com extrema subtileza. Para a frente, quase deixando entrar pela janela o bastão visível, para trás, fazendo deslizar o pau de encontro à coxa de embondeiro. 


Fomos mandadas parar por uma Brigada de Trânsito. A aproximação de um dos gigantes é esperada pela minha irmã que retira repleta de enfado a documentação do porta-luvas.

As botas do homem massacram a berma da estrada e somos feridas pela doçura inesperada da sua voz maior.
Emoldurado pela janela do carro, tenho o centro do corpo bravíssimo do Polícia! Como se eu fosse realizadora de fitas tolas e com os dedos mimasse o rectângulo do plano frontal das ancas do homem para depois o roer nas entranhas da máquina, tenho na dianteira a peça autoritária pregada à janela. 
- Uma palavra tua! Um gesto teu, mínimo que seja, e vão ter graves dificuldades em apanhar-te os membros. – Ameaça a minha irmã, depois de observar o mesmo que eu. 
No meio das pernas grossas, poderosas, no cimo das coxas graves e potentes recortadas pelo rectângulo mal feito da janela, dentro de sarja cinzenta que parece rebentar a todo o instante, é visível, primorosamente desenhado, o sexo do homem, preso por boxers justos, pois que se decifram as cicatrizes do fim da peça elástica, nos inícios das coxas.
Não parece contente por nos ver.
- Em breve terá de levar o carro à revisão. – Recomenda o bastão. 
A minha irmã prende a madeixa de cabelo atrás da orelha e sorri. A mão esquerda cravada no volante e a direita a apertar-me, a massacrar-me os músculos a sufocar-me, a esmagar-me, a triturar-me a carne. 
- A senhora sabe que não deve conduzir com esses saltos? – Continua, depois de ter enfiado a cabeça taurina no espaço que subitamente aperta. 
- Claro! – Responde a minha irmã, atarantada, atabalhoada, aturdida, atazanada e é neste momento que tudo se ilumina: 
– Claro! que tonta que fui! Eu normalmente uso pénis… Ténis! TÉNIS!

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A Gaffe blogada

rabiscado pela Gaffe, em 24.10.14

É um dos blogs mais inteligentes que persigo!

meu menino tem uma capacidade de jogar com todas as potencialidades semânticas da palavra que nos deixa perplexos e continuamente seduzidos.

O lúdico irónico e sarcástico, um labirinto de significantes que nos acotovela, um empurrão crítico e mordaz, um apetecer que não nos vicia. Bloga-nos.

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A Gaffe sonolenta

rabiscado pela Gaffe, em 24.10.14

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A Gaffe tem os braços sonolentos.

Gostava que chovesse. A chuva é exigente. Fácil de abraçar, mas difícil de aquecer dentro do abraço.

Depois a Gaffe gostava que surgisse o silêncio. A ténue teia do silêncio, como se nos braços  houvesse uma saudade a proteger do tempo. Ou de um segredo. Os segredos são traços de carvão no chão das ruas. As águas da memória alteram o formato, diluem o rigor com que os riscaram.

Distorcem o guardado.

A Gaffe pensa que proteger um segredo é como ter saudades. Sabemos das almas que os provocaram, segredo e saudades, mas perdemos nas chuvas dos braços o rosto dos donos.

A Gaffe, de braços sonolentos, mascara-se de nuvem.

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A Gaffe de Jessica Zellweger

rabiscado pela Gaffe, em 23.10.14

simpsons.gifA Gaffe compreende que tenha havido uma maior actividade sísmica nas redes sociais com epicentros em Jessica Athayde e em Renée Zellweger.

Esta rapariga esperta tem de confessar que sentiu alguma dificuldade em reconhecer a segunda e muito gosto em rever a primeira que teve oportunidade de vislumbrar esbardalhada numa capa de revista masculina a tentar encarnar com muita, muita, muita força a mulher irreal que acabou por condenar com afinco num dos seus comunicados todos indignados.

É evidente que a Gaffe entende estas marotas contradições. As suas Avenidas estão pejadas delas e atingem mesmo áreas que não estão ligadas à beleza. A entrega do doutoramento Honoris Causa pela UBI a Zeinal Bava é o Photoshop a quebrar o limite dos retoques nas bochechas das meninas, embora igualmente idiota.

A vida real usa imenso o Photoshop.

Casos como os de Athayde e de Zellweger começam a causar um tédio que faz com que a cinematografia de Oliveira nos pareça um bólide de fórmula I conduzido por Schumacher antes de nevar. Estamos gordas de saber que, embora a Duquesa de Alba seja apenas um percalço da nobre arte de embalsamar, a procura incessante e tresloucada do elixir da juventude é recorrente e tem envelhecido imensa gente.

A culpa, diz a Gaffe espalhando o La Crème da Shiseido por tudo quanto é canto e esquina e parafraseando o ilustre inglês, não está nas estrelas, mas em nós. No sossego e aconchego dos nossos sofás, para além das bolachinhas, mordemos o isco que bamboleia imagens cintilantes injectadas com a toxina da ilusão da eterna juventude, repletas de pinceladas correctoras que não apetece muito descobrir e que nos deixam anestesiadas pelo calado desejo de as imitarmos ou encarceradas na consciência de que jamais seremos o isco que ali dança.

Amarfanhamo-nos e depois abrimos a revolta e a indignação, invadimos espaços e gritamos desalmadas contra a escandalosa manipulação do corpo feminino, contra o uso e abuso de imagens que clamamos ser alienígenas e insurgimo-nos perante os distúrbios de personalidade que provocam.

Desfraldamos e defendemos a bandeira do real, mas esfacelamos logo a seguir as que parecem concordar connosco e nos mostram orgulhosas as rotundas inevitáveis dos seus corpos.

A Gaffe pensa que é uma descortesia cravar a estaca no coração do vampiro ao mesmo tempo que lhe sugamos o pescoço.

Esta rapariga esperta sabe que ouvirá sempre o som dos alfinetes histéricos que se espetam nos rostos das Zellweger e, pelas razões opostas, nas coxas das Athayde.

 

Uma maçada.

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A Gaffe num santuário

rabiscado pela Gaffe, em 23.10.14

Antonio Martinez de Espinosa - 1760.jpgApoia o queixo na palma da mão, com a cabeça ligeiramente inclinada e o cigarro em brasa demasiado próximo das ondas brancas do cabelo. A luz reflectida na pulseira de oiro larga, fechada por um minúsculo cadeado, projecta uma pequena forma ovalada que não sossega, agitada como uma menina que desfaz as tranças a baloiçar na inquietude. Às vezes, no colarinho branco, o pequeno reflexo luminoso parece uma jóia intemporal e frágil, intocável, segura ao tecido pela serenidade que surge quando a minha avó fica mais atenta ou como um insecto de luz que pousa atraído pela brancura incendiada da camisa.

A senhora recorda transgressora a noite em que o viu pela primeira vez  a nudez masculina.

 

- Há homens, minha querida, que fazem da nudez uma caverna. Outros há que dela fazem céu aberto. No entanto, a timidez é o último reduto dos despidos.

- Como a terra dos homens perseguidos? – Lembrei-me dos Santuários dos foragidos medievos, da imagem breve de um homem desgraçado pela multidão a despenhar o corpo nas pedras de uma catedral e a despojar a alma toda macerada num derradeiro uivo salvador.

- Um Santuário? – A minha avó sorve o fumo do cigarro. O insecto do oiro da pulseira outra vez inquieto.

A senhora e o silêncio debruçado sobre mim.

- A ideia de Santuário sempre me agradou. A última promessa, a derradeira exalação da esperança, o torniquete suspenso por um espaço físico intocável. Mas a nudez não é essa espécie de cadáver adiado que procria.

A senhora contradiz o aforismo.

- A nudez abrevia os homens. Ficam sós diante dos espaços que os circundam e a solidão tem o corpo que eles despem. Nus, resumem o que temem no descampado do corpo que revelam e a timidez é o coração do medo, o último reduto onde eles tombam, mas que não tem a essência do que salva.

 

A minha avó sorri e atira o fumo devagar, em fio, de encontro ao reflexo da pulseira que parou, depois acaba:

- Nu, o homem descobre se tem asas de falcão ou de morcego, mas é sempre um outro olhar a proteger-lhe o voo. O Santuário, minha querida, é sempre uma mulher.

 

Imagem - Antonio Martinez de Espinosa - 1760

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A Gaffe do veterinário

rabiscado pela Gaffe, em 22.10.14

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É habitual conhecermos gente que deixa tombar a tensão arterial na calçada das ruas da amargura perante a ameaça das batas brancas dos médicos, mas normalmente comporta-se com discrição, reserva e alguma elegância.

Já os bichinhos são muitíssimo mais evidentes e expressivos. O prenúncio da presença do veterinário faz deles as mais indefesas das criaturas do planeta e francamente parecidos com a Gaffe quando suspeita que vai ter de sentar o rabinho na cadeira do dentista.

 

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Gavetas:

A Gaffe dos amantes

rabiscado pela Gaffe, em 22.10.14

Sem título.JPGA rapariga procura aconchegar-se no ombro dele, sentados na esplanada friorenta, enquanto ele folheia sem interesse um livro.

O rapaz sente-lhe o perfume do cabelo e a textura suave do casaco que a protege das breves rajadas de vento.

Amam-se quando o silêncio é suportado a dois sem sobressaltos.

São duas criaturas estranhas aos olhos de quem passa. Estão, como se procurassem encontrar ali o que lhes fugiu da alma sem lhes ter deixado a consciência de existir de tão fugaz e fugidio. Andam pelas ruas como os pássaros que pousam indiferentes nas abas dos canais, nos troncos corroídos das marés ou nos lanhos de luz abertos nas vielas. Passam como perfume nas linhas desenhadas pelo que fica. Depois de passarem, fica a moribunda esperança de colheremos aquilo que não chega a ser matéria de alma por ser mais indizível, ainda mais raro, intoleravelmente mais difuso.

 

Na esplanada, ele folheia um livro enquanto ela repousa no seu ombro.

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Gavetas:

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