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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe à procura

rabiscado pela Gaffe, em 04.10.14

 

Procuro na transparência oculta das palavras captar as imagens da vida dos outros, como quem apanha no ar, com afinco e quase desespero, as partículas mais visíveis do pólen que se espalha, que acabo por sentir que não faço sentido. 
Falo de quem amo e recolho com a angústia que advém da incapacidade de o fazer de modo mais perfeito, os pedaços, os farrapos, os lanhos e as fendas, os rasgos e os segundos que, da vida dos meus mais amados, mordem as memórias que deles quero ter. 
Mas acabo por me ver sentada ao longe, no camarote forrado e confortável, a observar o palco onde, sem sentido e com ruído, a vida dos loucos faz parte da minha. Aquela que vivo é quase sempre alheia passando nas margens do mundo dos outros, sem tocar na água que corre nas almas.
Que sentido tem não me ver sentir nas malhas do enredo alheio? Que argumento estranho a mim vale a minha vida?
Olho para mim de vez em quando e quando o faço apenas vejo uma avidez desgrenhada pronta a reter os mais irrisórios e os mais inúteis lampejos de luz da vida dos outros. Uma sequiosa atenção a todo o fabuloso e desmesurado génio que, de súbito, aflora a superfície da alma daqueles que mais quero.
Olho para mim e desconheço, de repente, se a minha vida é parte integrante da vida dos outros ou se apenas passo pela brisa da tarde como alguém pequeno a quem roubaram fogo e asas e que os procura no céu rasgado à força de tanto o olhar, mas que é o céu dos outros.


Olho-me, nesta manhã, e lembro-me do meu Amigo gigante e moreno.
Vai erguer-se e caminhar na minha direcção. Tombado sobre aquilo que eu escrevo, vai tocar-me a nuca e beijar-me os ombros.


Olho-me e vejo-me beijada.

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