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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sofre um AVAC

rabiscado pela Gaffe, em 09.10.14

Rene Gruau.jpg- Seja uma menina bonita e esclareça o senhor da manutenção acerca disto. Parece que vamos ter um AVC.

Por momentos senti-lhe a hesitação. Por escassos segundos percebi-lhe o descontrolo.
A minha irmã sabia que tinha escorregado, confundido e misturado qualquer coisa, mas durante um ínfimo espaço de tempo impaciente não quis, ou não conseguiu, detectar o erro absurdo.
- Tenho de esperar que tenhas o orgasmo ou vais dizer-me já onde é que me enganei?  A minha irmã sabe desarmar o inimigo!
- Vamos ter um AVAC, uma unidade central de ar condicionado. Um AVC é um acidente vascular cerebral. Estás quase a sofrer um agora. – Consegui erguer-me.
A minha irmã sorriu e fez o que as sábias mulheres fazem quando querem comprovar a frescura do peixe, espreitando-lhe as guelras escarlates. Com as garras tocou-me numa pálpebra inferior, desceu-a carinhosamente e sondou a meia lua encarnada, pesquisando anemias.
- Desde que façam o que EU peço da forma que EU desejo, podem usar todas as siglas que quiserem.
Rodou discretamente enfadada.
- Agora, minha pequerrucha, vai brincar. Tenho de corrigir um ou dois documentos idiotas que ditei acerca disso, ou então fazer com que alguém os assine por mim sem os saber ler.
Há dias o Cerruti da minha irmã trazia cicuta nos bolsos.

 

Ontem, quando a Mélinha chegou hoje atrasada para servir cafés, desculpou-se com a avó de mais de oitenta anos que tinha sofrido na véspera uma suposta ameaça de um AVC.

Foi apedrejada, cuspida e esquartejada.
A pobre, agarrada à máquina de triturar o grão, encolhia-se e amaldiçoava a velhota por não ter sido fulminada e não ter morrido logo, logo!


Tudo porque a minha irmã, depois da embaraçosa gaffe, tinha imposto a Lei Marcial.

Todos tiveram de repente demasiadas coisas para fazer, com prazos extenuantemente curtos que complicavam e impediam a livre circulação de pessoas e bens pelos corredores e gabinetes.
A piadinha afiada acerca do problema de saúde da maninha, foi atenuada de forma drástica e asfixiada por uma espécie de impaciência, mesclada de irritação e agulhas envenenadas, disparada pelos olhos secos da minha irmã que não voltou depois do almoço, conhecido o acidente.

Foi então que uma subtil variante do caos se instalou no gabinete. O caos ordenado.

Ninguém estava seguro das decisões que tinham de ser tomadas. Ninguém entendia completamente os desejos dos projectos de maior envergadura. Ninguém se arriscava a traçar um risco sem ter por baixo a guia ténue do lápis da minha irmã e ninguém se podia escudar no irreformável poder de decisão do seu perfume .
os mais submissos, sempre à procura de morder a mão que lhes não dá nada, tentavam superar-se, dividindo-se pelos gabinetes, multiplicando-se pelas fotocopiadoras, somando a cada passo erradas decisões e subtraindo prestígio aos seus currículos.
Nunca perceberam que a minha irmã conhece os movimentos de todos os rivais - mesmo os que são feitos no WC - e que eles por sua vez só lhe vislumbram, quando ela acha necessário, a ponta do sapato.


Quando a Mélinha se atrasou para servir café, apenas a véspera da sua avó velhota fez lembrar desgraçadamente o AVC errado.


Ao jantar, com a minha irmã chegada do cabeleireiro, uma Audrey Hepbrun numa versão ainda mais alta, tentei (tão inocente!) reprovar-lhe o afastamento e provocar-lhe a culpa.


- Quando a nossa ausência tem a mesma autoridade que a nossa presença, eles acabam por sentir quem tem Poder.


Na sala, o riso quase infantil da minha irmã estala os móveis todos.  

Ilustração - Rene Gruau

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Gavetas:

A Gaffe num escolha

rabiscado pela Gaffe, em 09.10.14

Li há muito tempo um conto perdido em que um casal, ao cruzar com outros - um cão, uma árvore, jovens e velhos, pedintes e nuvens, damas e senhores, pássaros e vermes - desenhava uma cruz num caderninho.

Ao fim do dia, cada um contava a quantidade de cruzes que tinha apontado. Ganhava aquele que tivesse mais. Ganhava aquele que trocaria mais vezes a vida que tinha por aquela com que se cruzou.

 

Creio que todos esbracejamos na angústia de nos vermos afogados. Não é igual o modo como o fazemos, mas alguns conseguem ver nas margens desta asfixia as cordas que se atiram sobre a pele da água. Podem alguns ser apenas um reflexo que se atira ao mar sem qualquer piedade, mas sabem que voar ainda respira.

Talvez por saber isto, se tivesse de escolher, escolhia-me. Não traçava a cruz.

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