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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe em Outubro

rabiscado pela Gaffe, em 17.10.14

escadas.jpgSentávamo-nos nos fins das tardes dos meses antigos de Outono nas escadas da casa dos meus avós.

Havia um búzio nacarado que encostava ao ouvido. A minha irmã traduzia a voz do mar, o rugido do mar, o bramir do mar e eu acreditava, porque Outubro tinha aberto a cor aos olhos pardos da minha irmã e eu via, nítidas, as escamas verdes e cinzentas que mudavam de lugar todos os dias.

Acreditava nos peixes minúsculos que se moviam naquelas águas e sabia que uma criatura com escamas de brilho verde e cinzento nos olhos tinha misteriosas e inacessíveis intimidades com os oceanos.

Ouvia a voz do mar saída da boca do búzio. A minha irmã, depois de mo tirar devagarinho, encostava-o ao ouvido e traduzia o enigmático sopro daquelas cordas vocais. O que diziam variava de acordo com a disposição da minha cúmplice, mas eu acreditava nas tragédias e nas ondas de promessa de bonança de que dali vinham.

Sideravam-me.

 

Agora encosto a cara ao vidro duplo da janela. Não consigo ouvir a voz do mar, o rugido do mar, o bramir do mar. Ouço apenas o ruído do mar sem tradução.

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A Gaffe sem luar

rabiscado pela Gaffe, em 17.10.14

Ludovica Riba d’Ave Vilarinho e S. Romão (Lua para os amigos) é uma Teckel de muito boas famílias que nos suporta com sobranceria, caninamente apaixonada pelo dono que persegue de forma compulsiva, de cauda em arco a abanar pausadamente.
Meiga, inteligente, fleumática, óptima caçadora e muito pouco dada a mimos, é o oposto da Bórgia, assassina nata, bipolar, maníaco-depressiva, histérica e esquizofrénica.

 

Lua adoeceu.

 

A cadelinha vinha há já algum tempo a ameaçar fragilidade. Foi-lhe diagnosticado um problema cardíaco com aguda gravidade e artroses nas minúsculas patinhas rechonchudas.

Depois de medicada, a Lua resistiu e, rapariga forte, corria pela casa atrás do dono, desenfreada e tonta, reguila e distraída, desajeitada e senhora do seu um nariz seguro e empinado.

 

Agora piorou.

 

No mapa da minha alma tenho a Lua no instante do salto, de alegria disparada, de correria desatada a desfazer a relva, atrás do dono, os dois a gargalhar, os dois a explodir de espaços repletos de vento.

Os dois já cansados deitados no chão.

O que retenho desenhado é a absurda cumplicidade da cadela com um garnizé psicipata. Os dois dispostos sempre a atacar o estranho. Os dois a perseguir o Chanel da visita e já escondidos a rilhar a troça de ver por terra, tombada e amarfanhada, a pose das senhoras.

O momento que guardo é o que me fala do adormecer da Lua no colo do meu irmão depois de o olhar com a mais completa entrega, a mais fenomenal das fidelidades, o mais perene Amor do Universo inteiro.

 

A vida distorce, altera, transforma o mapa que retenho.

 

Lua piorou e já não corre.

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