Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe com privilégios

rabiscado pela Gaffe, em 21.10.14

15. Haderer, Gerhard - Ohne Titel, 2008.jpg

Folheio um criterioso e respeitável, embora ressequido, número da Science Magazine espapaçada no sofá e deparo com um interessante artigo assinado por sábios investigadores na área da urologia, sexologia e afins.

Incrédula, acabo por ser informada (com atraso, é certo), que o tamanho médio do órgão sexual masculino, erecto e europeu, é de 12 a 14 cm, considerando-se uma erecção que atinja os 14/16 cm uma fuga agradável a esta estudadíssima recolha!
Há naturalmente os chamados micropénis, mas como é óbvio não vejo (literalmente) razão para os abordar.
Informo surpreendida a minha prima que, em frente, encafuada nas páginas recentes de Another Man, observa os fotografados que adivinhamos a superar claramente a média estabelecida.


- E quem quer saber dos Marques Mendes?! - Cruza as pernas e mergulha indiferente na revista. 


Disponível e sempre pronta a mostrar que sou uma rapariga informada, declaro ser este um estudo sério baseado em dados recolhidos durante cerca de uma década, em países europeus dignos de respeito e que mereceu rigoroso escrutínio e atenção de uma das mais prestigiadas publicação científicas.
A minha prima levanta-se e crava os olhos na braguilha do meu pobre irmão que sorri e tenta alterar a posição demasiado aberta e abertamente exposta que permite o sufrágio e a possível avaliação das medidas em causa.


Digam o que disserem, encolhendo os ombros, pigarreando e mugindo, salivando e rindo, disfarçando a mentira com desdém nos olhos, os rapazinhos são todos tão sensíveis a estas medidas!


Aproxima-se de mim e sussurra gentil ao meu ouvido, com um sorriso cúmplice tão perto do meu:


- Não ouves o que dizem?! Os nossos rapazes são os privilegiados e vivem sempre muito acima da média.

 

Cartoon - Gerhard Haderer

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe exposta

rabiscado pela Gaffe, em 21.10.14

Celia Calle.jpgÉ curiosa a forma como sem contarmos um blog generalista, fútil e vagamente tonto se vai tornando um modo de expormos sem pudor pequenos episódios que se deveriam manter fora das avenidas.

À medida que vamos andando e rindo por um blog adentro, o cantarolar que tínhamos controlado e que não ultrapassava os limites do bom senso que deve reger a nossa privacidade, pode tornar-se uma cantilena esganiçada onde as notas que se querem atingir deixam de ser privadas, passando em consequência a ser inscritas nas pautas alheias às nossas melodias.

 

Acontece que, por muito que se recuse, acabamos inevitavelmente por nos aproximarmos daqueles que com mais assiduidade nos acarinham, visitando-nos ou participando nos nossos desabafos. Sabemos que na realidade não os conhecemos, mas temos a noção que é do domínio da raridade e muitas vezes do milagre conhecer seja quem for. A impunidade com que ilustres desconhecidos vão apanhando as nossas bagatelas com o mesmo cuidado com que nós apanhamos as migalhas deles, acaba por nos dar a sensação de santuário, de inocuidade, de distanciamento que não encontramos quando somos rodeados por aqueles que acompanham a nossa vida não virtual. Tornamo-nos mais confiantes, talvez mais seguros, ou então reconhecemos que, como diz um amigo, o local ideal para dizermos a verdade é a internet, um blog por inerência, porque aqui ninguém nos acredita verdadeiramente. Podemos ser tão reais como inventados. Para o público que nos lê, é indiferente. O conceito de verdade é relativizado ou exige reformulação.

A Gaffe tem vindo a expor-se em demasia. O objectivo primordial inscrito no editorial destas Avenidas foi adulterado. Choraminga por aqui instantes privados com a certeza da ignorância de quem os vive com ela. Partilha-os sem pudor e sem noção do risco que é perceber que desnuda momentos que pertencem também a outros que talvez os queiram secretos.

É uma maldade que deve ser corrigida.                                      

 

Este será portanto a última exposição pública desta rapariga esperta. Uma exposição bastante subtil, como é bom de ver. A partir daqui, contamos apenas com barbaridades mundanas, fúteis e superficiais, tal qual se promete no resumo dos dias e nos dias que se resumem apenas a um sopro.

Ilustração - Celia Calle

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:





  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD