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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Jessica Zellweger

rabiscado pela Gaffe, em 23.10.14

simpsons.gifA Gaffe compreende que tenha havido uma maior actividade sísmica nas redes sociais com epicentros em Jessica Athayde e em Renée Zellweger.

Esta rapariga esperta tem de confessar que sentiu alguma dificuldade em reconhecer a segunda e muito gosto em rever a primeira que teve oportunidade de vislumbrar esbardalhada numa capa de revista masculina a tentar encarnar com muita, muita, muita força a mulher irreal que acabou por condenar com afinco num dos seus comunicados todos indignados.

É evidente que a Gaffe entende estas marotas contradições. As suas Avenidas estão pejadas delas e atingem mesmo áreas que não estão ligadas à beleza. A entrega do doutoramento Honoris Causa pela UBI a Zeinal Bava é o Photoshop a quebrar o limite dos retoques nas bochechas das meninas, embora igualmente idiota.

A vida real usa imenso o Photoshop.

Casos como os de Athayde e de Zellweger começam a causar um tédio que faz com que a cinematografia de Oliveira nos pareça um bólide de fórmula I conduzido por Schumacher antes de nevar. Estamos gordas de saber que, embora a Duquesa de Alba seja apenas um percalço da nobre arte de embalsamar, a procura incessante e tresloucada do elixir da juventude é recorrente e tem envelhecido imensa gente.

A culpa, diz a Gaffe espalhando o La Crème da Shiseido por tudo quanto é canto e esquina e parafraseando o ilustre inglês, não está nas estrelas, mas em nós. No sossego e aconchego dos nossos sofás, para além das bolachinhas, mordemos o isco que bamboleia imagens cintilantes injectadas com a toxina da ilusão da eterna juventude, repletas de pinceladas correctoras que não apetece muito descobrir e que nos deixam anestesiadas pelo calado desejo de as imitarmos ou encarceradas na consciência de que jamais seremos o isco que ali dança.

Amarfanhamo-nos e depois abrimos a revolta e a indignação, invadimos espaços e gritamos desalmadas contra a escandalosa manipulação do corpo feminino, contra o uso e abuso de imagens que clamamos ser alienígenas e insurgimo-nos perante os distúrbios de personalidade que provocam.

Desfraldamos e defendemos a bandeira do real, mas esfacelamos logo a seguir as que parecem concordar connosco e nos mostram orgulhosas as rotundas inevitáveis dos seus corpos.

A Gaffe pensa que é uma descortesia cravar a estaca no coração do vampiro ao mesmo tempo que lhe sugamos o pescoço.

Esta rapariga esperta sabe que ouvirá sempre o som dos alfinetes histéricos que se espetam nos rostos das Zellweger e, pelas razões opostas, nas coxas das Athayde.

 

Uma maçada.

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A Gaffe num santuário

rabiscado pela Gaffe, em 23.10.14

Antonio Martinez de Espinosa - 1760.jpgApoia o queixo na palma da mão, com a cabeça ligeiramente inclinada e o cigarro em brasa demasiado próximo das ondas brancas do cabelo. A luz reflectida na pulseira de oiro larga, fechada por um minúsculo cadeado, projecta uma pequena forma ovalada que não sossega, agitada como uma menina que desfaz as tranças a baloiçar na inquietude. Às vezes, no colarinho branco, o pequeno reflexo luminoso parece uma jóia intemporal e frágil, intocável, segura ao tecido pela serenidade que surge quando a minha avó fica mais atenta ou como um insecto de luz que pousa atraído pela brancura incendiada da camisa.

A senhora recorda transgressora a noite em que o viu pela primeira vez  a nudez masculina.

 

- Há homens, minha querida, que fazem da nudez uma caverna. Outros há que dela fazem céu aberto. No entanto, a timidez é o último reduto dos despidos.

- Como a terra dos homens perseguidos? – Lembrei-me dos Santuários dos foragidos medievos, da imagem breve de um homem desgraçado pela multidão a despenhar o corpo nas pedras de uma catedral e a despojar a alma toda macerada num derradeiro uivo salvador.

- Um Santuário? – A minha avó sorve o fumo do cigarro. O insecto do oiro da pulseira outra vez inquieto.

A senhora e o silêncio debruçado sobre mim.

- A ideia de Santuário sempre me agradou. A última promessa, a derradeira exalação da esperança, o torniquete suspenso por um espaço físico intocável. Mas a nudez não é essa espécie de cadáver adiado que procria.

A senhora contradiz o aforismo.

- A nudez abrevia os homens. Ficam sós diante dos espaços que os circundam e a solidão tem o corpo que eles despem. Nus, resumem o que temem no descampado do corpo que revelam e a timidez é o coração do medo, o último reduto onde eles tombam, mas que não tem a essência do que salva.

 

A minha avó sorri e atira o fumo devagar, em fio, de encontro ao reflexo da pulseira que parou, depois acaba:

- Nu, o homem descobre se tem asas de falcão ou de morcego, mas é sempre um outro olhar a proteger-lhe o voo. O Santuário, minha querida, é sempre uma mulher.

 

Imagem - Antonio Martinez de Espinosa - 1760

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