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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe diferente

rabiscado pela Gaffe, em 27.10.14

4822821-md.jpgConfesso que prefiro ser obrigada a olhar durante 30 segundos para a fotografia do José CId nu, com um LP a tapar as vergonhas, do que ouvir clamar ainda que durante menos tempo a igualdade das pessoas portadoras de deficiência em relação a criaturas tidas como normais.

Não são.

De nós, precisam sobretudo do reconhecimento da diferença. É meio caminho andado para a dignificação e respeito pelos direitos que lhes são inerentes e que diferem porque mais específicos e em número maior dos que são apanágio da normalidade.  

A igualdade não é democrática nestes casos. Sou igual ao portador de deficiência quando, por causa dele, são cumpridos direitos que não posso exigir porque não os tenho. Não tenho o direito a adaptações arquitectónicas, mas tenho o dever de as exigir para se cumprir o direito do Outro.

É constrangedor ser testemunha de simulacros imbecis de civilidade que surgem apensos ao tratamento que damos ao portador de deficiência em nome de uma pretensa igualdade que o prejudica.  

Embora não totalmente passível de ser aproximado deste assunto e obrigando o que é dito a ultrapassar os limites do razoável, se bem pesarmos, a gravidez, olhada pela imunologia, é uma infecção. Então a senhora infectada poderá ser tratada como uma moçoila saudável e aguentar de pé os solavancos do autocarro. É igual a nós, pode não ter a benesse do lugar vazio em horas de ponta. Justifica-se indirectamente a falta de vergonha civilizacional dos javardos que lhe ocupam o lugar. Não há sequer razão para a reserva!

À mão (não me parece de bom tom referir que temos aqui mesmo ao pé) temos Stephen Hawking,  cuja inteligência é do tamanho do aborrecimento que me desperta, e Oscar Pistorius, cujas estupendas e surpreendentes capacidades físicas (e balas) deixam qualquer normalidade para trás, para nos provar de forma mais que evidente que os portadores de deficiência são tudo menos iguais a gente sem ela.

Tratarmo-nos como iguais, forçar esta espécie de hipócrita conveniência e correcção política, resulta sempre na anomalia e na distorção do mais banal dos quotidianos.

 

Lembro-me sempre deste episódio quando me insurjo contra esta forçada igualdadezinha bacoca:

 

Para dizer adeus a Paris, nada melhor do que um jantar onde os convidados são melhores que a ementa. Temos sempre a possibilidade de dizer mal de qualquer de qualquer coisa ligada ao que se come, sem ferir susceptibilidades e sem correr o risco de cravamos as facas onde não devemos. Isto, claro, se falarmos só no que traz o menu.
A minha irmã tinha convidado  uma das suas cúmplices, e por arrasto o marido, um gentleman muito silencioso, que concordava com tudo apenas para não ter de se pronunciar sobre nada, e os dois filhos do casal.
Não sou muito apologista do alegre convívio com os mais pequerruchos. As crianças, por norma, não simpatizam comigo e, definitivamente, não crio empatia nenhuma com elas, mas os miúdos - um casal - eram engraçados e pareceu-me que, confiando na opinião generalizada, muito queridos.
O rapaz, com cerca de sete anos, era portador de trissomia 21, o que fazia dele um agradável e despreocupado companheiro de aventuras. A sua assertividade social  é deficitária e o pequeno estava envolvido num processo de aprendizagem comportamental e de socialização muito complicado, mas que passava por, e transcrevo o que ouvi, um treino constante de inclusão igualitária entre pares e exclusão do processo de diferenciação nas vivências do quotidiano, e ao qual não me parecia ligar uma pevide.
A minha irmã, amorosa, decidiu sentar-se ao lado dele e olhá-lo como igual.
Foi sorrindo e esvoaçando, saltitando e piriquitando até que a nouvelle cuisine  fez o efeito esperado no miúdo.
Virado de boca escancarada para a mulher ao seu lado, o rapazinho fez sair das entranhas mais profundas da alma um arroto digno de um tratado de medicinas alternativas.
As pernas das cadeiras tremeram, os pratos abanaram, os cristais estilhaçaram e saltaram os talheres pela mesa fora!
A minha irmã paralisada, de olhos esbugalhados e cabelo arrepiado e esguedelhado pela deslocação do ar, tentava segurar-se com as unhas cravadas na toalha!
- Pardon! – Descontrai o rapaz ainda de goelas abertas.
A exclusão do processo de diferenciação nas vivências do quotidiano, como se viu e ouviu, acabava de ser destruído pela sonora realidade solta pela diferença.

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