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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de hijab

rabiscado pela Gaffe, em 28.10.14

Moda-Lisboa-LEGACY-FIlipe-Faísca-1.jpgQuando Mary Quant fez explodir as mini-saias ou YSL fez desfilar o smoking feminino, nada mais fizeram do que encarnar com o glamour das passerelles o que latejava nas ruas. Souberam de modo perfeito interpretar o pulsar dos desejos, das aspirações e das embrionárias metamorfoses do palco das avenidas. Mostraram com estrondo o que vinha a ser inconscientemente necessário. Não entraram em ruptura com o estabelecido como norma, deram apenas uma voz determinada e contínua ao que se vinha tornando evidente embora ainda detentor de pouco vocabulário.

Vestirmo-nos é também carregarmo-nos de signos, de símbolos, que comunicam como qualquer outro código. É também propormos uma identificam de grupo, é mesclarmo-nos com o quotidiano, é traduzirmos o que pensamos, o que queremos, o que nos revolta, o que nos agrada ou o que de comum existe entre os pares que escolhemos.

É idiota pensarmos que a inutilidade grassa no compasso e na cadência dos manequins. Interpretar e sermos interpretados pode ser a ponte que liga as margens do quotidiano aos passadiços da moda. O modo de passarmos.

A recente edição da Moda-Lisboa não teve história. Repetiu-se a esgotada receita e dela saímos com o paladar intacto.

Houve no entanto uma réstia de arrojo.

Os hijab e os Niqāb de Filipe Faísca prometeram muito mais do que o habitual.

Não seria a primeira vez que um criador faz estalar chicotes onde não se espera. Lagerfeld finda o seu último desfile fazendo surgir os manequins com cartazes onde se reivindica o fim da moda e a apologia da mulher liberta, numa homenagem à mãe, corajosa feminista.

Filipe Faísca insinua. Filipe Faísca promete. Filipe Faísca faz com que se espere uma intervenção contundente, mais ou menos ácida, na página que se vai escrevendo tapada na mulher do Islão.

Não se pedia muito. Não se exigia mais do que aquilo que era insinuado. Mas Filipe Faísca não cumpriu. Nada se fez, nada aconteceu. O criador declamou as banalidades do costume, os lugares comuns da praxe, as balelas habituais e transformou uma oportunidade de falar a sério através dos códigos que muitas vezes se levam a brincar.

Não prestou. Não valeu a pena.

Filipe Faísca acabou lido como seria correcto. Um homem de ceroulas, enfiado numa espécie de camisa de dormir masculina do início do século XIX, ao telefone com uma senhora que se esgota na repetição monumental dos objectos, inevitável em todos os eventos que reunam muita gente.

filipe_faisca_171.jpg

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