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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no banco de trás

rabiscado pela Gaffe, em 23.11.14

bozena jelcic.jpgAté à auto-estrada o caminho é de buracos e curvas apertadas e estreitas.

A mulher ao lado do condutor acomoda-se no banco de forma a minorar o transtorno dos solavancos. Usa o cabelo apanhado por um lenço de seda. Na terra havia apenas um cabeleireiro, um hair stylist, chamado Vitinho, que levava quatro euros e meio por lavar e pentear. Jamais a indignada cabeleira seria entregue a manápulas que, segundo lhe reza a história dos outros, de tão baratas não podem ser perfeitas.

Está em silêncio. O condutor olha-a de soslaio. A boca carnuda, o nariz recto e a barba por tratar. Vê-a retirar da carteira a cigarrilha.

- Não podes fumar aqui. – Diz o rapaz.

- Vamos ultrapassar a Sharon Stone e abrir a janela do teu lado.

Acende o cigarro e espalha o fumo do primeiro travo como se fosse urgente o nevoeiro para disfarçar imperfeições que não existem.

- A tua agressividade é de uma inutilidade confrangedora.

A mulher permanece calada. O fumo do cigarro a esvair-se.

- Que foi agora?!

- Estou a imaginar a tua frase dita pela Eunice Munoz vestida de freira, encenada pelo Diogo Infante.

- Viste a peça?! Sempre achei que fosses mais Ionesco.

- No máximo Brecht.

Calam-se.

São cúmplices há demasiado tempo e o silêncio é permito sem constrangimentos entre os dois. Ambos reconhecem o que é inútil e o rapaz percebeu há muito tempo que a mulher manipula as decisões do clã de forma insuspeita, mas irrepreensivelmente eficaz. Ela sabe que o homem que agora tossica de forma irritante repleto de fumo, resiste às investidas do touro que é solto quando nas arenas o público o exige.

Seduzem os dois da mesma forma. Espiando a vítima. Preparando o lugar da emboscada e conseguem suportar a espera, aninhados contra o vento, rasteiros, rasando o traiçoeiro, atentos a mais ínfima distracção daqueles que desejam e, na altura certa, escolhem o lugar exacto, o desacautelado movimento, o mais desprevenido gesto, o sítio, a veia, a artéria, o órgão onde cravar as garras.

Usam, os dois, um egoísmo exacerbado como arma, incontrolável e indomado.

É a força que provém desse egoísmo que os torna insensíveis à dor dos seduzidos e lhes apaga, anula e incapacita a urgência que é sentir o padecer dos outros como se deles fosse e os tocasse. São dois animais unidos pela única vontade de possuir por inteiro o que desejam. Esta é razão da indiferença absurda com que olham as vidas dos que não lhes acicatam apetites.

Nenhuma bandeira, pendão ou insígnia, nenhuma causa, partido ou revolta os irá motivar. São criaturas ímpias, sem nada que os force a erguer barricadas e a içar a voz, em forma de espada, em nome de alguém.

O rapaz entra na derradeira curva.

Vê o mar.

- Devíamos ser amantes.

A mulher hesita. Desvia o olhar e acende outro cigarro.

- Seria incesto, creio eu.

- Eu gosto do pecado. Até a palavra me seduz.

- Eu gosto de pecar, mas é mais sedutor ficar a desejar-te.

 

Ao longe, assim narrados, são bem mais fáceis de entender.

 

Na foto - Bozena Jelcic

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