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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe babada

rabiscado pela Gaffe, em 26.11.14

David Gandy.jpgMinhas caras, a verdade é que a Gaffe tentou fazer de conta que apreciava a indumentária deste menino, tentando disfarçar a comoção comentando a quadrícula das calcinhas do pijama e a beleza do rolo (do sofá), mas a verdade é que não adiantam subterfúgios quando para o teclado escorre a baba que não conseguimos prender com a boca escancarada.   

 

Na foto - David Gandy

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A Gaffe com livros

rabiscado pela Gaffe, em 26.11.14

ler.jpgLer não é, ou não deve ser, um exercício e um prazer controlado?

A leitura deve fluir no som dos ventos ou obedecer a regras implícitas na vontade de se crescer dentro das bibliotecas, construindo livro a livro a nossa própria estante?  

Lembro-me do meu querido amigo, assustadoramente inteligente, que pela noite de Paris procurou a Biblioteca que lhe esclareceria a dúvida que o impedia de dormir. Em Paris, os livros, as brutais multidões de livros, estão sempre ao dispor a qualquer hora.

É certo que a noite tinha vodka a perturbar-lhe o negrume e a sobriedade, mas o impacto, o confronto bestial com os milhares de títulos em silêncio escuro, provocou-lhe o desabar de todas as certezas. Desatou a chorar compulsivamente, porque percebeu naquele instante que jamais conseguiria ler tudo o que ali em ordem o olhava.

Esta estupenda homenagem ao livro, foi também o início de um agudizar quase obsessivo do rigor na selecção das obras que o acompanhariam posteriormente.

De acordo com este homem, ler é também um processo penoso, difícil, muitas vezes angustiante, tantas vezes doloroso e tantas vezes traumatizante. Também por isso deve ser humilde.

O leitor - falo do grande leitor - é um atleta de alta competição, mas não vai sequer vislumbrar a linha da meta se não tiver aprendido o modo como deve colocar o pé na linha de partida e não tiver percebido que cada movimento que faz é o impulso para a concretização do seguinte.

Da mesma forma, torna-se mais provável, por exemplo, não compreender Lobo Antunes se desconhecermos Faulkner.

Este reconhecer da necessidade de contínuo na leitura, de perceber que a obra que temos na mão é também um palimpsesto e que nele somos capazes de ouvir outras vozes, outros sons, outros cheiros e sabores, outras épocas e outros universos, só é possível se o passado for eterno. Transformamos uma obra numa ilha solitária e perdida se não tivermos o mapa do arquipélago e desconhecermos o oceano onde poisou.

É impossível lermos tudo. A humildade de partirmos do princípio, devagar e conscientes que não temos tempo para abarcar a Biblioteca toda, fornece a coragem de escolhermos os "velhospara podermos depois saber escolher e saber ler os "novos" sem atribuirmos grande importância ao cânone literário que será sempre uma membrana permeável e falível.

Ler é um trabalho árduo de oficina. Se começarmos muito novos, se aprendermos com os velhos mestres o modo de manobrar as ferramentas, se tivermos a modéstia de aceitar que nunca sabemos do ofício o que o ofício tem para nos dar, é muito provável que encontremos a vontade de continuarmos a ser felizes a aprender.    

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