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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe narradora

rabiscado pela Gaffe, em 05.12.14

Karma.jpgA Gaffe reconhece que deviamos apenas usar as palavras quando elas são melhores que o silêncio, no entanto existe pouca coisa mais dolorosa do que guardarmos dentro uma história que não contamos a ninguém, sobretudo porque nunca saberemos se por causa dela seriamos amados por alguém.

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A Gaffe doentinha

rabiscado pela Gaffe, em 05.12.14

chá e temperatura.jpgEstou doente! 

Apesar do único termómetro existente nesta casa (um anti-ecológico termómetro de mercúrio, velho, ultrapassado e mentiroso) acusar 37.7º de temperatura, tenho a certeza que no mínimo escaldo com febre superior a 40º! 
Dói-me a garganta! Engulo folhas de lixa sempre que tento sorver devagarinho o chá que me abandonaram em cima da mesa. Tenho os músculos das coxas doridos e os braços inertes. Sofro atrozmente, depositada na cama, sem ninguém comigo!  
Os insensíveis que ouço no andar inferior deixaram-me exilada com o meu destino enfermo, declarando que, se sofro, é só porque ando toda a noite em pijama, no meio de uma casa onde as correntes de ar são tão vulgares e banais que mesmo no pino do Verão temos de andar de sobretudo. 
Pedi à minha irmã para ficar comigo, mas a sofisticada senhora recusa ver-me esparramada na cama, suada e dorida e quase morta. Tenho de sucumbir sozinha envolta em Gucci.
Supliquei ao meu irmão para me fazer companhia, mas o rapaz declinou o meu amável convite com um pretexto torpe, trocando o meu sofrimento e agonia por um quintal qualquer onde crescem árvores que ninguém conhece (teixos, diz-me aos gritos).  
Vou desalemtar-me neste degredo sem ninguém para me segurar a mão quando partir.

Apenas a minha querida Luzia me acode.

Traz no tabuleiro, enfeitado por um paninho bordado, o bule o chá quente de limão com mel. Uma chávena de porcelana com minúsculas flores inglesas e um friso de oiro esmaecido no rebordo. No pires, uma colher pousada com um pequeno cabo trabalhado. Um guardanapo branco com um monograma lavrado na mesma cor do pano. Uma manteigueira de vidro com tampa de prata e, num prato ao lado, o pão pequeno a fumegar ainda.

 

- Chegou agora mesmo para a minha doentinha. - Pousa-me no colo a bandeja, acomoda e dispõe as almofadas no espaldar da cama e arrasta a luz para dentro do meu quarto.

- Vá, menina! Tem de ganhar cor.  – De mãos na cinta a Luzia espera que o perfume do chá aqueça a ruiva, mas exangue menina que trouxe ao colo na imaculada brancura do que passa.

A menina é ruiva e langue e fita o céu perdida como se fosse cega. Caiu-lhe a alma ao chão e jaz ali com febre.

- Vamos lá, menina!

Trepa a claridade à cama da menina, malhas que a luz tece.

A Luzia espera que volte a cor e o bem ao rosto da menina.

No bule, chá de limão e mel, no prato o pão a fumegar que já chegou (agora mesmo) e a minha solidão em prece que apodrece.

 

(Que idade terá o médico daqui?)

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