Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe assassina

rabiscado pela Gaffe, em 06.12.14

A Gaffe cúmplice.jpgO assassino chegou em contraluz.  

Espapaçada na poltrona vislumbro a silhueta da faca. 
Aproxima-se devagar. Gosto de assassinos tímidos. Dão-nos sempre a oportunidade de lhes medirmos as armas.  
Moreno, de ombros larguíssimos, braços de embondeiro e olhos escuros, tronco de ferro e pernas de aço, o facínora avança. 
- A senhora mandou-me aqui para matar a galinha para o jantar.  
Não se devem matar coisas nos locais onde as pessoas descansam esparramadas nas poltronas!  
Que não era ali. Que só vinha perguntar se o podia fazer na cozinha.

 

Olhei de novo. Claro que ele O podia fazer em qualquer lado! A facas daquelas nada se recusa e nunca se diz não a um bom massacre em cima dos balcões de uma cozinha. O sabor dos molhos é sempre mais picante e o travo do sal sempre mais doce.  
Acompanho-o. Quando não há nada para fazer facilmente nos tornamos cúmplices de assassinos jovens e másculos, com facas grandes e agressivas.  
Observo-o. Ele curvado, eu a espiar.
As clavículas desenham um suave escorrega, onde deve ser bom deslizar até chegar ao côncavo que fazem ao encontrar o esterno.  
As mãos são grossas, com os dedos duros e penugem fina.  
Tem braços grandes e potentes e movem-se músculos quando ele se move. Crescem no antebraço pêlos negros penteados que prometem outros por domar.  
Olha para mim e sorri. Tem rugazinhas ao canto dos olhos e boca carnuda como uvas maduras que estalam e espalham sucos doces quando as mordemos.  
Toco-lhe no braço e sinto-lhe a carne quente. Simpática, pergunto se quer a minha ajuda.  
Olha e hesita. É esse cintilar de hesitação que o trai. Não é propriamente a minha ajuda que ele quer, mas sente que a marotice que uma rapariga esperta sabe insinuar pode ser a morte do artista.  
É a galinha que quebra toda a cena. De um lance só, o assassino de faca bem certeira e pulso firme, decapita a pobre.
Convulsões e sangue! Os ovos estão órfãos!
- Amanhã, se quiser, posso levá-la de moto a ver a paisagem - sugere com as mãos ensanguentadas enquanto a bicha estrebucha de garras sinistras levantadas para o céu.
- Amanhã não. Ouvi dizer que vai fazer imenso frio e sou uma convalescente. Fica para depois.
Pois! Para depois! Para muito depois. Amanhã tenho de rezar pela pobre assassinada.

 

A minha irmã, depois de me ter apressado para a sala impressionada com o sucedido, pinta as unhas, de Hermès ao pescoço, perna longa traçada e olhar severo. 
- Gostas da cor? Acho-a muito a propósito. É vermelho sangue-de-boi
Há uma ligeira ironia naquele verniz sangrento.  
- Não incomodes o maninho. Hoje está tudo de cortar à faca.

 

Há subtilezas a que decididamente não acho graça.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:


foto do autor




  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD