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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no PINN

rabiscado pela Gaffe, em 09.12.14

PINN.pngAgora a Gaffe pode ser lida também aqui!

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A Gaffe do Príncipe Encantado

rabiscado pela Gaffe, em 09.12.14

Fernando Vicente.jpgDe acordo com a perplexidade masculina, as mulheres apaixonam-se por um homem exactamente como ele é, por ele ser como é, e num instante desatam a querer modificá-lo.

Esta característica para além de fazer parte do nosso encanto, pertence, aos olhos do macho, ao insondável mistério da alma feminina, embora seja constrangedoramente fácil de explicar.

A culpa não está nas estrelas, mas próxima delas.

Somos todas herdeiras das aristocratas dos contos de fadas. Desde o princípio que convivemos com Princesas encantadas e desde o início que as sublimamos. Temos os genes desta nobreza encantatória que nos são transmitidos pelas narrativas da infância e somos portadoras, mais ou menos conscientes, de um imaginário palaciano em que nos movemos ao som diáfano de histórias antigas de dragões e cavaleiros.

Esta miscelânea de coroas encantadas de que somos feitas torna-nos capazes de acordar como a sofisticada e fria, muito Grace Kelly, Princesa Aurora para logo a seguir, tornarmo-nos a dona de casa suburbana vivida por Branca de Neve, passando nos intervalos pela sopeira consumista que sonha desalmadamente com sapatos, não descurando encarnar, caso for necessário, Maléfica ou mesmo a Bruxa Má, cujos únicos erros são desconhecer por completo Yves-Saint-Laurent e não tratar da pele.

 

Este largo número de Princesas que somos em simultâneo contrasta com a simplicidade dos Príncipes que connosco contracenam.

Ao contrário dos homens que, pese embora o dito e redito, são todos diferentes – não valia a pena traí-los se fossem todos iguais – os Príncipes encantados são idênticos. Uma pobreza que nos leva a acreditar que o rapagão que lambuza o sono de Aurora é exactamente o mesmo que nos revela o maroto fetiche por sapatos.

Conhecemos de cor as suas funções e reconhecemos as suas capacidades militares, mas, convenhamos, Branca de Neve pede um Príncipe caseirinho e paciente, disposto a adoptar os sete pequeninos, enquanto Aurora exige a sofisticação palaciana de um Príncipe diplomata e bailarino e Cinderela merece um fashion victim ligeiramente masoquista.

A uniformidade principesca é uma maçada.

As Princesas encantadas que somos não deixam nunca de sonhar ver surgir o seu amado irreal e, em consequência, adaptam o real cavaleiro que as encontrou, tentando moldar o barro que lhe chega às mãos sem nunca deixar de amar as formas incompletas com que iniciam a tarefa.

 

Rapazes, tentar modificar-vos é altamente lisonjeiro! Resulta da certeza de termos encontrado um Príncipe diferente e da vontade imensa de o vermos perfeito exactamente como sabemos que sóis ou podeis ser para cada uma das nossas Infantas encantadas.

Não dói se aprenderdes a sempre olhar para nós como Princesas.

 

Ilustração - Fernando Vicente

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