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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe estrelada

rabiscado pela Gaffe, em 16.12.14

Salvo raríssimas excepções, uma rapariga esperta jamais interage com material capaz de lhe dar um choque.

A Gaffe desconhece o nome destes aparelhos e sabe que jamais conseguiria encaixar com tanta perícia uma lâmpada nos objectos que necessitam de fios coloridos para funcionar, mas depreende que para os rapazes que gostam de bricolage este piscar equivale a uma avenida inteira de luzinhas e transforma-os no orgulho da família mais chegada.

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Gavetas:

A Gaffe de Ginger Rogers

rabiscado pela Gaffe, em 16.12.14

shadow.gifPara o espectáculo de Joaquín Cortés a Gaffe exigiu ficar na fila da frente, a um palmo do bailarino de forma a mais facilmente lhe observar os arabescos flamencos e o rabo.

O homem de tronco nu arrebatava e todas as vezes que batia com os tacões no chão era o coração desta rapariga que esmagava.

Numa das suas piruetas suadas de latino insuperável, soltou-se o cabelo preso de Cortés batendo-lhe na cara. Neste movimento de chicote dramático a Gaffe sentiu que tinha sido atingida por salpicos de suor. O seu rosto pálido de hipnotizada tinha sido tocado pelo portento!

Embora este milagre tenha ficado ligeiramente diminuído pelo facto das gotículas do deus lhe terem atingido um olho, a Gaffe pensou que iria levitar a qualquer instante. Segundos depois a cruel realidade assassinou-lhe o êxtase e a Gaffe decidiu lavar a cara, toda enojada.   

Este episódio, misto de esoterismo e de WC, levou-a a encarar a dança como um meio revelador e implacável da personalidade masculina.

Ao dançar, os homens descobrem-se.

A Gaffe não se refere àqueles que acreditam ser o cruzamento - respeitável e legal - entre Gene Kelly e Fred Astaire.  Normalmente fazem com que nos apeteça imitar a Duncan, partindo no descapotável a uma velocidade estonteante, preferindo a fatalidade esvoaçante do lenço Hermès a ter de assistir à performance do anjo do Apocalipse. Fala-se dos que são menos imbecis. Os que no aconchego de um festejo arriscar abanar o capacete.

O leque é vastíssimo e a Gaffe só frequenta comemorações BCBJ, mas há denominadores comuns em todo o ritmo.

O primeiro foco de atenção é o homem que dança como se estivesse a ser vítima de uma experiência religiosa ou que anda a fumar o que sobrou de Woodstock. Fecha os olhos, ergue a cabeça, fica os pés no chão e oscila. Se abanar os braços que pendem desossados, significa que o ritmo lhe agrada particularmente. São homens que de uma palavra nossa, por mais banal e inofensiva que sejam, conseguem dissertar durante longas horas, citando ao mesmo tempo Sartre, Nietzsche, Kierkegaard e toda a colecção RTP de bolso, acreditando que não nos apercebermos da saliva com que cola as citações. Crêem seriamente que o amor é uma catarse e que deve ser vivida no interior de cada um de nós para extravasar no palco do nosso desespero. Nunca acertam nas deixas e deixam que todos os lances em que contracenam pareçam escritos pela barata de Kafka. Geralmente ficam sozinhos no fim da noitada a ruminar o sentido da vida e a acreditar que somos parvas por termos desatado a fugir ao ritmo do samba.

Há depois os homens que ouvem coisas.

Se a pista se move ao som de Viena, agarram a parceira ao ritmo de Presley. Se o swing permite pensar duas vezes, agarram o chão num bater de blues. Se o compasso é ternário, arranjam maneira de o fazer depois. Nunca acertam e por nunca acertarem os mais ladinos arranjam modo de simplificar compassos, dançando sempre o mesmo. Normalmente usam-nos como balança. Controlam o peso, calcando-nos. Pela intensidade dos nossos gritos percebem se engordaram.

São homens que nos chegam a conquistar pela incapacidade total de intuírem os nossos desejos, mas raramente chegam a horas aos nossos corações, porque supõem que é o fígado que nos comanda os humores. São quase todos doces por ingenuidade e encantadores por distracção. É fácil vê-los rodeados por mulheres que se sentem seguras com a ausência de perigo eminente.

Há também os pequeninos. São óptimos bailarinos ou então comentadores de um canal de televisão.  

 

 

A Gaffe tem de admitir que está cansada de fazer bailar os dedos pelas teclas! Abandona o baile por findar e promete voltar à dança quando lhe aprouver e a música for do seu agrado ou quando conseguir decifrar o homem mais estranho e mais complexo da pista das suas noites debutantes. Aquele que não dança.

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