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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe franciscana

rabiscado pela Gaffe, em 26.12.14

opiário.jpgO meu dia de Natal foi ligeiramente mais santo do que o habitual. O meu tio-avô, irmão velhíssimo da mãe da minha mãe, franciscano, antiquíssimo, consultor de cardeais, teólogo, filósofo, Provincial da Ordem durante décadas e um dos maiores latinistas da Península, veio de Salamanca, duzentos anos depois de ter partido, visitar a família.

O sábio ancião é a personificação da bondade, da paz, da suavidade e da tolerância.
Chegou de hábito vestido, sem o mínimo vestígio de desconforto, apesar daquelas dobras e pregas de tecido castanho rude.
Para o almoço mudou-se e apareceu de fato preto gasto e roído nos punhos, mas inexplicavelmente elegante.
Foi adorável durante todo a refeição, mas confesso que discussões acerca de traduções de clássicos latinos não são o meu forte.
Decidi passear-me e arrastei comigo o meu irmão.

O quarto de hóspedes, destinado ao douto senhor, é no andar de cima e tem a melhor varanda da casa.
Entrei para abrir todas as portadas.
Sobre a cama, impecavelmente estendido, o hábito repousava. Pregas rigorosamente dobradas, escapulário ao comprido, cordas cruzadas, capuz rígido ao lado.
Não resisti. Obriguei o meu irmão a vesti-lo.
Tinha na frente o mais sensual, o mais atraente, o mais excitante e o mais pecaminoso dos frades franciscanos de toda a história da Igreja.

 

O hábito pode não fazer o monge, mas há homens que dentro dele fazem o convento parecer um opiário.    

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