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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no Réveillon

rabiscado pela Gaffe, em 30.12.14

MM.jpgCom a aproximação da noite da passagem de ano, multiplicam-se as propostas e as sugestões relativas ao modo de nos tornarmos divinais à meia-noite.

Embora não se refira Cinderela – porque é previsível; porque nenhuma rapariga esperta está disposta a largar um Jimmy Choo em nome das fadas e porque todas sabemos que não é agradável sermos perseguidas por um rapaz com fetiche por sapatos – as variantes não são muito imaginativas e fazem com que a Gaffe, ao conhecê-las, fique com o sorriso de Charlene de Mónaco, ou seja, com a sensação de que calcou cocó de cão, mas que não pode raspar o sapato nas grades da varanda porque está a acenar ao povo.

 

O denominador comum é o vestido preto. O argumento que surge em defesa desta peça é o tradicional com um vestido preto, eu nunca me comprometo.

Nada mais tonto. A mais comprometedora peça de uma vida feminina é exactamente o vestido preto, salvo se transformado apenas no pano de fundo de uma gargantilha doada pela coroa inglesa. 

Os códigos que se colaram a este fragmento nocturno são demasiado evidentes e as suas leituras fáceis, porque restritas. Num primeiro relance - e é leviano desprezar este vislumbre - somos fatelas fatais ou sofremos uma fatalidade há pouco tempo. Nenhum vestido preto dispensa duas armas: a elegância rara das panteras, genética e inconsciente, e pernas até ao pescoço.

Surgem depois os brilhos.

Cintila-se por tudo quanto é canto, inclusivamente por aqueles onde não é suposto haver lantejoulas, porque picam quando nos sentamos. A proposta é transformarmo-nos numa bola de cristal de discoteca dos anos setenta.  

Se o brilho não tiver origem na Tiffany's é preferível mostrar as pérolas aos porcos.

Há também um rol imenso de decotes. Decotes e costas nuas. Abismos de carne que abana ao som do Eh! Meu amigo Charlie Brown, Charlie Brown. Sentimo-nos dentro de uma telenovela portuguesa onde as meninas fingem suportar os escaldões do ritmo jamaicano e tentam retirar o fio dental do rabinho enquanto o resto do biquíni prova que não é preciso ser-se boa actriz para fazer parte de uma série televisiva - basta ser-se boa atrás - enquanto lá fora rodopia Julie Andrews pela neve austríaca

 

The hills are alive with the sound of music

 

Embora a elegância não exclua a vertigem dos decotes, é sempre embaraçoso ter o pouco que resta da frente do vestido furado por mamilos enregelados.

Finalmente são sugeridos uns sapatos de tacão com a grossura de um embondeiro ou com plataformas que foram preparadas para podermos atravessar uma rua na Malásia sem sentirmos que estamos em Lisboa quando chove mais um bocadinho.

Minhas queridas, nenhuma flûte Moët & Chandon detém um glamour capaz de resistir empoleirado em dois barris de cascos de carvalho. Uns sapatos cujo salto não humilha o pé da flûte com que brindamos a chegada de 2015, ou são construções de Joana Vasconcelos ou então somos candidatas à Casa dos Segredo - embora uma coisa não se incompatibilize com a outra.

 

O ideal é sempre o que não é referido por um qualquer fashion adviser. Nenhum deles conseguiu, como a Monroe de modo tão certeiro, aconselhar o uso de apenas uma gota de Chanel no nosso corpo festejado.

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