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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe motivadora

rabiscado pela Gaffe, em 31.01.15

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Gavetas:

A Gaffe litigiosa

rabiscado pela Gaffe, em 30.01.15

GIVENCHY.jpgApós Cláudio Ramos ter abalado irrecuperavelmente a Tiffany’s acusando-a de o ter plagiado - revelação que levou à demissão e ao suicídio de uma significativa parte dos criativos da joalharia, retirada do mercado toda a colecção de alianças para meninos que gostam de meninos e à apresentação de desculpas formais unidas à promessa de nunca mais se dirigir a este querido - as moçoilas de Viana ponderam processar a Givenchy pela mesma razão.

Ou há respeitinho, ou comem todos. 

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A Gaffe no casamento

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.15

Dior-Wedding DressA Gaffe não é de todo perita na área, mas acredita nos relatos e testemunhos dos seus mais queridos amigos que no altar viram redobrada a paixão que sentiam pela mulher que deslizava envolta em nuvens. Juraram nunca mais ter sentido o aroma daquele dia em que a noiva se tornou sua mulher.

Alguns estão divorciados, mas isso não contamina o que se quer dizer.

Um dos pormenores essenciais a que uma noiva tem de dedicar especial atenção é o perfume que vai usar no dia do enlace.

Importantíssimo.

Há pelo menos cinco considerações que se devem anotar:

1 - Nunca o ter usado. O perfume deve ser uma estreia. Como se depreende, não será de todo conveniente enfiar o frasco dois dias antes nas narinas do rapaz e perguntar se a criatura gosta.

2 - Enfrascarmo-nos, despejando sem qualquer receio o perfume pelo corpo. As flores da igreja vão tentar abafá-lo e é preciso que sejamos nós a calar a porcaria dos arranjos.

3 - Não nos preocuparmos se o noivo revelar sintomas de falta de ar quando nos aproximarmos. Vai pensar que é apenas porque chegamos e a comoção se torna asfixiante. Os convidados que tragam uma botija de oxigénio.

4 - Nunca mais o usar. É imprescindível que abdiquemos do perfume escolhido. O noivo deve acreditar que apenas no dia do casamento sentiu no ar o mais perfeito dos aromas. Se o usarmos quando cozinhamos arroz de polvo ou bacalhau à lagareio, quando nos esbardalhamos no sofá a ver as noivas de Stº António ou a ouvir César das Neves, podemos dizer adeus à cebolada.  

5 - Não beijocar as amigas e as convidadas depois de termos despejado o frasco em cima de nós. Os perfumes misturados causam náuseas e não é bonito termos o padre a vomitar-nos o véu.  

A memória olfactiva dos rapazes, maior do que a visual, é um trunfo que devemos usar e abusar em dias especiais, marcando-a irremediavelmente, para que no dia em que vamos assinar o divórcio e voltarmos a usar pela segunda e derradeira vez o perfume fatal, o homem perceba que jamais encontrará no bocado miserável da vida que lhe sobra uma mulher que o consiga asfixiar de forma tão perfeita como nós.  

Foto - Dior Wedding Dress

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A Gaffe sinfónica

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.15

A Gaffe musical.gifPerguntaram à Gaffe, assim, sem mais nem menos, de repente, de chofre, sem contar, de embate, de colisão e à falsa fé, qual é a sua escolha musical para fazer sexo.

Como seria de esperar, olhou de soslaio para a ousadia e pensou seriamente que se prontificavam a fazer gracinhas com pífaros, pandeiretas, flautas e flautins, órgãos de tubo, harpas e oboés, mas o músico era um rapagão com um melífluo ar inocente capaz de lhe escrever todas as pautas que quisesse. Não lhe pareceu capaz de arriscar ouvir a resposta mais grosseira que incluiria a qualidade da batuta do maestro.

É evidente que uma rapariga esperta, no caso inquirido, constrói a sua própria melodia e não descura as mais repetitivas ou as menos elaboradas, as de ritmo pobre e mesmo as em dó menor. Tudo depende da interpretação da orquestra.  

Seja como for, mesmo que saibamos que tudo o que temos é semi-colcheia, devemos sempre exigir que se ouça Wagner.

As sinfonias todas.   

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Gavetas:

A Gaffe da D. Arminda

rabiscado pela Gaffe, em 28.01.15

D. Arminda.jpgLembro-me perfeitamente da D. Arminda.

Costureira, vinha por socalcos infindos, arranjar umas coisinhas a casa dos meus avós. O costume era mantido apesar de já não fazer sentido, porque a sua mãe o tinha respeitado e antes dela a sua avó. Dedicava-se, na falta de umas coisinhas para arranjar, a tagarelar com toda a gente e a choramingar o seu amor violento.

A D. Arminda não era uma frágil flor campestre. Era colossal. Maior do que um embondeiro e com a força de um touro. Não hesitava em pegar nos cestos que nas vindimas retraíam qualquer um. Tinha braços imponentes, ancas hemisféricas, um peito descomunal e era capaz de arrancar a cabeça com um safanão aos rapazitos que lhe tentavam beliscar as nádegas baloiçantes de trintona robusta.

Tinha casado com um minúsculo bichinho, um homem fuinhas, mexeriqueiro, franzino, fanfarrão e oleoso que a espancava amiúde. 

Chorava, desabafando mágoas e hematomas ao lado da minha avó que constantemente lhe prometia abrigo e protecção. 

Mas o amor não deixava.

Numa dessas ocasiões de pranto desatado, a minha avó ultrapassou todas as regras da sua compostura habitual e, desenfreada e sem paciência, destruindo a fleuma aristocrática que tanto preza, fez deslizar o pé para o chinelo e descabelada vociferou:

-Se a Arminda se recusa a largar essa pevide, faça-me o favor de com esse corpanzil lhe partir a casca fedorenta na próxima vez que o homenzinho se atrever a tocar-lhe. Valha-me Deus, Arminda! A criatura é uma migalha no seu açafate!   

O pranto estancou estupefacto, não tanto pelo conselho, mas sobretudo porque a minha avó se tinha posto aos gritos.

- Só não pedi ainda ao Joaquim para tratar do assunto, porque sei como o homem gosta de matar os porcos – aquilo é assustador! -, e porque não quero mais uma vez  ter de fazer de conta que ouço as insinuações do idiota do padre.

 

Dias depois do sonoro e ligeiramente mafioso deslize da minha avó, a D. Arminda chegou triunfante, aureolada e ufana. O minúsculo parceiro tinha finalmente entendido que seguir um conselho de uma senhora irritada lhe podia a curto prazo fazer saltar dois dentes, mesmo que para isso tenha existido a preciosa ajuda de uma panela de pressão ali mesmo à mão de semear.

 

Nunca aquele casamento, como sem os dentes da frente, se viu tão abençoado por um entendimento cordial que se manteve incólume até ao dia em a D. Arminda trocou a migalha pela broa inteira e se uniu ao Joaquim, escândalo que deu que falar e que fez a minha avó deixar de ir à missa. 

 

Não é de todo generalizável este pequeno episódio telúrico e é perigossíssimo tentar a ousadia, sobretudo sabendo que há conselhos dados que não partem dentes, mas não haverá por aí um Joaquim qualquer disposto a tratar das mandíbulas de Manuel Maria Carrilho?

Da Bárbara Guimarães trata a minha avó.

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A Gaffe das Quartas-feiras

rabiscado pela Gaffe, em 28.01.15

A Gaffe tem encontrado uma certa dificuldade em preencher a gaveta das Quartas-feiras. É desmesurada a diferença entre o número de páginas dedicadas a meninas com maminhas à mostra ou rabinho empinado a insinuar promessas que o Vaticano não aprovaria e o número que existe dedicado à representação dos atributos masculinos também com a reprovação papal.

A Gaffe admite que não tem uma gotícula de paciência para pesquisas deste teor, mas considera uma afronta a ausência de tão pouca documentação numa área que nos interessa tanto.

É bem verdade que uma rapariga esperta prefere os exemplares de músculo e osso, mas apesar de tudo esta rapariga em particular confessa-se desanimada perante a escassez de catálogos.

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Julian Scheneyder por Kosmas Pavlos.jpg

Julian Scheneyder por Kosmas Pavlos

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A Gaffe lunática

rabiscado pela Gaffe, em 27.01.15

Ana Locking.jpgHá uma noite algures, dentro das histórias de todos os homens, em que o luar é o lençol que envolve uma mulher, mas que a desnuda quando acaba a palidez do escuro atenuado, porque existe apenas duas formas de se vestir a lua: pela mão de Ana Locking ou num desfile de Carnaval.  

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A Gaffe a envelhecer

rabiscado pela Gaffe, em 27.01.15

A Gaffe envelhecida

Há imensas maneiras de uma mulher envelhecer.

A Gaffe, embora tenha escolhido a forma mais ácida de o fazer, descontrolando a vida e esfacelando os nervos aos incautos que ainda a conseguem tratar com desvelo e sem receio de se verem trucidados pelo seu mau humor, sabe que pelo menos duas delas são divertidas: a mediterrânica e a nórdica.

A primeira faz de nós pragmáticas velhotas espertas e fleumáticas, vestidas com inenarráveis peças coloridas encontradas nos mais díspares bazares do Norte de África por onde viajamos à procura de calor e de aventuras absolutamente indignas de uma senhora já encanecida. Usamos e abusamos da nossa condição de fóssil vivo para extorquirmos tudo o que à nossa volta reluz, é confortável e sobretudo dos outros. Jamais fingimos que somos simpáticas e amorosas apenas para que não nos risquem o carro, porque o carro que usamos é o do hotel ou o do cavalheiro que se esqueceu das chaves na mesa onde tomou connosco o chá das cinco. Nunca ouvimos os conselhos que nos dão, porque sabemos que não passam de confissões encapotadas e repletas de confidências parvas estão as nossas Memórias que prometemos escrever, jamais tendo intenção de as começar. Deixamos de temer os violadores, porque sabemos que na nossa idade se houver violação, quem viola somos nós. Esquecemo-nos sempre que a porta do balneário masculino não é a mesma que dá para a capela e não é com a mesma devoção que nos benzemos quando naqueles banhos entramos sem bater. Já lemos tudo o que valia a pena ler e agora agarramos com unhas e dentadura as obras de Margarida Rebelo Pinto para termos a certeza que apesar de tudo há alguém mais tonto do que nós e recusamos o convite de aniversário de Manuel de Oliveira, porque receamos encontrar o seu avô com quem já ardemos nas areias de um Verão passado.

Não morremos. Abandonamos o Hotel sem pagar a conta.

O envelhecer nórdico é ligeiramente diferente. O calor vai aumentando com a idade, percorrendo um caminho inverso ao esperado. Aparecemos de biquíni exíguo no Algarve, ameaçando a vitalidade do turismo com um topless onde a gravidade fez das suas e que nos confirma que a idade nos impede de fazer sexo numa posição que implique ficarmos num ângulo superior ao do homem, porque arriscamos que ele nos veja tudo a desabar. Não nos preocupamos com o facto de ninguém nos entender, porque recusamos entender quem quer que seja. Consideramos que o nosso pincher é bem mais capaz de encriptar o seu desejo de se enroscar numa doberman do que o Marcelo a sua ambição presidencial. Comemos tudo o que nos vier à mão desde que a mão que nos traz o prato pertença a um culturista, porque os nosso olhos já não são o que eram e é preciso que nos ampliem as coisas e porque já preferimos que nos avivem a memória de um modo convincente e insuflado. Uma coisa em grande, porque pode não haver amanhã. Odiamos os radicais, sobretudo os livres, e bebemos toda a espécie de mistelas detox desde que venham misturadas com gin tónico ou vodka num copo decorado com um raminho muito ecológico de cannabis. Tornamo-nos fiéis a um perfume e infiéis ao Regimento de Infantaria n.º 9 a quem prometemos a exclusividade das nossas noites mais ardentes, mas que trocamos pela corporação de bombeiros de Setúbal muitíssimo mais habituada a lidar com fogos, mesmo os das lamparinas em que nos tornamos. Continuamos a usar as mesmas bugigangas que baloiçamos em Woodstock, mas com o ar vintage que lhes deu o uso e abuso das suas propriedades.

Não morremos. Abandonamos o Hotel a reclamar do serviço de quartos.

 

O nonagésimo aniversário da Gaffe encontrará esta rapariga de cabelo cor de ferrugem – que deixou de ser ruivo para acompanhar o tempo -, talvez mais rezingona e capaz de destruir a paciência aos santos e a vontade de reincidir nas amostras de carinho aos pecadores, mas com a irresistível mistura de mediterrâneo e nórdico capaz de esmagar qualquer arrojo, afronta e sombra daquelas que no Hotel conhecerão apenas o recepcionista.

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A Gaffe trintona

rabiscado pela Gaffe, em 26.01.15

Trintona.jpgEm Abril próximo, a Gaffe atinge os trinta e dois anos, iniciando o seu percurso balzaquiano.

Não que a preocupe o génio com que o francês de eterno roupão descreve as mulheres que vão observando a subtileza com que se riscam as rugas, mas confessa que a intriga a distância e os pedregulhos que vão crescendo e surgindo entre ela e as que há uma década antes dela viram a luz do dia.

Esta distância é pedestre. Pode atingir todas as superfícies, mas começa indubitavelmente pelos pés.

A Gaffe não consegue deixar de sentir uma aversão descomunal em relação aos brutais penedos que as meninas jovens decidiram calçar e tornar o denominador comum das suas andanças. Um must, o pico do Everest, o orgasmo. A textura, o aspecto do plástico e as cores primárias aliadas ao preto e ao branco luzidios que acentuam as trombas grossas que fornecem aos pés, deixam a Gaffe próxima da revolta e pronta a enfrentar ataques terroristas. Passada a indignação, a Gaffe desiste de sentir o cérebro quando apanha com os monumentais tacões, grossos troncos com uma base ondulada, que são compensados por uma plataforma igualmente embondeiro e com uma base também às ondinhas. A Gaffe não entende como é que estas raparigas não se apercebem que ao contrário do que se pensa, aquilo lhes aproxima os pés das ancas, fazendo-as parecer um dos carrinhos anões com pneus gigantescos que divertem imenso os americanos trepando e esmagando uma fila de sucata. Presos a eles, as leggings que deixam os tornozelos desnudos e quase obscenos a surgir daquele amontoado de plástico e os calções de couro que soltam a barriga apertada por lycras zebradas, fazem a Gaffe acreditar que o Apocalipse já anda à solta pelas avenidas. Esta imagem feminina dá razão àquele que diz que uma jovem mulher é como a salcicha: pode ser boa, mas é preferível nunca saber como se arranja.

Outro sinal, este mais agradável, que os trinta e dois anos da Gaffe estão no activo é o facto de já conseguir cruzar as pernas!

Não é de todo fácil. Cruzar as pernas é das operações mais complexas que uma mulher realiza e a perfeição é atingida apenas com o tempo. Uma perna é colocada em cima da outra que, inclinada, constrói um ângulo agudo com o chão, e o pezinho da perna que se eleva vai prender-se na barriga da perna em sossego enquanto o tronco permanece numa vertical inatacável e se beberrica o chá. As tentativas imaturas da Gaffe fizeram-na tombar, Torre de Pisa, e esbardalhar-se no sofá, suplicando auxílio para desencravar o pé e com a bebida derramada no colo dos brocados. Hoje, trintona, consegue contorcer-se na perfeição e acrescenta a este notável número de equilibrismo a bolacha de chocolate, duas gotas de leite no chá e um sorriso Charlene de Mónaco.

 

Ter trinta e dois anos deve ser isto! Perceber finalmente que a idade também não está na cabeça, mas nos pés.

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A Gaffe num quadradinho

rabiscado pela Gaffe, em 25.01.15

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Gavetas:

A Gaffe de última hora

rabiscado pela Gaffe, em 25.01.15

Perseguição policial aclamada pela maioria parlamentar

Gaffe.gifPolícia persegue casal gay na Avenidada Liberdade depois de este se ter aproximado de um orfanato.

As cerca de três centenas de crianças estão salvas e confinadas ao quarto onde permanecem diariamente.

Agendada conferência de imprensa conjunta do Ministério da Defesa e da Justiça com as presenças do Estado-Maior General das Forças Armadas e do vice-primeiro-ministro para elogiar a pronta resposta da polícia que servirá de exemplo de conduta em caso de ataque terrorista.

Presidente da República pondera condecorar as forças de intervenção logo que Zeinal Bava devolva a medalha.

Quintino Aires comenta o crime no programa do Goucha e César das Neves já mandou rezar uma missa pedindo a Deus protecção contra os pedófilos.

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Gavetas:

A Gaffe boquiaberta

rabiscado pela Gaffe, em 24.01.15

Gaffe.gifContinue, meu querido! Não se preocupe! Mesmo que eu desate aos gritos muitíssimo suspeitos, continue! Mesmo que eu acorde a vizinhança, continue! Mesmo que eu diga que não e rasgue depois os lençóis como os dentes, continue! Mesmo que desmaie nos seus braços, continue! Continue! Não pare! Não pare! Por favor, não pare!

 

Pelo menos um homem consegue que a Gaffe sinta que há dias em que todos os segundos superam uma eternidade de fogo de artíficio.

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A Gaffe a pescar

rabiscado pela Gaffe, em 23.01.15

gola pescador.jpgSe o mar se consumir nas ondas do cabelo e reflectir a cor dos olhos de um rapaz, todas as golas pescador serão a espuma que se atenua nas redes lançadas aos laços das velas que o nosso corpo expande ao flutuar.  

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A Gaffe das sonsas

rabiscado pela Gaffe, em 23.01.15

sonsa.gifA Gaffe detesta sonsas quase tanto como odeia sardinhas. Sobretudo aquelas não se detectam de imediato, parecendo-nos apenas fofinhas.

Se a Gaffe perder algum tempo com a imagem que se apensa, verifica que a doçura da petiza é falsificação. A pequena pestaneja com a velocidade da retoma económica. As sonsas difíceis de sinalizar revelam-se apenas porque baloiçam as pestanas para cima e para baixo quando lhes aparece na frente o que desejam e sabem ser nosso. Normalmente é um homem que nos custou couro e cabelo conquistar e que acaba a comparar o nosso mau feitio com a afabilidade tímida da sonsa. É evidente que ficamos a perder, porque acabamos a rabujar impropérios e a disparar obuses contra a dulcíssima figura. A sonsa reconhece que uma das suas armas é a facilidade que possui de nos transformar no Incrivel Hulk e, é evidente, nenhum rapaz ambiciona ter verde tropa na cama – enfim, há excepções, mas mesmo essas ficam em desvantagem perante um ataque da sonsa.

As sonsas nunca exigem nada. Contentam-se, penduradas num sorriso ameno, com o que é sorteado e lhes cabe em sorte. Nunca reclamam a não ser através de uma ladainha morna e cadenciada, que chega acompanhada de um sorriso terno, infantil e tímido que manobra de modo eficaz o ouvinte que se baba e que acaba por engolir o sapo que não lhe era destinado.

A sonsa não critica nada. Faz reparos. Anotações. É quase pudica, quase catecista de paróquia perdida no alto da serra, quando nos aponta, como quem não o quer e com a brancura da surpresa, o nosso decote que revela um soutien minimal e sem história comparado com a obscenidade de renda vermelha debruada a penas pretas que usa nas suas romarias de alcova.

A sonsa parece casta, fria e inacessível. Acaba por cumprir este desiderato, corando mal se pronuncia a palavra xixi, porque lhe lembra a anatomia masculina, mas apenas em relação ao homem que é seu noivo – a sonsa não tem namorado, tem noivo. Descobrimos com alguma facilidade que é a domina de um bordel sadomasoquista em Bragança completamente desconhecido das donas de casa lá da terra que acreditaram que toda aquela parafernália era oferta da Ordem Sacra dos Santos Cilícios.         

A sonsa envia ao chefe, por engano, os nossos ficheiros esbardalhados e ensebados que lhe pedimos para rever e acrescentar o que é da sua competência, informando o monarca, muito prestáveis, que fomos nós que arcamos com o trabalho todo. Quando o chefe nos aparece com cara de leão-marinho após o degelo, prontifica-se a assumir o erro quase a choramingar no ombro do paquiderme sem sequer se interessar em saber se realmente o leão-marinho é um paquiderme ou nem por isso (este pequeno lapso zoológico é comum a todas, sonsas ou não).

As mentiras da sonsa não chegam a ser mentiras. São amostras de falta de verdade ou omissões. Mente aos bocadinhos pequeninos. Mente como quem oferece chupa-chupas esperando que o açúcar provoque a diabetes fatal. A junção das suas mentirinhas permite-lhe construir umas ruelas por onde faz deslizar a sua ambição acolchoada.

A sonsa é boa pessoa. Uma Madre Teresa em miniatura. Comove-se imenso com os pobrezinhos, com os cães abandonados e não é contra o casamento gay - tem apenas uma opinião desfavorável -, conseguindo embrulhar as três comoções com o mesmo papel, dando por finda a sua solidariedade ao fazer deslizar uma lágrima piedosa que limpa com o dedinho atravessado para não esboroar o rímel.

A expressão favorita da sonsa é o derivado a seguida das justificações que encontra para a sua ausência de raciocínio.

- Ainda não li, derivado às dores de coluna com que fico derivado ao peso do livro.

- Não avisei que a casa estava a arder, derivado ao saldo de meu telemóvel.

- Não avisei que havia reunião, derivado à falta de esferográficas no gabinete derivado às manifestações do Charlie.

 

A sonsa, para além de tudo o que se diz por ser verdade, é também um problema dermatológico. Pode não parecer importante, mas com o tempo e a comichão alastra e torna-se a mancha que envelhece cancerígena.

A Gaffe decididamente prefere engolir sardinhas.     

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A Gaffe solidária

rabiscado pela Gaffe, em 22.01.15

Chanel.jpgÉ difícil uma rapariga ser atendida condignamente nas lojas em que é preciso ter estampado na testa o cartão de crédito gold. Somos normalmente tratadas com o desplante, o desprezo e a repugnância que a monarquia, anquilosada ou não, dedica a gente sem berço.

Existe sempre, a Gaffe reconhece, a possibilidade de se entrar num provador e desatar aos gritos a perguntar onde está o papel higiénico, mas corre-se o risco de à saída nos apresentarem a conta do que não usamos ou de nos passarem a espreitar através de um postigo, avaliando-nos, como na Joalharia Cartier, em Paris.  

 

A Gaffe decidiu partilhar um segredo.

Seremos tratadas como diamantes se coleccionarmos sacos grifados! Os com mais sucesso são os da Chanel, mas os Cartier ou Óscar de la Renta resultam com eficácia similar.

Escolhemos dois ou três e enfiamos dentro uma ou duas camisolinhas da Zara ou um ou dois jornais amarrotados e com um ar de quem comeu caviar estragado, entramos com eles no braço sempre de modo a que as asas fiquem presas entre a junção do braço com o antebraço e a nossa pequenina e sofisticada mão se mantenha erguida e de dedos esticados, mas tombados. Podemos aparecer esbardalhadas, porque vão pensar que somos apenas modernas e descontraídas.

Convém mexericarmos com um nojo cuidadoso nas peças expostas como se todas tivessem sido contaminadas pelo ébola e jamais solicitar a ajuda das meninas que nesta altura já devem estar prontas para se dissolverem em amabilidade.

 

Resulta na esmagadora maioria das vezes. Nas que falham é porque precisamos mesmo do papel higiénico.   

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