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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe nas "Entradas"

rabiscado pela Gaffe, em 02.01.15

the academy oscars.jpgQuando se fala de Ano Novo, fala-se nas Entradas.

Engolem-se doze passas, salta-se três vezes ou sobe-se para uma cadeira.

Há no entanto uma forma de entrar que prescinde de todo o ritual. É aquela que advém do facto de termos a segurança de que nada nos vai impedir de percorrer o caminho que sabemos que é só nosso e que a força dos nossos passos é maior do que todos os voos do albatroz.   

 

O meu querido amigo chegou ao fim da tarde para beijar a minha avó que o esperava desde o amanhecer com a ansiedade de quem deseja muito o presente que sabe que vai ter, mas que demora.
Discretamente, avisaram a minha irmã.
O homem estava esgotado, e era um dó d’alma fazê-lo enfrentar a multidão de corvos luzidios de sedas, reunidos pelos festejos.
- Mais valia seguir viagem, menina! O Senhor já nem sente os solavancos. – Implorava o D. que o foi buscar, do alto do seu metro e sessenta e do seu cabelo pintado de preto assustador.
Mas ele apareceu de braço dado na minha irmã.
O contraste deve ter sido planeado pela argúcia e maquiavelismo da acompanhante. Uma mulher Armani, de Cartier nas orelhas, sofisticada e repleta de requinte, de olhar altivo e saltos iguais e um homem desgrenhado e duro, fechado e imponente, de barba negra e cerrada, de olhar rígido e escuro, de caracóis largos e indomados, de sobretudo amplo e amarrotado e blusão de gola alta. Os dois de braço dado.
O gigante provoca nos tontos que rodopiam na sala o que sempre provocou em toda a gente:
A certeza absoluta de que somos fisicamente mais pequenos do que ele e a sensação de ser ele o mais velho dos homens e de súbito o Senhor de todos os presentes, embora na sala pastem dinossauros.
Atravessou calado os metros que o separavam da avó perante o silêncio imposto despropositadamente pela sua figura deslocada. Ajoelhou-se sem uma palavra  - são estas as atitudes do homem que envenenam de ciúmes os meus primos e fazem disparar o orgulho de o ter como Amigo - e beijou devagar as mãos da senhora já completamente rendida e comovida.
- Como está o meu rapaz?! Vejam-lhe a barba! Só há espaço para os olhos!
O homem parece cada vez maior. Lembra o escuro que se projecta no abismo que é sulcado por tempestades e por luas distantes, mas continua carregado da magia que lhe vem do facto de ter ousado permanecer no sonho, atando uma das pontas a uma pedra.
Pousou a cabeça no regaço da minha avó que lhe tentou dominar o cabelo.
Esperou tudo em silêncio, de copo na mão e colado sorriso imbecil.
Depois ergueu-se, agarrou numa das coxas gigantescas de frango assado com Champagne pousadas na mesa do jantar, e todo besuntado, saiu sem ver ninguém.
Esta é a entrada de um dos últimos românticos que existem.


É destas magníficas cenas que a Vida precisa para ganhar um Óscar.

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