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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem burka

rabiscado pela Gaffe, em 20.01.15

Lib..jpgHá quem nasça sem alma. Pode não ser grave. Pode ser pior. Podemos nascer com lábio leporino ou com problemas de visão. É mais inestético.

Mas há quem nasça a pertencer a pertencer a uma elite de monstros que não se consegue projectar nos outros. Não reconhece a vítima e, em consequência, não assume nunca esse papel. Não se consegue rever na dor que provoca. Não sente nunca as vítimas que faz. É um papel que não decorou. Esta incapacidade produz assassinos em série, violadores, carrascos, torturadores e, no melhor dos casos, homens que passam pela vida com a indiferença dos mortos.

Predadores que esperam, invocando razões desgarradas para cometer as atrocidades com que saciam a urgência de sentirem o que quer que seja através do terror dos outros.

Esta ausência ou esta mutilação de empatia atinge também civilizações e culturas e acaba por criar aglomerados de razões que se apercebem em uníssono, um bater de palmas cadenciado que assimila de imediato aquele que começa a fazer estalar as mãos. O tempo faz com que se acredite na unicidade dos conceitos criados e na imperiosa necessidade de os alastrar.

A Liberdade é grega. É portanto uma pré-adolescente no percurso vivido pela História e, como todas as raparigas que entram depressa nesse dia aberto, tem por vezes a arrogância, a teimosia, os egoísmos, as birras, a cegueira, a inflexibilidade e todas as certezas do mundo que é seu, refeito em si, com o impulso do seu jogo e dos seus dados e que acredita ser o globo certo. Tem também a ousadia, a seiva da coragem e todas as outras vantagens do crescer, mas não é de claridade que se fala.

A elite dos livres adquire por vezes a característica dos que nascem sem alma. Deixa de sentir a diferença, de reconhecer e assumir o papel do outro que não identifica e de perceber que apenas o Pensamento é capaz de se tornar a raiz da Liberdade, de a tornar tronco, folha e fruto e que a única forma de a cuidarmos é semeando livros, invólucros do Saber e do Conhecer.

É que a liberdade que queremos para os outros, igual àquela que sentimos apanágio da alma, intrínseca a nós, inviolável e intemporal, não pega de estaca.     

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