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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe solidária

rabiscado pela Gaffe, em 22.01.15

Chanel.jpgÉ difícil uma rapariga ser atendida condignamente nas lojas em que é preciso ter estampado na testa o cartão de crédito gold. Somos normalmente tratadas com o desplante, o desprezo e a repugnância que a monarquia, anquilosada ou não, dedica a gente sem berço.

Existe sempre, a Gaffe reconhece, a possibilidade de se entrar num provador e desatar aos gritos a perguntar onde está o papel higiénico, mas corre-se o risco de à saída nos apresentarem a conta do que não usamos ou de nos passarem a espreitar através de um postigo, avaliando-nos, como na Joalharia Cartier, em Paris.  

 

A Gaffe decidiu partilhar um segredo.

Seremos tratadas como diamantes se coleccionarmos sacos grifados! Os com mais sucesso são os da Chanel, mas os Cartier ou Óscar de la Renta resultam com eficácia similar.

Escolhemos dois ou três e enfiamos dentro uma ou duas camisolinhas da Zara ou um ou dois jornais amarrotados e com um ar de quem comeu caviar estragado, entramos com eles no braço sempre de modo a que as asas fiquem presas entre a junção do braço com o antebraço e a nossa pequenina e sofisticada mão se mantenha erguida e de dedos esticados, mas tombados. Podemos aparecer esbardalhadas, porque vão pensar que somos apenas modernas e descontraídas.

Convém mexericarmos com um nojo cuidadoso nas peças expostas como se todas tivessem sido contaminadas pelo ébola e jamais solicitar a ajuda das meninas que nesta altura já devem estar prontas para se dissolverem em amabilidade.

 

Resulta na esmagadora maioria das vezes. Nas que falham é porque precisamos mesmo do papel higiénico.   

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A Gaffe "piçada"

rabiscado pela Gaffe, em 22.01.15

piaçabas.jpgÉ tão confortável atribuir um conjunto de circunstâncias que não podemos controlar, mas que de alguma forma acabam por nos ser favoráveis, à Sorte! Ficamos com imenso tempo para fazermos compras ou trocar de carteira.

Arrumamos o assunto chamando outra coisa tonta àquilo que não nos agrada e que nos acontece sem interferência nossa, embora nos arrisquemos neste caso a ouvir as guitarras portuguesas a trinar.

    

A minha prima hesita.

Que usará a pobre rapariga de modo a não se mostrar ostensiva, salvaguardando-se ao mesmo tempo da pinderiquice?!

- É interno de Medicina Geral e Familiar. Informo enquanto peso as saias da discórdia.

- E isso significa o quê? - Quer mais informações, tocando nas peças que lhe são mostradas: uma saia belíssima, quase tudo, quase nada, com cinta subida abraçada por uma fita de seda grossa laçada à frente, inconfundivelmente Chanel, a lutar contra uma outra, preta com pintas minúsculas prateadas, de corte anos cinquenta, mais discreta.
- Que ainda falta imenso tempo para o levarem a sério, mas que serve de panaceia.
- Parece que estás a falar de um vibrador! - Com o frio a minha prima pode ser pouco contida.
- Não faço ideia. A única vez que vi um, acordei com o cabelo frisado.

 A minha prima, com quebras de tensão, tinha alquebrado um jovem de bata branca, que lha mediu e a auscultou, parece que demasiado atento, solicito e com tensões altíssimas.
- E se deixares ser o L. a decidir?! - Sugeri eu, já estafada com tanto voltear de sedas frescas.
A sugestão foi esturricada por uma chispa de lume que se soltou dos olhos da minha prima. O único interesse que encontra nas crianças é o facto de elas não a suportarem e lho dizerem descaradamente.

- A menina use a piçada.
Paralisamos.
Não pelo susto que é bater de frente na Lúzia, setenta e vários anos de experiência em prender e alimentar as doidas desta casa, mas porque receamos o pior, a insanidade verbal daquela senhora, vinda do Minho catraia muito tola, para servir a avó.
Refeitas e prontos para tudo, entendemos a singular escolha. A saia era a plissada de La Renta.
O rapaz, sem bata branca, deslumbrou! De casaco tweed e jeans bem apertados.
Sorri, babei-me e disfarcei com um beijo.

A convidada entrou depois, de saia preta e prata, tão discreta. Bateu com o olhar no rapazinho e beliscou-me. Sem estetoscópio pendurado e de jeans justinhos o rapaz era um risco que sabia bem correr.

 

- Mudei de ideias! - Solta a minha prima de soslaio. - Vou-me trocar num instante. Hoje levo a piçada.
Eu concordei.

 

Trago agora vestida a saia laçada de cintura alta da minha irmã que não faz ideia que a emprestou. Elegantíssima, mas desconfortável. Sou mais baixa do que a megera - que terá de nos agradecer o furto já que quer uma, quer outra das peças roubadas lhe fazem o rabo grande - e não consigo sentar-me sem a sentir subir e magoar-me as mamas.

Azar.

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