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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe lunática

rabiscado pela Gaffe, em 27.01.15

Ana Locking.jpgHá uma noite algures, dentro das histórias de todos os homens, em que o luar é o lençol que envolve uma mulher, mas que a desnuda quando acaba a palidez do escuro atenuado, porque existe apenas duas formas de se vestir a lua: pela mão de Ana Locking ou num desfile de Carnaval.  

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A Gaffe a envelhecer

rabiscado pela Gaffe, em 27.01.15

A Gaffe envelhecida

Há imensas maneiras de uma mulher envelhecer.

A Gaffe, embora tenha escolhido a forma mais ácida de o fazer, descontrolando a vida e esfacelando os nervos aos incautos que ainda a conseguem tratar com desvelo e sem receio de se verem trucidados pelo seu mau humor, sabe que pelo menos duas delas são divertidas: a mediterrânica e a nórdica.

A primeira faz de nós pragmáticas velhotas espertas e fleumáticas, vestidas com inenarráveis peças coloridas encontradas nos mais díspares bazares do Norte de África por onde viajamos à procura de calor e de aventuras absolutamente indignas de uma senhora já encanecida. Usamos e abusamos da nossa condição de fóssil vivo para extorquirmos tudo o que à nossa volta reluz, é confortável e sobretudo dos outros. Jamais fingimos que somos simpáticas e amorosas apenas para que não nos risquem o carro, porque o carro que usamos é o do hotel ou o do cavalheiro que se esqueceu das chaves na mesa onde tomou connosco o chá das cinco. Nunca ouvimos os conselhos que nos dão, porque sabemos que não passam de confissões encapotadas e repletas de confidências parvas estão as nossas Memórias que prometemos escrever, jamais tendo intenção de as começar. Deixamos de temer os violadores, porque sabemos que na nossa idade se houver violação, quem viola somos nós. Esquecemo-nos sempre que a porta do balneário masculino não é a mesma que dá para a capela e não é com a mesma devoção que nos benzemos quando naqueles banhos entramos sem bater. Já lemos tudo o que valia a pena ler e agora agarramos com unhas e dentadura as obras de Margarida Rebelo Pinto para termos a certeza que apesar de tudo há alguém mais tonto do que nós e recusamos o convite de aniversário de Manuel de Oliveira, porque receamos encontrar o seu avô com quem já ardemos nas areias de um Verão passado.

Não morremos. Abandonamos o Hotel sem pagar a conta.

O envelhecer nórdico é ligeiramente diferente. O calor vai aumentando com a idade, percorrendo um caminho inverso ao esperado. Aparecemos de biquíni exíguo no Algarve, ameaçando a vitalidade do turismo com um topless onde a gravidade fez das suas e que nos confirma que a idade nos impede de fazer sexo numa posição que implique ficarmos num ângulo superior ao do homem, porque arriscamos que ele nos veja tudo a desabar. Não nos preocupamos com o facto de ninguém nos entender, porque recusamos entender quem quer que seja. Consideramos que o nosso pincher é bem mais capaz de encriptar o seu desejo de se enroscar numa doberman do que o Marcelo a sua ambição presidencial. Comemos tudo o que nos vier à mão desde que a mão que nos traz o prato pertença a um culturista, porque os nosso olhos já não são o que eram e é preciso que nos ampliem as coisas e porque já preferimos que nos avivem a memória de um modo convincente e insuflado. Uma coisa em grande, porque pode não haver amanhã. Odiamos os radicais, sobretudo os livres, e bebemos toda a espécie de mistelas detox desde que venham misturadas com gin tónico ou vodka num copo decorado com um raminho muito ecológico de cannabis. Tornamo-nos fiéis a um perfume e infiéis ao Regimento de Infantaria n.º 9 a quem prometemos a exclusividade das nossas noites mais ardentes, mas que trocamos pela corporação de bombeiros de Setúbal muitíssimo mais habituada a lidar com fogos, mesmo os das lamparinas em que nos tornamos. Continuamos a usar as mesmas bugigangas que baloiçamos em Woodstock, mas com o ar vintage que lhes deu o uso e abuso das suas propriedades.

Não morremos. Abandonamos o Hotel a reclamar do serviço de quartos.

 

O nonagésimo aniversário da Gaffe encontrará esta rapariga de cabelo cor de ferrugem – que deixou de ser ruivo para acompanhar o tempo -, talvez mais rezingona e capaz de destruir a paciência aos santos e a vontade de reincidir nas amostras de carinho aos pecadores, mas com a irresistível mistura de mediterrâneo e nórdico capaz de esmagar qualquer arrojo, afronta e sombra daquelas que no Hotel conhecerão apenas o recepcionista.

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