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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a toque de caixa

rabiscado pela Gaffe, em 28.02.15

Gaffe.jpgA forma mais perfeita de passarmos um fim-de-semana radioso é espalhar no chão todas as nossas caixas favoritas, saber que todas trazem dentro um sonho qualquer e encontrar no monte aquela que nos chega com um que foi construído só por nós. 

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A Gaffe analista

rabiscado pela Gaffe, em 27.02.15

A Gaffe está apta a analisar os resultados do seu pequeno inquérito.

A verdade é que, apesar do iminente carácter científico do proposto, esta rapariga não tem como saber se foram apenas os rapazes que contribuíram para os resultados obtidos. Seja como for, a análise que dali resulta também não vai maçar-nos em numa publicação científica.

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Do revisto, a Gaffe acaba por concluir que, em percentagens muito similares, as raparigas quando sozinhas libertam o paspalho que trazem dentro e a dona de casa tendencialmente calaceira, mas apesar de tudo motivada. O pano do pó e o comando da televisão parecem ser os apêndices favoritos das mulheres numa situação de maior intimidade.

As outras hipóteses não mereceram grande atenção, tendo mesmo algumas ficado virgens e o item outros, embora votado, não refere as variantes possíveis.

Uma das curiosidades que se apuram é que não se torna rancorosa, não dá em doida, não se transforma numa aluna do Chapitô, não acaba esquizofrénica e não descuida o trabalho dos profissionais de beleza.  

De acordo com os resultados, é de concluir que uma rapariga quando sozinha acaba a deixar acumular o pó no cérebro ou a tentar retirá-lo das estantes – o pó e não o cérebro.

Não são grandes projectos.

É evidente que a Gaffe não vai destruir um dos grandes enigmas da humanidade e revelar o que realmente faz quando está só.

A imaginação masculina tem sempre de ser estimulada e esta rapariga continua a acreditar que nada melhor para acelerar o processo do que um segredo feminino.  

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A Gaffe no hipermercado

rabiscado pela Gaffe, em 26.02.15

A Gaffe, prestável e amorosa, acolhe de bom grado a incumbência de comprar o pacote de leite que faz falta ao brutal acervo de mercearia da sua querida amiga.

Atira-se ao caminho e, por ser mais perto, decide entrar num hipermercado. Uma viagem rápida que aparenta não oferecer qualquer risco.

Sofre o primeiro embate quando percorre o corredor que a levará a sessão onde brilha leitosa a preciosidade. O rabo da empregada ocupa dois terços da via e quando a mulher se baixa para repor as latas de bolachas na prateleira, acende-se a luz de aviso de obstrução. A senhora lida bem com o facto e parece esperar que as bolachas se movam sozinhas. A Gaffe introduz-se numa frincha e consegue passar dando graças pela sua figura esbelta e ágil.

Caminha agora mais arejada.

A meio do percurso é abalroada por um carrinho que traz apenso um senhor baixinho, de fato de treino, sandálias e meias de lã às riscas, de bigode preto farfalhudo e rabo-de-cavalo oleoso, que implica com os calcanhares dos transeuntes. A Gaffe pensa fuzilá-lo com os olhos, mas percebe que encostado àquele muro não está ninguém. Tenta corrigir a rota alterada pelo empurrão e, já um bocadinho nervosa, empina o nariz e põe-se em marcha.

Ao encontrar a famigerada estante dos produtos lácteos, descobre que o leite está atrás de uma tonelada de garrafões de água e encerrado em plástico que apenas com serras eléctricas se consegue romper. A Gaffe pede ajuda ao primeiro mocetão fardado que por si passa. O rapaz olha-a com nojo, fazendo com que esta rapariga sinta que insultou o papa. Avança com um x-acto, arranca os garrafões do sítio, saca uma embalagem de seis pacotes e atravessa o plástico com um golpe só – quer todos ou só vai um? A Gaffe amedrontada arrisca levar dois.  

Foge e encaixa-se numa fila interminável, porque a caixa para clientes que trazem no máximo seis produtos está obstruída por uma senhora gorda e oxigenada que grita que não tem culpa que o marido e a filha também ali estejam, atrás dela, cada um com seis porcarias para pagar.

A Gaffe é apertada pelos clientes que se empurram para que pelo corredor que a fila para pagamento ocupa, consiga passar o carrinho do homenzinho que odeia calcanhares. Desconfia que o rapaz com pacotes de cereais e duas garrafas de cerveja não precisava de lhas encostar ao rabo.   

Chegada a sua vez, esta pobre rapariga é atendida por uma senhora com unhas postiças a lembrar punhais e carantonha de quem não hesita em usá-los, paga 10 cêntimos por um saco plástico e desata a fugir por ali fora.

Em casa, ainda esbaforida, descobre que se voltou a distrair e que trocou o leite por champagne.

Existem imensas prateleiras que a confundem tanto!

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A Gaffe testa os rapazes

rabiscado pela Gaffe, em 25.02.15

O que pensam os homens que fazemos quando estamos sós?

A pergunta é pertinente, mas a Gaffe não pode responder pelos rapazes. Assim, para além de poderem votar nos comportamentos mais óbvios que são enumerados, os cavalheiros poderão acrescentar o que supõem ser usual uma rapariga fazer no aconchego do seu lar num dia de solidão miraculosa. 

Basta que escolham uma das hipóteses inscritas no quadro que acaba de fazer a sua aparição fulgurante no vosso monitor. Se não aparece perante a vossa perplexidade, é porque precisais de mudar de browser. 

Podem votar até 27 de Fevereiro, dia em que desaparecerá o quadro lateral e em que a Gaffe analisa os resultados.  

 

Hipóteses colocadas a votos:

 

1 - Não despe o pijama, não toma banho e passa o dia espapaçada no sofá a fazer zapping e a enfardar açúcar.

 

2 - Decide limpar o pó aos livros. Enche-se de força, de motivação, de ânimo e de espírito de sacrifício. Equipa-se. Pano do pó, lenço na cabeça, luvas de borracha, escadote debaixo do braço e avental por cima da lingerie. Desiste a meio da primeira estante.

 

3 - Decide fazer uma mistura exótica para o seu lanchinho e enfia num copo um iogurte com pedaços de fruta, algumas gotas de gin, xarope para a tosse, sumo de ananás, maça esmagada, cereais e uma quadrícula de chocolate. Tritura, prova e despeja tudo na sanita. Come um pão barrado com manteiga e bebe um chá preto.

 

4 - Espalha uma quantidade absurda de papéis na mesa de trabalho, abre o PC, rodeia-se de livros, canetas, clips e de agrafadores e espera a chegada do rapaz para lhe dizer que está exausta de tanto trabalho e que tem de ser ele a tratar do jantar.Experimenta maquilhagem, penteados novos e excêntricos outfits e posa ao espelho a imitar a Monroe.

 

5 - Bisbilhota o facebook das inimigas que são amigas das suas amigas e decide bloquear as amigas das inimigas que afinal não são suas amigas. Arrasa e esfarrapa ambas.

 

6 - Pinta as unhas dos pés de escarlate e enquanto elas secam, lê a “Caras” com muito mais atenção do que seria de esperar. Vai imitando as boquinhas das actrizes até sentir que sofre de paralisia facial.

 

7 - Lê os mails do ex-namorado e percebe que só podia estar bêbada quando respondeu àquela porcaria mal escrita. Vai ao Photoshop furar calmamente os olhos às fotografias onde o homem aparece.

 

8 - Experimenta os soutiens para confirmar que todos lhe favorecem as maminhas e fica furibunda porque nenhum as faz parecidas com as da Irina Shayk.

 

9 - Descobre que tem de marcar depilação e entretanto vai adiantando o serviço usando a gillette do actual namorado. Coloca-a no lugar, muto direitinha, depois de se ter cortado.

 

10 - outros.

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A Gaffe gondoleira

rabiscado pela Gaffe, em 25.02.15

Paul Newman.jpg1963 foi o ano em que Veneza foi inundada pelo charme e beleza de Paul Newman. Ninguém suspeitava então que passados tantos anos, Veneza quisesse rever esta história.

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A Gaffe horrorizada

rabiscado pela Gaffe, em 24.02.15

A Gaffe horrorizada.jpgA Gaffe decidiu torturar os homens da casa. O maninho e o amigo gigantesco que veio passar uns dias junto desta ruiva. Ambos suplicam o comando da TV e a ambos é dada uma condição para o obterem. Devem confessar 10 atrocidades que cometem quando estão sós durante horas a fio, fechados em casa. Devem ser barbaridades que saibam comuns a todos os rapazes.

Olham um para o outro e, para espanto desta rapariga nada cautelosa, começam a enumerar sem qualquer pudor aquilo que até às paredes deveria ser poupado!

A Gaffe hesitou imenso em revelar o que ouviu, mas considera serviço público anunciar ao mundo o que estes trogloditas que pensamos civilizados no aconchego do nosso lar, são capazes de ousar quando os deixamos sós.

Algumas das revelações, por escabrosas, podem ferir susceptibilidades e convém que sobretudo virgens e beatas se afastem daqui de imediato.

Conheçamos então do que estes mostrengos são capazes:

 

1 - Esbardalham-se no sofá, com os pés pousados na mesa de apoio, a fazer zapping. Pelo caminho enfiam a mão nos boxers, misturam o que dentro há para misturar, e levam depois os dedos ao nariz!

2 - Esbardalhados ainda no sofá, com um braço a apoiar a cabeça, parados a avaliar as maminhas aos pinchos das coristas do Portugal em Festa, tentam cheirar o sovaco, porque sentem qualquer coisa a apodrecer!  

3 - Vão tomar duche e ensaiam em voz alta o discurso que vão usar para romper com a namorada ou debitar na frente do Grande Chefe, enquanto fazem xixi nos azulejos e no tapete que impede que escorreguem!

4 - Experimentam penteados, depois de se exercitarem ao espelho em poses de culturista. Pensam seriamente em fotografar a pilinha. Só não o fazem porque se esqueceram de levar o telemóvel. Insultam-se e praguejam contra o esquecimento.  

5 - Mal sentem fome, abrem o frigorífico e retiram, mexem, enrolam, vistoriam o que há dentro. Comem de pé o que lhes agrada, com as mãos e com a porta aberta. Enfiam um pedaço de pão no frasco da maionese, cheiram os pickles e demais miudezas, levam um ou outra à língua só para provar e voltam a enfiar se for azedo o lambido no sítio.

6 - Pensam vestir-se e começam por cheirar a roupa. O colarinho das camisas, o tecido debaixo dos braços, o interior da braguilha dos jeans e, pasme-se, as cuecas, são peças que gostam de inspeccionar com o nariz!

7 - Pegam nos livros que estamos a ler, depois de uma sessão de Kung-Fu em que venceram Jackie Chan e de um número de vaudeville em que foram o Sinatra com o desodorizante a servir de microfone, e lêem o último capítulo com o objectivo de nos contarem o desfecho.

8 - Abrem as nossas gavetas e retiram a lingerie que encontram. A única perversidadezinha que cometem consiste em tentar vestir o soutien mais cobiçado e caricaturar ao espelho a rapariga que os recusou, mas que lhes ficou na memória.

9 - Dão uma vista de olhos à mais recente pornografia na net para passados uns minutos perderem o interesse e começarem a googlar o mais absurdo que conseguem inventar. Mulheres com pêlos nas orelhas, Constuitução da República Eslovaca ou choques eléctricos nos testículos dos nazis, são hipóteses a considerar.

10 - Por não haver rigorosamente mais nada para fazer, fotografam finalmente a pilinha com o telemóvel. Olham a fotografia, acham um nojo, pequena e tristonha, e desistem de a enviar à boazona que engataram no baptismo do sobrinho e que os presenteou há minutos com uma foto das férias onde toda a paisagem está tapada por duas mamas ampliadas. Reconhecem que já estavam bêbados quando a conheceram. 

 

Horrorizadas?

A verdade é que há razões para tal. Saber que um jovem professor conceituado numa das mais distintas Universidades da Europa e um jovem engenheiro físico de importância vital para uma empresa que opera numa área que ultrapassa um mortal mais simples, o cume da sofisticação, enumeraram tais horrores como comportamentos comuns a todos os homens que ficam sozinhos e que pelo menos um dos enunciados é recorrente, é ficar a um passo de admitir que eles, os homens em geral, quando sozinhos, conseguem ser muito mais civilizados do que nós.   

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A Gaffe de lady Chatterley

rabiscado pela Gaffe, em 23.02.15

836360.jpgO conflito de gerações pode parecer nulo quando a proximidade e a cumplicidade parecem fazer dele um ligeiro atrito que surge quando se percebe que existem opiniões que não são convergentes acerca dos óscares.

Para evitar este gotejar de inutilidade, a Gaffe e a sua estimada avó decidiram substituir a célebre noite de gala de transmissão em directo, por uma fita com peso e medida capaz de originar um debate acalorado acerca da fidelidade ou da infidelidade do que se vê ao que se leu.

Escolheram O Amante de Lady Chatterley desencantado na estante de um dos rapazes da casa.

Sentadas no sofá, de mantas da Covilhã nos joelhos, bolachinhas com pepitas de chocolate ao dispor, um bule com chá quente, preto e comme il faut, as duas raparigas preparam-se para comparar D.H. Lawrence com a adaptação de quem não lhes interessou saber o nome.

A primeira cena mostra uma loira Constance com um bâton demasiado carmim que se despe ao som de uma musiquita bastante ranhosa. Renda a renda, colchete a colchete, liga a liga, lacinho a lacinho, a rapariga demora tanto tempo a tirar as calcinhas que a Gaffe começa a suspeitar que não vai tão cedo sair daquele quarto. Nada que as embarace. Estóicas, aguentam a nudez da moça até ao momento em que a rapariga começa a acariciar-se e desata a gemer.

A Gaffe suspende as mordidas na bolachinha.

Sente os olhos da avó, de soslaio, a mirar o ruborizar da neta que tenta manter a postura descontraída que começa a escapar pelas paredes. Beberricam o chazinho.

O constrangimento agrava-se quando se por ali dento entra um compassado Oliver Mellors todo nu e, prolongando o gritedo da moçoila, reduz o Kama-Sutra ao programa da Grécia, ou seja, a um conto de fadas.

A Gaffe espreita a avó preocupada. Receia que a senhora esteja roxa, igual a si, de língua inchada e olhos desorbitados.

A Senhora, impávida, comenta os cortinados do aposento onde o forrobodó é mais do que o previsto.

A Gaffe concorda e refere a beleza do móvel do fundo.

A avó gosta do castiçal.

A luz das velas do castiçal elogiado continuam a iluminar nádegas ali, pernas acolá, maminhas soltas e espalhadas por demasiado grandes planos e a Gaffe está segura que por instantes a clarear mesmo a pilinha do acrobático actor.

A Avó refere a nouvelle vague e questiona a origem do filme.

A Gaffe não sabe, porque apesar de meia hora ter passado ainda não se ouviu ninguém falar.

O grande plano do rabiosque de Mellors encaixado algures nas pernas da rapariga que não parava de gritar e de esfacelar as costas do vigoroso rapagão, encontrou a Gaffe enregelada, a suar constrangimento, incapaz de balbuciar fosse o que fosse e a desejar ardentemente que a avó tivesse desmaiado. Por sua vez, sentiu a senhora petrificada, de chávena de chá suspensa a olhar de lado sem pestanejar para o embaraço desta rapariga, só comparável ao que sofreu quando tropeçou na cauda do vestido e se esbardanhou escada abaixo na noite em que tinha decidido conquistar o homem que a apanhou estatelada aos pés ou quando ofereceu no Natal a caixa de jóias horripilante à pessoa que lha tinha oferecido no ano anterior.

Foi a entrada em cena de Clifford e a sua disponibilidade nua, muito nua, e crua para se juntar àquilo que se via, que levou a concluir que a obra não estava de todo bem adaptada.

- Valha-me Deus, querida! O seu irmão andou a ler a obra errada.

 

Não tenhamos dúvidas. O choque geracional, por muito ténue que seja, deve sobretudo ser evitado numa noite de óscares.  

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A Gaffe desprevenida

rabiscado pela Gaffe, em 23.02.15

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A Gaffe de rabiosque

rabiscado pela Gaffe, em 21.02.15

rabiosque.jpgRapazes, embora não vos seja evidente e imediato, o vosso rabinho é uma das regiões que uma rapariga vistoria com assiduidade e muitas vezes aquele que decide se vale a pena viajar pelas restantes.

Um rabiosque em boa forma, dentro de uns jeans, faz por vós muito mais do que qualquer jantar à luz das velas.

Reconhecendo o facto, a Gaffe decidiu partilhar o único segredo que existe para que o vosso rabo, por muito fracote que seja, pareça saído das cuecas do Olimpo, em grego Όλυμπος - não vá isto parecer muito ordinário.

Os jeans devem permitir que dois dos vossos dedos consigam entrar sem dificuldade no espaço entre a parte traseira das calças e as vossas costas, ou seja, um espaço de cerca de 4/5 cm entre o tecido e a pele das vossas cuecas.

O cinto, apertado, faz o resto.

Se as calças forem vestidas por um menino parecido com o da imagem, o truque é absolutamente inútil. Nenhuma de nós vai perder tempo a medir espacinhos nas calças do rapaz quando o que queremos é vê-lo sem elas.

 

Vá! Não me agradeçam! Foi um prazer ajudar-vos, mas agora comportem-se e não desatem todos a verificar as medidas a meio do almoço, sim?

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A Gaffe empobrecida

rabiscado pela Gaffe, em 20.02.15

A Gaffe empobrecida.jpgA Gaffe acreditava ter arrumado o assunto de uma quantidade de Sombras de Grey no quarto do esquecimento, lugar que aparenta estar vazio, embora permaneça sempre cheio – o inverso também se valida.

Encontra no entanto com uma insistência desagradável a referência ao contributo do filme e do livro para a libertação sexual da mulher. A bandeira é normalmente erguida com o paternalismo do macho satisfeito que vê as garinas atrás das grades que recalcaram Mariana Alcoforado ou então com a euforia das garinas libertas e sem teias de aranha nas suas mentes a condizer com o resto.

O tau-tau na heroína de E. L. James é portanto o arrombar do armário onde se acumulam as fantasias eróticas de muitas mulheres. Está desvendado um dos segredos do sucesso do livro. Uma palmada no rabo filmada com a luz correcta, um morder dos lábios no instante em que as algemas grifadas se fecham ou a presença de um yuppie com uma espécie de perversão de trazer por casa em pantufinhas, são os detonadores da explosão das grades da sexualidade feminina, o derrube da porta que impede que toquemos a cama de oceano do erotismo.  

 

Pobres de nós, mulheres, se assim fosse! Que medonho desespero que habitávamos!

Pobres de vós, rapazes, se acreditais que podeis ser substituídos por tamanha pequenez no corpo das mulheres!

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A Gaffe sadomasoquista

rabiscado pela Gaffe, em 20.02.15

perneiras.jpgSe tivermos pernas até ao pescoço – e não o pescoço colada aos pés – esta perneiras fazem com que Mr. Grey aprenda que uma mulher esperta não precisa de vendas, contratos, chicotes ou de algemas para subjugar quem quer que seja. Basta-nos calçar o que nos deixa frios apenas os pezinhos para podermos continuar a ter o inefável prazer de encostar dois pedaços de gelo às coxas do rapaz que vai acreditar que se trata mesmo de uma manobra lúbrica de Sacher-Masoch.   

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A Gaffe do principezinho

rabiscado pela Gaffe, em 19.02.15


ruben-cortada-cubano-el-principe-telecinco-9.jpgA RTP2 substituiu a magnífica série Borgen por El Príncipe.

Não possuindo a inteligência da primeira, a actual, para além de acção, Marrocos, Ceuta, terroristas, traficantes, tiros, marginais, corrupção e cores torradas, tem no seu elenco um dos mais inacreditáveis homens que Deus e Alá abençoaram com uma beleza de nos matar asfixiadas com própria baba.

Meninas! Rubén Cortada é um animal único! Absolutamente perfeito!

A Gaffe mal o vislumbra, deixa de ouvir castelhano porque passa a ouvir sininhos, esquece o argumento, os tiros, a trama, o colorido e o cenário um bocadinho forçado e fica especada de queixo caído, completamente esbardalhada perante a beleza brutal deste rapaz.

Podemos defender-nos afirmando que não faz o nosso género, mas a verdade é que Rubén Cortada faz-nos tudo o que quiser.  

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A Gaffe literária

rabiscado pela Gaffe, em 19.02.15

livros.jpgNão existe boa e má literatura. Ou há literatura ou não há.

É tão errado referir determinada obra como má literatura, como classificar uma outra como pertença do inverso. É maçadora a discussão em redor dos fenómenos que permitem o reconhecimento dos escritos como peças literárias, nem sempre os cânones incluem as que eventualmente se consideram dignas de figurar no seu historial e as exclusões correm sempre o risco de encontrar discórdia, mas é sempre possível treinar a capacidade de se reconhecer instintivamente um bom livro, porque, não existindo boa e má literatura, existem contudo maus livros. Não é conflituoso reconhecer os agrupados nos universos literários que usam todos os crivos que foram construídos ao longo de séculos pela Teoria da Literatura, mas os que sobram estão na origem de uma questão que permanece:

 

Ler seja o que for, é melhor do que não ler nada?

 

A resposta afirmativa que se justifica alegando que ler seja o que for, gera o hábito de leitura, promovendo-a e incentivando-a, não colhe dividendos. Admitir que é possível ler a Maria ou medíocres romances de cordel e desaguar numa escolha mais criteriosa e de maior qualidade no futuro, é esperar sentado que chegue Godot. Um mau leitor é demasiadas vezes iniciado pelo consumo de peças de duvidosa qualidade literária para facilmente retroceder, alterando o caminho. Os maus livros são livros fáceis e a facilidade é aditiva.

A sujeição do leitor, por exemplo, ao uso de fórmulas nos romances de aventuras juvenis de sucesso mais do que adivinhado, quando não aliada a alternativas mais complexas oferecidas por outras obras do género, torna mais fácil o desenvolvimento do que se convencionou chamar Síndrome de Blyton. A repetida fórmula - grupo + problema/mistério + envolvimento do grupo + perigo + resolução do conflito pelo grupo + final feliz -, origina um casulo mental que se torna difícil quebrar com a introdução de premissas diferentes ou mesmo alterando a sua ordem. Um consumidor assíduo e exclusivo destas fórmulas, é mais susceptível de se tornar um adulto com maior dificuldade em acompanhar uma obra que não possui estas artimanhas ou estas armadilhas, e aos que partilham esta opinião chamará intelectualóides, presunçosos, castradores da liberdade de ler, fascistóides ou mimos similares.

Dificilmente gostaremos de Proust quando sempre caminhamos à sombra das Marias em flor ou nos viciamos em medíocres guerras de tronos, sagas vampirescas e melosas tramas de cordel delicodoce.  

A apelidada educação para a leitura é uma oficina de trabalho árduo, mas essencial para a formação de um bom leitor. Nesta tarefa temos a obrigação de contar com a extraordinária capacidade de selecção daqueles que se iniciam nestas andanças. Seria tontice esquecer que a clássica Literatura Infantil é uma literatura de apropriação e que foram as crianças que se apoderaram de obras que não lhes eram destinadas. A Cabana do Pai Tomás, Oliver Twist ou Huckleberry Finn e mesmo Mulherzinhas foram retirados da biblioteca dos adultos por crianças que as entregaram à mais apurada lista de literatura infanto-juvenil.

Se o primeiro passo na construção de um mau leitor se faz demasiadas vezes com a escolha, aquisição ou oferta de um mau livro, não é lícito concluir que um bom leitor se macula quando toca numa obra menor. Não a proibe ou excumunga, nem se esgadanha quando encontra uma pelo caminho. Normalmente ignora-a de forma natural e quando não o faz, passa por ela sem por ela ser tocado.

 

A literatura universal está nas mãos de todos e é de tal forma imensa e povoada que perder tempo - e que imensa perda de tempo! -  com um mau livro, quando poderíamos em troca tricotar um cachecol, devia ser entendido como pateta ou, no mínimo, fazer com que nos sentíssemos a usar um pechisbeque quando nos entregam todas as colecções de jóias que a nossa vida pode imaginar.

 

Nota da redacção - Todo este rabisco teórico, salpicado por uma ligeira demagogia e polvilhado por uma dose substancial de blá-blá-blá, deve ser lido como uma espécie de esfregão da consciência um bocadinho pesada da Gaffe que é indiferente, vergonhosamente indiferente, ao que os outros costumam ler, se está borrifando para os livros que se vendem ou se deixam de vender e que, no que diz respeito à leitura, segue o famigerado "cada um sabe de si e os editores sabem de todos".

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A Gaffe de Falciani

rabiscado pela Gaffe, em 17.02.15

Hervé Falciani.jpgFinalmente uma fuga em condições!

O ar deslavado, amarelecido e afrouxado dos heróis das várias leaks que nos vão encharcando, fica ainda mais mirrado e amortecido perante este belo rapagão latino com ar de vigarista malandro capaz de vender a lista de compras da avó ao governo que der mais com a atitude dos abnegados servidores da causa pública.  

As pingas do morenaço Hervé Falciani só gotejam nos nossos quintais porque não houve uma torneira que se abrisse e inundasse de notas o patiozinho do moço que, como todo o patife charmoso, consegue que até a chuva vá a leilão.

 

Que se beije o gondoleiro enquanto Veneza afunda. 

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A Gaffe de Mr. Grey

rabiscado pela Gaffe, em 16.02.15

J. Allen St. John.jpgNestas últimas semanas a Gaffe tem-se sentido regressada dos confins da Amazónia onde apenas conviveu com coisas rastejantes e pouco recomendáveis. Fica quase catatónica a ouvir discussões e debates inflamados acerca das peripécias dos reality shows, do milionésimo episódio de uma telenovela portuguesa e d’As Cinquenta Sombras de Grey.

Para recuperar a capacidade de se ver incluída nas conversas à volta da fogueira, a Gaffe decidiu ir ao cinema. É muito mais eficaz do que se ver transformada em troglodita por osmose, do que ter os nervos esfacelados por nunca mais matarem a personagem do Pedro Granger e por não estar disposta a perder mais do uma hora e picos a adquirir capacidade de estabelecer vias de comunicação com as multidões.

Os sacrifícios que uma rapariga faz em nome do diálogo e do convívio social são muito subvalorizados.

De óculos pretos, porque não é conveniente ser-se reconhecida sentada em cadeira ainda quente, trench-coat impermeável para evitar que salpicos de baba alheia lhe conspurquem a postura e de lenço Hermès a tapar-lhe o nariz para fintar o nauseabundo cheiro das pipocas, a Gaffe entra no átrio onde uma multidão de mulheres estrelejantes espera confirmar que o Mr.Grey da tela é similar ao que se lhes soltou das páginas. Curioso é perceber que o olhar masculino não adquire aqui o sarcasmo complacente, a paternal ironia ou a malandreca piscadela de que falou aqui. A união de tanta fogueirinha, pode anunciar um incêndio e a possibilidade de um homem se ver incenerado limita imenso o ambíguo sorriso masculino.

A Gaffe esteve atenta e concluiu que, nunca tendo encontrado Mr. Grey nas páginas do livro, o da tela era bastante satisfatório, mas perfeitamente inócuo.

Depois surpreendeu-se.

Considerar o uso de umas algemas de boa qualidade e muito design, giríssimas e luzidias, uns atilhos e umas vendas de seda e de cetim, umas sapataditas nas nádegas, uns encontrões mais arrojados contra as paredes ou uns gritinhos soltos enquanto nos esbardalham num sofá assinado por Philippe Starck, sessões de BDSM protagonizadas pelos problemas existências daquele homem e por uma moçoila que usa blusas floridas e saias de missionária no Camboja, é a mesma coisa que no pino do Verão nos espapaçarmos na sala, de biquini, baldinho de areia ao canto, CD de Rui Massena a pianar, cocktail com duas sombrinhas espetadas na rodela de limão, em frente a um poster do Hawaii que colamos na parede. Por muito que queiramos, não bronzeia.

A posição de missionário é bem mais aventureira do que a maior parte daquilo que se passa na tela, embora claro tudo dependa bastante da cruz que carregamos.

A Gaffe e o Divino Marquês saíram defraudados. Mr. Grey não é um sádico torturado pela consciência da dor que provoca. Quando muito, tem birras de rapazinho mimado. A rapariga não é o elemento passivo de um duo perverso. Não sofre sevícias sexuais. Leva tau-tau. Um tau-tau que não faz dó-dói. Não é mais do que a representação de todas as moçoilas que ambicionam ter na cama um homem que desperto pelo seu poder de sedução, tomba ainda que superficialmente no poço dos seus atributos de bichano mauzão.   

Mr. Grey é mauzinho, mas caseirinho. Não se comporta como manda a sapatilha – all star, no máximo Nike, porque mais não calça o filme – de um sádico nu e cru e a menina não é mais do que mais uma mulher que sente que os homens estão cada vez mais amorfos, indiferentes, apáticos, rotineiros, apagados e desinteressantes e que de repente encontra um mais desperto.

Nestas circunstâncias, qualquer encontrão contra a parede dá uma trilogia de sucesso.   

 

Ilustração - J. Allen St. John

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