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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe do sofosbuviri

rabiscado pela Gaffe, em 06.02.15

CH.gifA Gaffe tem observado com algum cuidado e muito ao longe, não vá arranjar problemas, os jovens das periferias, os habitantes das margens das redomas urbanas, os delinquentes que riscam as paredes, os meninos que trazem o cinto das calças nos joelhos, os que assustam imenso quando nos aparecem de surpresa saídos não se sabe bem de que buraco, os muito arrumadinhos que nas portas dos colégios caros arrastam bonés grifados e batidas que lhes fazem mirrar o cérebro e todos os que desatam a pegar fogo às coisinhas que nos dão um estatuto burguês que fica sempre bem ostentar e sobretudo conservar.

A Gaffe espanta-se com a forma destes rapazes se cumprimentarem.  

Encontram-se, levantam a mão, erguem um dedo, batem com os cotovelos um no outro, dão uma volta, voltam a erguer a mão agora fechada, batem com o punho no peito, regressam à mão aberta e tocam com a palma na palma do parceiro, cospem nas unhas e limpam aos boxers, estalam os dedos, agarram no polegar do interlocutor e torcem-no e antes de dar por findo o aparato já se esqueceram do que tinham para dizer. Roncam e despedem-se agora percorrendo o bailado inverso. Um autêntico ritual de acasalamento que supera e humilha a dança do carrapiço da Amazónia.

A Gaffe na sua imensa ignorância e preconceito acreditava que este comportamento era apanágio dos mais pobrezinhos - parafraseando Jonet -, até alargar os seus horizontes e dar de caras com alguns cerimoniais de gente de bem, bem colocada, gira e de sucesso.

O tempo que os altos dignitários de uma nação levam a largar a mão uns dos outros dá para tricotarmos um cachecol e jantarmos à luz da vela com um marginal atraente - sonho de uma noite de Verão desta rapariga esperta. As três ou quatro beijocas dos senhores que trazem vestido o guarda-roupa da Dulce Pontes é uma belíssima invasão de ternura no protocolo e na formalidade e existe mesmo quem deixe o palco mediático de mãos dadas numa bela evocação do amor grego.

A descoberta leva a concluir que ritualizar também é chique.

Compreende-se desta forma o meu queridíssimo Paulo Macedo. O menino tem toda a razão em declarar que devemos salvar vidas, mas não a qualquer preço. Não podemos parecer que nos esbardalhamos no Bolhão no meio de uma disputa que pouco se recomenda ou que nos enfiamos nas chinelas e desatamos a regatear uns trocos sem um pingo de diplomacia e de elegância, clamando urgência por haver gente a morrer - ainda por cima gente que se pôs a jeito.

Convém reunir, negociar, jantar ou almoçar, discutir muito civilizadamente o modo como se poderá, com desconto, adquirir – sublinha-se a distinção da palavra - algumas manigâncias minoritárias e não desabar em cima dos parceiros com a artilharia muito pouco cortês dos Direitos Humanos.

Depois é desagradável tornarmo-nos histriónicos quando a morte se aproxima! Perdemos toda a compostura ou transformamo-nos em alunos do Chapitô aos pinchos e de nariz vermelho.

Miguel Santos relembra a necessidade de se morrer com algum juízo. É que não vale tudo! É incómodo ter uma criatura a bradar que vai morrer se não lhe derem uma aspirina quando estamos ocupados em apresentar as condolências aos familiares dos que já se foram por não terem sabido esperar pelo fim das negociações.

Há que ter discernimento, valha-nos Deus!

 

A Gaffe compreende finalmente alguns dos protagonistas daquilo que observa e percebe que no imenso palco dos outros, viver ou morrer é apenas uma questão de preço.  

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