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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe doseada

rabiscado pela Gaffe, em 09.02.15

A Gaffe doseada.jpgUma rapariga esperta sabe que em qualquer situação, a elegância é sempre um dom a manter. Pode eventualmente ser herdado, mas sucumbirá se dele não cuidarmos. Não há nesta área aquilo a que se costuma chamar abébias, embora a Gaffe nunca tenha entendido muito bem o sentido desta expressão.

Basta por vezes que uma rapariga se lembre do chinelo que lhe serviu uma vez para enxotar uma barata numa esquina esconsa da vida, para que se esbardalhe toda uma cultivada sofisticação e apurada elegância, assim como basta que de chinelos calçados tentemos imitar uma prima ballerina numa situação em que bastaria ter cuidado com a coluna.

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A Gaffe dispersa

rabiscado pela Gaffe, em 09.02.15

Três.jpgVivi com o privilégio de ter tido ao lado dois homens extraordinários.

Crescemos praticamente juntos e as nossas infâncias foram partilhadas, cúmplices e inseparáveis. O Douro, Paris e novamente o Douro, permitiram-nos aproximações inimagináveis e deram-nos a possibilidade de repartir o que éramos pelos três, sem qualquer fronteira ou embaraço.

Ambos gigantes, ambos poderosíssimos, ambos sublimes.

Creio que sempre fui a mediadora entre as suas personalidades diametralmente opostas.

O moreno, de barba agressiva, de medonha inteligência, raiava a loucura dos génios e sofrendo de um grau embora atenuado de Asperger, tornava-se o mais perfeito dos enigmas. Culto, reservado, tímido, misantropo e eremita. Para este, eu era a Naná, a rapariga ruiva que urgia proteger dos lobos deste mundo.

O outro, com genes holandeses, loiro e belíssimo, era uma explosão de fascínio. Acusavam-no ser um decepado emocional tal era a irresponsabilidade sedutora que detinha. Tocava o perigo tudo o que vivia e deixava de haver fronteiras nos territórios que invadia sem qualquer pudor. Dominador, inflexível, prepotente e de crueldade quase animalesca. Para este, eu era minúscula e, como todos os que o habitavam, não merecia ser salva.

Falo deles no passado, porque é no passado que decorre este pequeno episódio.

 

Foi o segundo que nos propôs um desafio estranho.

Não fazia sentido a nossa existência individual. Tornava-se necessário ver surgir a fusão do que éramos separados.

O modo mais fácil era digital. Numa das primeiras declarações, era explicado o sentido que, pensávamos, fazia esta experiência imatura e leviana.     

Fomos neste desafio liderados pelo impulsionar deste erro.

Da minha responsabilidade seria o discurso mais intimista, mais pessoal, mais brando e mais subjectivo.

Da responsabilidade do meu querido gigante tímido e moreno, os textos de índole mais científica, mais cuidados, mais depurados e mais objectivos.

A explosão do que restava ficaria a cargo do mentor e era uma explosão de corpo e de alma.

Uma das condições era a de enviarmos os textos por mail. Não partilhávamos a administração do local onde apareciam. O censor manipulava-os de acordo com o que sentia ser necessário para uma uniformização da linguagem.

Participei com alguns. Ainda os guardo e faço-os de quando em vez surgir aqui, envergonhando-me com a sua mirrada prosa poética, como uma espécie de evocação de um tempo de irresponsabilidades partilhadas. Foram pouco mais que uma dezena, apesar de tudo respeitada, entre os mais de três mil que apareceram e o creio que o meu companheiro de infortúnio não aguentou um número superior a dois ou três que exigiu retirados logo que se apercebeu das alterações a que foram sujeitos.

Foi este esmagar de individualidades que nos fez separar. Mesmo geograficamente escolhemos ficar longe. É estranho como um ensaio digital de jovens imaturos pode danificar uma cumplicidade real. Talvez nos tenhamos desligado também porque algures dentro daquele erro nos sobreveio a consciência de que nenhuma modificação é permitida àquilo que somos mesmo que o sejamos de forma digital e que, por muito que o desejemos, não somos o somatório de pedaços arrancados a gente que nos quer bem.

Somos únicos e portanto irremediavelmente sós.

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