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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Mr. Grey

rabiscado pela Gaffe, em 16.02.15

J. Allen St. John.jpgNestas últimas semanas a Gaffe tem-se sentido regressada dos confins da Amazónia onde apenas conviveu com coisas rastejantes e pouco recomendáveis. Fica quase catatónica a ouvir discussões e debates inflamados acerca das peripécias dos reality shows, do milionésimo episódio de uma telenovela portuguesa e d’As Cinquenta Sombras de Grey.

Para recuperar a capacidade de se ver incluída nas conversas à volta da fogueira, a Gaffe decidiu ir ao cinema. É muito mais eficaz do que se ver transformada em troglodita por osmose, do que ter os nervos esfacelados por nunca mais matarem a personagem do Pedro Granger e por não estar disposta a perder mais do uma hora e picos a adquirir capacidade de estabelecer vias de comunicação com as multidões.

Os sacrifícios que uma rapariga faz em nome do diálogo e do convívio social são muito subvalorizados.

De óculos pretos, porque não é conveniente ser-se reconhecida sentada em cadeira ainda quente, trench-coat impermeável para evitar que salpicos de baba alheia lhe conspurquem a postura e de lenço Hermès a tapar-lhe o nariz para fintar o nauseabundo cheiro das pipocas, a Gaffe entra no átrio onde uma multidão de mulheres estrelejantes espera confirmar que o Mr.Grey da tela é similar ao que se lhes soltou das páginas. Curioso é perceber que o olhar masculino não adquire aqui o sarcasmo complacente, a paternal ironia ou a malandreca piscadela de que falou aqui. A união de tanta fogueirinha, pode anunciar um incêndio e a possibilidade de um homem se ver incenerado limita imenso o ambíguo sorriso masculino.

A Gaffe esteve atenta e concluiu que, nunca tendo encontrado Mr. Grey nas páginas do livro, o da tela era bastante satisfatório, mas perfeitamente inócuo.

Depois surpreendeu-se.

Considerar o uso de umas algemas de boa qualidade e muito design, giríssimas e luzidias, uns atilhos e umas vendas de seda e de cetim, umas sapataditas nas nádegas, uns encontrões mais arrojados contra as paredes ou uns gritinhos soltos enquanto nos esbardalham num sofá assinado por Philippe Starck, sessões de BDSM protagonizadas pelos problemas existências daquele homem e por uma moçoila que usa blusas floridas e saias de missionária no Camboja, é a mesma coisa que no pino do Verão nos espapaçarmos na sala, de biquini, baldinho de areia ao canto, CD de Rui Massena a pianar, cocktail com duas sombrinhas espetadas na rodela de limão, em frente a um poster do Hawaii que colamos na parede. Por muito que queiramos, não bronzeia.

A posição de missionário é bem mais aventureira do que a maior parte daquilo que se passa na tela, embora claro tudo dependa bastante da cruz que carregamos.

A Gaffe e o Divino Marquês saíram defraudados. Mr. Grey não é um sádico torturado pela consciência da dor que provoca. Quando muito, tem birras de rapazinho mimado. A rapariga não é o elemento passivo de um duo perverso. Não sofre sevícias sexuais. Leva tau-tau. Um tau-tau que não faz dó-dói. Não é mais do que a representação de todas as moçoilas que ambicionam ter na cama um homem que desperto pelo seu poder de sedução, tomba ainda que superficialmente no poço dos seus atributos de bichano mauzão.   

Mr. Grey é mauzinho, mas caseirinho. Não se comporta como manda a sapatilha – all star, no máximo Nike, porque mais não calça o filme – de um sádico nu e cru e a menina não é mais do que mais uma mulher que sente que os homens estão cada vez mais amorfos, indiferentes, apáticos, rotineiros, apagados e desinteressantes e que de repente encontra um mais desperto.

Nestas circunstâncias, qualquer encontrão contra a parede dá uma trilogia de sucesso.   

 

Ilustração - J. Allen St. John

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