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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de vela

rabiscado pela Gaffe, em 09.03.15

vela.jpgÉ evidente que a Gaffe não é apologista de sapatos de vela. Normalmente trazem acoplados um rapazinho com dentes branqueados, muito preppy, e com um discurso repleto de amendoins, falando como se os tivesse na boca ou um cinquentão de cabelo ao vento, calças vermelhas e camisa ao xadrez miudinho de preferência em tons de azul, encaixado num descapotável que esvoaça em redor das colegiais. Ambos nos prometem aventuras, mas nenhum deles consegue mais do que uma descarga ligeira de adrenalina ao reconhecer Isabel Alçada no elevador.

 

Os sapatos de vela são, apesar de aparentemente confortáveis, um Verão sem ilusões ou uma desilusão que não bronzeia.

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A Gaffe campestre

rabiscado pela Gaffe, em 09.03.15

campestre.jpgOs senhores Presidentes das Câmaras da região do Alto Minho devem com urgência dedicar uma lasca substancial de atenção às suas estradas.

Bem sei que viajar num Mercedes 300D, classe W123, seja lá o que isso for, é como ser transportada às costas de um canguru, mas ter dificuldade em largar o cinto de segurança, porque o apertamos em demasia com receio de fracturar o crânio nos embates contra o tejadilho e dois minutos depois de ter chegado ainda sentirmos as maminhas aos saltos, não se deve apenas à suspensão miserável do trambolho vintage.

 

A casa é belíssima! Em restauro acelerado, o piso térreo, onde no passado eram os aposentos das vacas, foi aberto e transformado num gigantesco open-space onde coexistem sala de jantar, sala de estar, escritório e biblioteca – maioritariamente anglo-saxónica, para meu desgosto -, sem que nenhum destes espaços sem fronteiras nítidas colida com a harmonia e equilíbrio do seguinte.

O andar de cima, com uma maravilhosa varanda a todo o comprimento, é destinado aos quartos e, de novo, a uma pequena biblioteca onde é notória a vocação do proprietário – Agronomia.

Cheira a madeira por todo o lado. Um aroma quente misturado com o perfume do verde.

A primeira impressão foi de receio. Havia galinhas soltas. Nunca sei quando estas criaturas desatam a correr para nos ferrar. Senti-me mais segura no interior da casa, embora tenha tinha a sensação de ter visto, a um canto mais sombrio, o Mário Soares vestido de senhora idosa. Fui apresentada àquela que, não fosse o bigode, poderia perfeitamente ir visitar Évora e desatar aos gritos que a TVI não perceberia o engano. Todos os dias trata da casa e das refeições do meu anfitrião. Não vai demorar, que é Domingo e tem a família à espera. Demos graças.

 

O homem guiou-me até ao meu quarto, porque o meu quarto não seria o dele.

Felizmente a surpresa que tive de engolir foi tamanha que esmagou a galdéria que há dentro de mim sempre aos pinotes.

 

Almoçamos sobre uma mesa de madeira envelhecida. Rojões à moda do Minho e vinho maduro alentejano – o único que me agrada. Não é o meu prato favorito, porque existe a farinheira. Aproximar-me de uma farinheira é como sentir a crueldade fisiológica de todos os perfumistas do universo, mas Lena Horne ambientou o momento.

 

A tarde foi destinada às vacas e a dois bois do tamanho da Cordilheira dos Andes. Insisti em acompanhar o homem nos seus afazeres bucólicos. Calcei as galochas que me ofereceu ao mesmo tempo que calçava a perplexidade. Intrigante o facto deste matulão ter umas galochinhas pequeninas de reserva, mesmo ali ao lado dos brutamontes que usa nos pés!   

Enfiar-me na lama e demais resíduos não é propriamente o sonho de Paris, mas como diria a população sofre Rita se queres se bonita. Esta Rita sofreu imenso e ao fim do dia estava esbardalhada de cansaço e a rogar por uma cama. Não necessariamente a dele, o que é a prova cabal da minha exaustão.

 

Do alto das escadas espreitei aquele gigante magnífico, sentado à secretária, misturado com papéis, debruçado sobre o abismo dos números e entendi de imediato porque é que as horas que passei com ele tinham o perfume das especiarias.

 

Hoje de manhãzinha havia compotas sobre a mesa. Queijo e leite frescos, manteiga, um ramo de alecrim, açúcar, doce de laranja e pão que ele tinha acabado de fazer.  

 

Hoje, beijei-o.

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Gavetas:


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