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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe felliniana

rabiscado pela Gaffe, em 17.03.15

René Maltête.jpgO senhor Zeferino é motorista.

Alto e muito magro, a cheirar a cinza e a tabaco, com dentes que parecem cancelas torcidas, olhos pequeninos, negros de azeviche e pele curtida e seca, dura e engelhada como a casca de uma árvore.

O senhor Zeferino transporta gente que vem de Resende em serviço e volta ainda mais bêbado do que chegou.

Ninguém quer ser o passageiro. Brincam com o senhor Zeferino que ao pombo e ao borracho põe Deus a mão por baixo.  

Talvez seja certo que sim. O senhor Zeferino nunca sofreu ou fez sofrer um acidente e à zombaria responde:

- Querendes música? Indes-a tê-la!

Ou numa variante mais altruísta:

- Querendes música? Eu dou-vos-ia!  

 

À nossa volta, sem que demos conta, rodam personagens genuinamente fellinianas e tantas vezes percorremos sem saber La Strada à espera somente de poder dizer E La Nave Va que acabamos por perder de vista quem connosco caminha.

Talvez não fosse má ideia parar de vez em quando a ouvir a música do senhor Zeferino.  

 

Foto - René Maltête

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A Gaffe relembra

rabiscado pela Gaffe, em 17.03.15

Não esqueçam!

Hoje, pelas 00.30h, na RTP2, Gabriela Moita no seu Elogio da Paixão conversa com o meu queridíssimo Miguel, o único homem capaz de controlar e domar o incêndio de caracóis que trago na cabeça. Ao lado estará Nuno Baltazar que, apesar de tudo, não deixa de ser um bom menino.

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Gavetas:

A Gaffe enfurecida

rabiscado pela Gaffe, em 17.03.15

LD.jpgFomos visitar – de notar o significativo plural – o casal vizinho que procurou ser simpático e nada coscuvilheiro calcorreando caminhos e valas só para nos oferecer um bolo de laranja acabadinho de fazer na manhã de Domingo.

Dois avançados cinquentões que passam temporadas infindas na casa que recuperaram e onde os cães, dois Teckel e um Jack Russell Terrier, podem brincar em liberdade.

O senhor, com uma gentileza que me pareceu de plástico ou colada com saliva, tem um ar de hippie rançoso, de ténis cambados e meias de lã, jeans demasiado largos e  sweatshirt de malha polar com um slogan desbotado. A senhora, demasiado reservada para que a reserva possa ser confundida com uma curiosidade silenciosa pelo alheio, usa saia e casaco puritanos, muito Thatcher, tudo muito certinho.

Ele é médico, ela advogada. Ambos de uma amabilidade e simpatia extremas.

Os cães foram há muito conquistados pelo rapagão. Apaixonaram-se perdidamente e trocaram com um à vontade de causar espanto as correrias tontas pelo ninho dos seus braços. Eu fui bem acolhida, talvez porque já conhecessem o visitante e percebessem que se uma ruiva despenteada, desorientada e deslocada, chega debaixo do braço do amigo é porque é digna de confiança.

Foi constrangedor o modo antipático como o matulão se portou. Carrancudo e monossilábico, preocupou-se apenas em mimar os cães dando-lhes uma atenção quase absoluta. Desagradável e incómodo tendo em conta que éramos visitas.

Tentei amenizar as quase duas horas de embaraço. 

No carro - no tão injustiçado Mercedes 300D, Classe W123, cuja suspensão, informam-me, é afinal de primeira água e eu princesa-ervilha – assumi o papel de amuada que protagonizo lindamente.

- Não prestam. São dois sacanas.

Não entendi. Tínhamos passado uma parte substancial da tarde com duas pessoas que são consideradas imprestáveis pelo homem que forçou esta visita!

- Interessam-me os cães.

Recuso-me a acreditar.

Fiquei em silêncio a matutar nos horários dos comboios que me levariam para longe dali ou se a porcaria do telemóvel tinha rede no meio de todo aquele verde para poder chamar um táxi.

 

Após longuíssimos minutos chega a explicação.

As duas criaturas compram os cachorros e enquanto são jovens e saudáveis exibem-nos. Logo que mostram sinais de envelhecimento ou doença entregam-nos ao primeiro que passe pelos seus portões. Oferecem os cães. Às vezes impingem-nos. Como são animais lindíssimos e de raça badalada, não é difícil encontrar quem os queria. Nunca é a pessoa certa, porque não existe gente certa para esta barbaridade. Por vezes são separados, porque nem todos são da mesma idade. Depois compram outros. É assim há mais de uma década. O rapagão com estas visitas procura apenas que os cães se habituem, que se afeiçoem a ele e que o reconheçam como amigo, porque quer ficar com eles quando chegar a altura do abandono.

 

De repente, apeteceu-me ver o matulão voltar para trás para esbardalhar com um soco a ignomínia daquelas criaturas.

Há modos tão limpinhos de se ser inumano!  

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