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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a tempo

rabiscado pela Gaffe, em 18.03.15

Michael Fassbender by Henry Leutwyler.jpgA Gaffe acaba de se recordar que hoje é dia de animatógrafo. Estas andanças minhotas provocam alguma desatenção.

Escolhe um mocetão amadurecido que pode não obedecer ao protótipo de beleza masculina em vigor, mas que usa e abusa do encanto que tem vindo a adquirir.

À medida que a idade avança, os poros outrora imperceptíveis, abrem-se em crateras. É por estas que a inteligência começa a deslizar, iniciando o seu percurso mais visível. Então, chamam-lhe charme.  

Um homem estúpido jamais será charmoso.    

 

Na foto - Michael Fassbender por Henry Leutwyler

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A Gaffe preocupada

rabiscado pela Gaffe, em 18.03.15

O rapagão tem 38 anos.

Não é suficiente para despertar a gerontofobia vigente, mas permite os alfinetes da praxe que trazem na ponta enferrujada o sacramental conceito do quarentão mulherengo e sacaninha, incapaz de manter uma relação emocional e o aviso que pica de perigo iminente.

 

No entanto, se tivesse de atribuir um determinado papel a este homem, escolheria Heathcliff, sem os demónios e os traumas que Brontë lhe entregou e Heathcliff pode ser sombrio e solitário, mas não é de todo um mulherengo sacana.

O homem dos vendavais é uma das figuras que mais me fascina em toda a Literatura e se o aproximo do rapagão é porque a imagem, sobretudo física, que desta figura criei se lhe reflecte no corpo.

 

O rapagão é grande. É um homem muito grande. As mãos conseguem esconder-me por completo a cara. Fico com o rosto coberto por noites e quando me encosto ao peito dele sinto que desapareço, porque o espaço é grande como o Yorkshire. Não é hirsuto, mas está muito longe de ser um boneco de plástico e tem desenhada uma espinha negra e dócil de pêlos nos músculos da barriga que podem ser contados.

É desleixado. Usa calças de pijama de flanela às riscas apertadas na cinta por um cordel de algodão. Ficam-lhe curtas e os tornozelos nus parecem aumentar ainda mais os pés que são tão grandes. Dorme de t-shirt e quando acorda, às seis da manhã todos os dias, cheira a madeira e a pão quente. Traz vestido este cheiro o dia todo.

Não fala muito. Trabalha imenso e não sei, pobre de mim, o que faz ele por muito que queira conhecer o que ele faz. Chega esgotado e sujo. Enrola no dedo um caracol do meu cabelo e não diz nada. Sorri, como se eu fosse um pássaro que veio sem saber de encontro às suas grades. Faz-me sentir idiota nesta altura. Abraça-me depois. Depois cozinha. Comemos batatas com bacalhau, couves e cenouras cozidas, encharcadas em azeite e temperadas com alho e vinagre caseiro. Gosta muito. Come maças à sobremesa e faz estalar a casca com os dentes.

Faz contas e escrevinha nos papéis sentado a uma secretária de madeira velha e, já noite feia, deita a cabeça no meu colo e adormece.

Chama-me chamazinha e o meu nome é esse.

 

Às vezes sento-me perto da janela quando estou sozinha e tenho muito medo de só estar ali à espera que ele chegue.

Depois pego na Vogue e entretenho-me.

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