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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem beleza interior

rabiscado pela Gaffe, em 23.03.15

beleza interior.jpgO desgraçado conceito de beleza interior devia ser banido ou exorcizado, condenado como insulto castrador, exilado como um pesadelo.  

Uma rapariga sai do cabeleireiro com a Primavera no cabelo, vestida de milagres Comme des Garçons, de bâton sedoso e olhos de oceano, de carteira pequenina à tiracolo e Louboutin nos pés, a sentir-se fabulosa e dona de um mealheiro que já permite a compra da chaise-longue com nome de pessoa que ficará tão bem voltada para varanda para ouvir o mar enquanto lê e esbardalha-se contra o penedo da beleza interior é a que importa. Apenas o que é belo sem se o vermos é perene. 

Normalmente sai da boca de uma abantesma rechonchuda e pequenina, anafadinha e entradota ou de um espectro de bigodinho fino, sobrancelhas pintadas de preto e fatinho cinza direitinho que erguem à nossa frente as sombras da derrocada física, mostrando-nos o descalabro que nos espera, o encarquilhar, o desabar, a queda abismal no poço da velhice senil e a morte inevitável que nos transforma em pó, em cinza, em nada. Se não resulta e continuamos a sorrir, cravam-nos na pele do dia claro as trevas do 11 de Setembro que há em cada dia, dos pobrezinhos, dos esfomeados, das vítimas dos tsunamis terroristas, dos miseráveis, dos espoliados, dos exilados e da carriça da Nova Zelândia em perigo de extinção. Terminam afirmando que a única beleza que perdura é a interior.

Não podemos ser felizes, mesmo sabendo que a felicidade dura o tempo da faísca. É criminosa a beleza que se vê. Ai de nós, miseráveis bichinhos temporários, se ousamos ter dinheiro para comprar uma cadeira mais cara e somos altas e magras e elegantes e desejadas e amadas e felizes e nos esquecemos de quando em vez da Faixa de Gaza.

A verdade é que a tão aureolada beleza interior, ainda mais subjectiva do que a outra porque é a alma que ousamos perscrutar, é um berbicacho idiota. Podemos não encontrar a Madre Teresa no interior de Gisele Bündchen, mas se virarmos a Madre de Calcutá do avesso (Deus nos poupe) encontraremos coisa pouco digna de ser fotografada, tendo em conta que a senhora velhinha era uma cabra tirânica e sádica para as subordinadas.

A insistência com que nos atiram o ácido da efemeridade de se ser feliz, da fugacidade da beleza e da maléfica conta bancária à nossa pele bem tratada, elevando aos píncaros do sublime o desprendimento e a desapropriação dos anacoretas, a consciência da morte desgraçada e podre, a beleza interior dos feios e dos pobrezinhos, é uma ode à infelicidade. Uma mentira pindérica que vai ganhando contornos castradores à força de nos tentar convencer que somos abjectos apenas porque não somos feios e que disso temos consciência e que, também por isso, o horror ocorre porque encarnamos os mais condenáveis dos pecados ao não sofremos atrocidades dedicando-nos a tempo inteiro à tragédia humana.

 

Chicoteiem a Gaffe! Usem a chibata das santas e dos mártires com toda a força! Esta rapariga ousa ser feliz sem pensar nos abismos das desgraças, atreve-se a ser bonita, jovem e cuidada sem ser perseguida pelo espectro da morte inevitável e quando lhe falam de beleza interior pensa sempre num decorador maricas.           

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