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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe traída

rabiscado pela Gaffe, em 13.04.15

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Haverá vida depois de uma traição?

A questão não é trivial, básica ou mesmo inconclusiva. Atinge uma enorme quantidade de gente que se vê de súbito sem chão e sem tecto, suspensa da surpresa de se sentir o outro ou a outra quando sempre acreditou que era a origem e o fim de todas as emoções que povoavam o coração que agora se descobre ser infiel.

Não é fácil lidarmos com o facto de percebermos que a metamorfose que se opera em nós é o inverso da das borboletas. De um fabuloso insecto alado e colorido, embainhamos a alma e passamos ao estado de casulo. Mas não é impossível enfrentarmos o facto de, nesse casulo, a membrana que nos separa do exterior correr risco de ruptura, perfurada pelos aguçados chifres mafarricos que ostentamos na testa metafórica.

 

É evidente que a Gaffe já foi traída. Na altura, ficou afásica e posteriormente catatónica. Recolheu-se na cela da sua mais profunda desilusão e decidiu que jamais voltaria a acreditar em quem quer que fosse, sobretudo se o quem quer que fosse tivesse barba e outros atributos mais esconsos, dignos de fazer perder a transmontana a uma rapariga mais incauta.

Neste estado, acabou por evitar a todo o custo aproximações mais ou menos subtis de promessas interessantes e credíveis.

Voltar a acreditar é como beber um café que ficou frio. Jamais terá o sabor do Expresso acabado de servir, mesmo que esse Expresso seja o da meia-noite. Ficamos sempre com a sensação de que nele foi cometido um crime e que o cadáver se transformou em borra no fundo da chávena.     

 

Sair deste estado de letargia emocional leva algum tempo, mas há sintomas de progressos que não devemos ignorar e que não passam pelas tradicionais fases descritas nos manuais da especialidade.

A Gaffe detectou que começar a observar com algum gelo o exterior da rival é um belíssimo sintoma. Se o interior da dita fosse objecto da sua atenção, significaria que a procissão ainda estaria no adro e o sacristão sem badalo.

A capacidade de olharmos os detalhes e os pormenores mais imbecis de quem foi causa directa da nossa perda é caminho feito para a consumação do fim da mágoa de nos sentirmos traídas. Se Deus está nos pormenores, a indiferença também. Talvez por isso tenhamos a sensação que as duas entidades muitas vezes se confundem.  

A Gaffe se vê passar a rapariga por quem foi trocada, não entra em coma, não vai desenfreada lacrimejar para uma esquina da vida, nem sequer lhe salta à memória os momentos de enlevo romântico que o traidor lhe entregou um dia.

A Gaffe olha para a carteira da ladra e pensa que preferia usar um saco de colostomia e descobre de imediato que é apenas no amor que é permitido roubar.

 

A fidelidade da maioria de nós tem raiz no medo. Somos muitas vezes fiéis por cobardia. 

 

A Gaffe foi traída num passado longínquo, gelado entretanto.

Agora sorri, traída há muito tempo, e faz esvoaçar caracóis ruivos.  

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A Gaffe beijada

rabiscado pela Gaffe, em 13.04.15

George Brassaï.jpgComeça o corpo pelo beijo.

O livro abre-se pela boca e é na boca do livro que se recolhe o mover subterrâneo da frase, o movimento tectónico das placas das palavras.

É na boca que o peixe encontra, pequena, a morte e na língua solta o debater inútil da asfixia.

É no beijo que começas o desbravar do corpo, quando os teus lábios roçam as estrias de outros lábios. É no entreabrir da boca, no defrontar da língua que procura a língua, na saliva misturada com incêndios, que decifras o outro corpo, adicionando as chispas e as fracções e os indícios que claramente lês, que intuitivamente, instintivamente, és.

Há, apesar do instinto, uma racionalidade gelada dentro de um beijo. Uma espera de equações por dissolver. Matemática de carne, formulários de línguas e salivas, expressões com números de circo.

E é apenas no corpo que as resolves.

 

Foto - George Brassaï

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A Gaffe multitask

rabiscado pela Gaffe, em 13.04.15

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Se a Gaffe procura uma forma de provar que os homens são muitíssimo mais limitados nas tarefas que surgem para executar em simultâneo, encontra-a nas diferenças no modo como os rapazes e as raparigas atendem o telefone.

O fixo que os outros nunca estão no mesmo sítio e a Gaffe fica um bocadinho tonta de tanto circular.  

Se esta rapariga observar com alguma atenção um cavalheiro encafuado no aparelho referido, verifica que não há muito para analisar. O homem vai soando intermitente:

- Hum, hum…, sim…, mas…, ok…

Cortando palavras como se de súbito lhe desligassem o som:

- Est..., poi…, cert…, merd…

Fica exclusivamente focado na conversa, enquanto vai desenhando quadrinhos e rodinhas no bloco de apontamentos, preenchendo depois os espacinhos onde se interceptam ou batendo com a esferográfica no tampo da mesa, arrumando uns papelitos desordenados tendo o cuidado de não os ler ou ainda mirando o rabiosque da secretária que entretanto passa bem calçada, formosa e razoavelmente segura.

É evidente que se nos pergunta com a voz de Darth Vader de que cor é a nossa lingerie está ocupado com outra coisa, mas mesmo essa está muito circunscrita.

O que faz para além de tentar manter ou despachar o interlocutor tem de ser muito básico, primário e possível de mecanizar a curto prazo.

Os homens não conseguem executar em simultâneo múltiplas tarefas.

 

Uma rapariga esperta, nas mesmas circunstâncias, consegue dar banho ao cão, ler Guerra e Paz - dá tempo quando do outro lado da linha está uma amiga -, fazer alongamentos, testar a apresentação do seu doutoramento, redecorar a casa - sem a ajuda dos queridos, porque não é pobre -, ter um cachopo agarrado às maminhas - a Gaffe recomenda vivamente, sobretudo quando o cachopo tem mais de dezoito anos e é lindo de morrer -, encomendar o jantar depois de seleccionar o serviço que o serve, retocar a maquilhagem Shiseido sem esbardalhar o eyeliner e negar um pedido de casamento do homem que só terá consciência de ter sido recusado depois de terminar a sua chamadinha.

 

A Gaffe acredita que é esta a razão do bloquinho de apontamento que o seu rapagão leva para a cama.           

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