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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe pitosga

rabiscado pela Gaffe, em 24.04.15

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A Vida arranja sempre modo de fazer estalar a mais perfeita das ilusões ou a mais suave das magias.

 

Fui com o rapaz ao oftalmologista.

Acabamos por descobrir que o olhar meigo, escuro, triste e longo como as cisternas da noite; o olhar que nos viola as fronteiras da alma e invade o espaço em que nos movemos para se perder num lugar distante de que somos discretamente expulsos, é, prosaicamente, falta de óculos!
O rapagão não vê um palmo à frente do seu garboso e correctíssimo nariz há já muito tempo.
Como seria de esperar, o homem recusou o diagnóstico.


Acabo a pensar que me cruzo constantemente com gente que, de alma cega, está absolutamente convencida que o negro que vê, ou que não vê, é o único e o derradeiro sopro de vida que percorre o peito da paisagem.
Será que se recusarmos diagnósticos certeiros, se teimosamente insistirmos em não vislumbrar, não reconhecer e não aceitar a cura, acabamos fechados em becos ou mansardas, palácios ou nadas, navios ou plumas, casas ou castelos, dunas ou rochedos mas sempre aos encontrões à vida, a pensar que é a vida que sempre nos empurra e recusa, magoando? 


Se a resposta for afirmativa, espero que o rapagão não fique cego.

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Gavetas:

A Gaffe de Sexta à noite

rabiscado pela Gaffe, em 24.04.15

Ernest Chiriaka.jpgLet’s go somewhere and judge people!  

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A Gaffe idiomática

rabiscado pela Gaffe, em 24.04.15

Ernest Chiriaka.pngHá uma expressão francesa que me agrada imenso.

 

Entre le chien et le loup

 

É crepuscular. Define o período de tempo em que a tarde declina, resistindo ao avanço da noite. Dura alguns minutos e mantém os gatos coloridos e pardos os meus olhos.

Se esmagarmos o tempo de duração deste momento, o contido na expressão é ajustado a nós, aquando das caçadas.

Há um espaço ínfimo, uns segundos imprescindíveis, um bater de garra recolhida, no instante em que uma mulher, perante um homem, percebe que tem de desferir o golpe ou então deixar que ele lhe morda a jugular.

É indispensável que a vítima não tenha a mínima noção do decurso do instante. É necessário que não entenda que a nossa ternura, o canino enternecimento, a mansidão, a brandura, o benigno olhar em suavidade emersa, é já lampejo cru de sanguinária fera.

 

Não há nada melhor e de eficácia mais certa do que armadilhar a tarde que vai perdendo as sombras.

 

Ilustração - Ernest Chiriaka

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