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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe responde-lhe

rabiscado pela Gaffe, em 31.05.15

- Uma pessoa especial?
A que sou, dentro dos teus olhos.


- Um objecto?
O teu anel nos meus dedos.

 

- Uma ou mais marcas?
As que deixas no meu ombro.


- Uma viagem?
Em redor do teu corpo, com archotes.


- Um Animal?
Eu, depois de ti.


- Um Livro?
O que escrevo nos teus olhos.


- Um local especial?
O teu silêncio.


- Uma heroína?
Aquela em que me torno quando tu sorris.

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A Gaffe solene

rabiscado pela Gaffe, em 30.05.15

Daffy duck.pngDurante imenso tempo mantive-me em silêncio. Considerei que tudo não passava de um cartoon onde por motivos obscuros tinha sido incluída.

Era referida amiúde e sem qualquer pudor nos escritos de alguém que assumia que tudo o que aqui se rabiscava tinha um único objectivo que se consubstanciava na tentativa de destruir e esbardalhar a reputação da suposta vítima.

Como não tenho página de facebook, a alegada perseguição tinha o seu palco nestas avenidas. As minhas opiniões mais críticas, os meus rabiscos menos simpáticos, embora jamais aludissem a quem quer que seja em particular, não passavam de ataques descarados, de indignas manchas provocadas na pacífica e inocente escriba espezinhada por esta rapariga que supostamente passou a dedicar toda a sua atenção e apontamentos a uma criatura que jamais lhe despertaria qualquer emoção.

Nunca dei importância.

É evidente que existem posts burka. Enfiam-se até aos tornozelos de quem os lê. Uma das suas características, uma das suas especificidades, é exactamente a de não se reportarem a uma criatura em particular, mas a todas aquelas que percebem que estão debaixo do pano. Tendo consciência desse facto, não podia nem devia reagir.

 

Acontece que, ultrapassando todos os limites da decência, do bom gosto e do bom senso, a suposta vítima acaba de me referir como besta esfaimada a quem é preciso colocar uma trela e um açaime a fim de deixar de ladrar.

 

Devo dizer que não me ofenderam os impropérios. São-me, como habitual, indiferentes. Lamento, embora vagamente, que me sejam dirigidos por quem se sentiu tão insultada por mim.

 

Considero no entanto elegante da minha parte informar solenemente que nada do que se aqui se lê tem como alvo uma criatura específica. Nada, rigorosamente nada, foi aqui escrito para transtornar a paz e o sossego a quem quer que seja ou provocar inibições e bloqueios de escrita a potenciais Nobel. É uma presunção desmedida alguém pensar e sentir que é alvo daquilo que humildemente vou riscando.

 

Esta é a derradeira vez que aludo a um assunto que não mereceria mais do que um miserável apontamento em rodapé.

 

Sublinho finalmente que o meu querido Daffy Duck não está de todo a tentar insultar alguém em particular. É só um pato com tendência a generalizar.

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A Gaffe no trânsito

rabiscado pela Gaffe, em 30.05.15

police.jpgQuando a minha irmã telefonou, com voz esganiçada, não entendi de imediato aquilo que se passava e, quando o fiz, espantou-me o seu pedido de socorro.

Não sou decididamente nada boa a socorrer quem quer que seja e no meio dos problemas alheios fico perdida como um sapo no meio da estrada.

 

Com a ganância enfurecida, a minha irmã ao lutar por um lugar de estacionamento perto do idolatrado cabeleireiro, tinha raspado o carro no pequenino brinquedo conduzido por uma matulona que não se conformava com o risco digno da arquitecta, nem era seduzida pelo glamour da infractora que simulava arrependimento e desprotegida inocência.
Fui ver!
A minha irmã embaraçada, dava início à impaciência e à inevitável maçada que seria perder a tão marcada, tão apetecida, tão namorada, tão suspirada hora no seu cabeleireiro mais amado. 
A senhora, de arreganhados dentes, tinha chamado a Óturidade e a Óturidade justificava todos os fetiches pelas fardas desgarradas e soltas neste vale de lágrimas.


De camisa azul que é quase céu, o boné com a pala rígida, pistola, cinturão, botas de cano, galões, divisas, cassetete duro e calças a alargar nas coxas e a arredondar o rabo, a afagá-lo, a desenhá-lo, a formatá-lo, a prometer prisões onde é bom morrer ou suspirar fechada.

Escanhoado a lâmina assassina, o maxilar quadrado e cinza de tão dura a barba. A boca desenhada com o lábio superior ligeiramente erguido e um sulco nasal onde é bom tombar e escorregar. Nariz direito, nervosas narinas e olhar castanho com pestanas negras e compridas.
Olhou para mim que a sorrir pateta não descolava os olhos do fardado. Sorriu também - os dentes tão perfeitos! - e com voz rouca anunciou:


- E eis que chega o sol poente disfarçado de mulher. 

 

Olhei para os lados e olhei para trás. Não vi ninguém chegar e percebi, já lenta e apatetada pelo assombro, que se referia a mim o colossal exemplar de Óturidade.

De escaramuça resolvida, decido mártir assumir todas as culpas, esbardalhando-me patética perante a Óturidade, pronta a rasgar as vestes, a obedecer, a perder a dignidade, a desmaiar deitada sobre nuvens. 


Nenhuma rapariga resiste a um belo piropo bem fardado.

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A Gaffe de facto

rabiscado pela Gaffe, em 29.05.15

fato.jpgEnquanto que o calor que se faz sentir favorece as raparigas espertas que sabem tirar partido dos tecidos que esvoaçam e se transformam em pequenas ninfas suadas a saltitar de perfume em perfume, é altamente lesivo para os homens que estão obrigados pelas convenções a usar um fato.


Um fato, mesmo um de linho charmoso e ligeiramente amarrotado, no meio do calor é um teste implacável à capacidade criativa de quem o usa, porque implica sempre uma adaptação, uma reformulação, do conceito de clássico e até mesmo do discreto, que nem todos os homens são capazes de operar.


Uma rapariga esperta jamais colocará no rol dos elegíveis um homem que se empacota e se asfixia num fato que o faz resfolegar e se aproxima da apoplexia com uma gravata que, por muito Armani que seja, não o faz parecer o cartaz da colecção de Verão do criador.


Há que desmanchar, desestruturar e reformular.
São sempre excitantes os homens que usam fatos e T-shirts de cores indefinidas de tão caras, e que nos mimam com um convite para jantar num restaurante que nos comeria numa noite, se fossemos nós a pagar a conta, a verba destinada a dias difíceis - a esses também, porque uma rapariga atravessa essas ocasiões deprimentes com visitas programadas a todas as lojas do centro de Paris -, com sandálias de couro fino - assinadas ou não, que isto de ultrapassar as marcas sempre foi difícil para os rapazes.

 

São sempre irresistíveis aqueles que permanecem fiéis ao clássico sabor do fato de outras eras, mas que lhe oferecem a transgressão cuidada do inesperado, porque são homens que sabem desmanchar a rigidez de uma convenção e se transformam em charme puro e duro, capaz de amolecer uma pobre e indefesa rapariga que de pura tem apenas o que se lembrar ter na ocasião.

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Gavetas:

A Gaffe brazuca

rabiscado pela Gaffe, em 29.05.15

Brasil.jpgA Gaffe tem de admitir!

Não gosta do Corcovado. Kilo grãdão di bráçu abértju. Não aprecia o clima brasileiro e sempre lhe fez muita confusão ver o colorido das eternas bermudas, com tropicais flores estampadas e vistosas, que se usam com camisolas de alças multicolores e de chinelos de plástico com uma tira de se enfiar nos dedos. 

 

Brasília sempre lhe pareceu um gigantesco trem de cozinha pousado no chão e em Copacabana correm surpreendentemente menos deuses do que no paredão da sua atlética imaginação.

 

A Gaffe não gosta do modo como o Brasil fala do que veste.
O singular mata-a.

 

iéli trázia um sapatchinho pretcho, cum meiinhá brãnca, camisolinha cum monguinha curtcha e uã singletche cu auça linda de morrê. A caucinha táva u pouquichinhu féa, má deu p'rá disfarçá, viu?

 

Facilmente se descobre que o Acordo Ortográfico é uma tontice que ignora que a diferença  está na pronúncia e nos vocábulos, sendo indiferente ao modo como se grafam as palavras.

 

Mas gosta muito, muito, muito do caução do menino do Rio que madruga nos nossos Havaí. Por mais que tente não deixa Caetano Veloso trautear sozinho canções que são beijos.


Menino do Rio
Calor que provoca arrepio
Dragão tatuado no braço
Calção corpo aberto no espaço
Coração de eterno flirt
Adoro ver-te
Menino vadio
Tensão flutuante do Rio
Eu canto p'ra Deus proteger-te 
Menino do Rio
O Havaí seja aqui
Tudo o que sonhares
Todos os lugares
As ondas dos mares
Pois quando eu te vejo eu desejo o teu desejo
Menino do Rio
Calor que provoca arrepio
Toma esta canção como um beijo

Não é preciso Acordo para unificar a emoção.

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A Gaffe sem soutien

rabiscado pela Gaffe, em 28.05.15

1.gifSaltitando de blog em blog a Gaffe estaca perante uma colecção de fotografias de uma mocinha que também foi aos Globos de Ouro.

Para os mais desprevenidos, informa-se que os Globos de Ouro são uma espécie de baile de finalistas do Secundário numa cidadezinha da província, onde as vítimas de bullyng somos nós.

  

 A Gaffe não conhecia a rapariga, mas passou a conhecer-lhe as mamas.

 

Os selfies das mamocas da moça mostram-nas a ocupar os dois metros de passadeira vermelha, a aparecer antes de surgir a dona e a fazer crer que Fernando Mendes apanhou boleia no decote e que já toldado se desdobrou em dois.

A Gaffe impressionada chegou a pensar que a rapariga apensa aos dois hemisférios corria sérios riscos de se trilhar naquilo ou de ficar com alguém mais atento preso no meio dos globos.

No entanto, a portadora dos dois queijos limianos com pretensões ao Guiness, declara o seu decote sexy e um bocadinho ousado.

Posto o bocadinho, a Gaffe suspeita que para a moça ousado, sem mais quê, seria desfilar em tronco nu e de fio dental cravado nos dentes de trás.

 

É de entristecer percebermos que ainda há mulheres que acreditam que ser sexy passa por disparar mamas em todas as direcções e recantos. É confrangedor que sexy se resuma a um empinar forçado de vista desarmada de duas bolas de basquete que procuram qualquer cesto onde tombar. É lamentável que duas grandes mamas possam substituir a elegância, ocupando o lugar do bom-gosto e destravando o lugar-comum que é a antítese dos dois.

 

A Gaffe recorda que ser sexy não é uma questão de expor no talho a carne descoberta de cetins da Mango. É a subtileza que aflora a pele; é o segredo da história que se conta de pequenas infracções, de transgressões mais ínfimas; é o colar de pérolas que se esquece por baixo da blusa de gola alta; é a certeza do traço de perfume que traz o nosso nome; é o nosso olhar que esvoaça virginal a parecer que chegou de uma batalha.

 

Ser sexy não é definitivamente mostrar dois globos de ouro.

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A Gaffe dos ditados machistas

rabiscado pela Gaffe, em 27.05.15

Leyendecker.jpg

Não sou uma grande feminista. Considero aliás que o machismo é uma arma excelente posta ao serviço do sexo mais fraco quando nas mãos de mulheres inteligentes. Permite-lhes apossarem-se de uma coisa dando a sensação que dela abdicam. No entanto, irritam-me os ditados populares que trazem apensos noções básicas de machismo patético. Erram consideravelmente.

Deixar que digam, por exemplo, a melhor maneira de conquistar o coração de um homem, é pelo estômago, é ouvir uma idiotice. É mais fácil conquista-lo pela lisonja.

 

Todos os homens podem ser alcançados pela lisonja. Até Deus - afinal o que é uma oração?

 

Ilustração - J. C. Leyendecker

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A Gaffe passada

rabiscado pela Gaffe, em 27.05.15

foto1.JPGChegaram ontem protegidas por películas translúcidas e separadas por almofadas de espuma.

São fotografias velhíssimas que mandei restaurar e copiar. Ao lado tenho o CD onde permanecerão por mais algumas décadas.

Encontrei-as carcomidas. Expulsas dos livros de ouro das memórias mais acarinhadas por razões que desconheço.

Numa delas, a minha trisavó, ao colo do pai, é uma criança que casará adolescente e que será mãe de mulheres, prolongando o matriarcado que ali se adivinha.

É fácil ainda identificar cada elemento do grupo. A s suas posições na hierarquia, o grau do seu poder, o parentesco, o espaço que ocupam na arquitectura da família. Percebem-se os elos afectivos distintos que unem esta gente longínqua. As interacções são reveladas por braços que protegem, por inclinações da cabeça ou por colos que se dão numa indiferença masculina.

 

O desamor também.

 

Ainda hoje é fascinante o modo como reagem e interagem os descendentes deste clã quando se agrupam.

 

Existe uma cidadela onde se fortificam aqueles que já nasceram dentro. Os elementos anexos, aqueles que chegam, provenientes de ligações, uniões ou acordos, são tidos e vistos como inevitáveis apêndices. Os homens e as mulheres, sobretudo eles, devem passar por longos períodos probatórios até adquirirem estatuto que lhes permita opinar, ser ouvidos e tidos como elementos de pleno direito e sobretudo penetrar nas defesas fechadas das matriarcas. Entretanto, é necessário que se reproduzam para que se espalhe a sombra deste voo.

É tão fácil reconhecer os mais frágeis! Os que chegam embaraçados e constrangidos, ao covil atento daquelas que dominam.

 

Dos mais frágeis, o meu mais amado, a minha saudade, a minha dor mais funda, tinha olhos que lembravam terra arrancada ao mar e a fragilidade insuspeita da tulipa. Tinha as mãos longas de peregrinação e a corrente de um relógio eterno que enrolava nos dedos. Tinha a benevolente paciência dos ouvintes ternos e a doçura das palavras certas ditas baixinho para não doer. Tinha cabelos de seda penteada. Usava camisolas de gola alta que o alongavam e o transformavam em cisne ou em espiga de trigo. Tinha a voz dos meigos, aquela voz que é bom ouvir quando troveja e um sorriso de lua a crescer numa noite de Verão.

Penteava-me o cabelo com os dedos e murmurava a ladainha docemente e depois de me beijar, arranjar as almofadas, saía a sorrir fechando as asas.

 

Anjo da Guarda 
De olhos cinzentos 
Protege minh’alma 
Da fúria dos ventos 

 

Anjo da Guarda 
Doce companhia 
Não deixes morrer 
A luz do meu dia 

Num alto rochedo 
Pousa a minha mágoa 
E faz com que o medo 
Se transforme em água

 

E quando eu partir 
Ó doce bonina 
Dá-me as tuas asas 
Qu’eu sou pequenina
 

(Oração francesa do século XIX na tradução livre do meu avô)

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A Gaffe de uma Mulher

rabiscado pela Gaffe, em 26.05.15

Maria Bethânia.jpgCreio que sempre tive receio de falar de Maria Bethânia.

Mas fui vê-la e ouvi-la ao Coliseu.

 

A senhora está cada vez mais parecida com o irmão. Se Caetano Veloso enfiasse uma peruca desmesurada, se usasse túnicas brancas longas e largas presas com sereias na cinta, seria Bethânia numa versão mais bonita e, não neguemos, Caetano parece ser do tempo em que os homens construíam pirâmides.  

No entanto, mal esta mulher pisou o palco, a brutalidade do talento, a madura elegância esguia, o desenho de cada gesto feito, o balanço quase frágil, quase duro, do corpo que acompanha numa subtileza intacta e inata as palavras ditas e cantadas, fazem de Bethânia uma das mulheres mais belas que eu vi.  

 

Bethânia é belíssima.

 

Ao longo do desenrolar desta voz percebo lenta e morna a barbaridade que foi a acusação de anti-feminismo que demasiado jovem sofreu por cantar a dor de corno de mulheres abandonadas. Creio que as imbecis imputações chegaram de criaturas iguais àquelas que da mesma forma condenaram Brel por cantar uma das mais perfeitas canções que foram escritas, Ne Me Quitte Pas, porque o poema revelava implicitamente ser anti-feminista.

A idiotice encontra campos impensáveis para desovar.

 

Bethânia está para além da mulher. É um arquétipo.

Aproxima-se do nervo, da corda que corda que faz tanger o coração e dentro de uma voz madura e sapiente, é capaz de encarnar a ilusão e a ausência dela ao mesmo tempo.

Aproxima-se do essencial e estende-nos com a voz que ocupa a aquilo que é humano, dói ou faz sarar.

É dentro da voz de Bethânia que a total beleza se inscreve e é da mulher que surge, presa à voz, o pasmo de a sentir urgente.    

 

Foto - Vinicius Pereira

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A Gaffe anónima

rabiscado pela Gaffe, em 26.05.15

winter crane.jpgUm anónimo pode ser como o gato que o menino atira do segundo andar. Esbardalha-se-nos na cabeça quando deslizamos breves e leves pela brisa da tarde. Pode também ser a timidez que encontra no anonimato um romantismo seboso, mas esta última variante é menos vulgar.

A Gaffe não acredita que a ausência de referências que caracteriza um anónimo seja devida a uma falta de coragem. Apesar de tudo, tem de se ser corajoso até para se ser um energúmeno.    

Esta energumunice tem, entre outras, duas versões que interessa reter.

 

Há os anónimos que surgem do nada e que de dentes arreganhados, nos rosnam impropérios. Podem usar um petit nom para sossego das suas inseguranças e aparecem como o Príncipe das Trevas ou a Maluquinha de Arroios, muito literários, ou Manuel das Iscas, popular, ou ainda José Dias Aguiar, quotidiano. São os anónimos ligeiramente conservadores cujos insultos trazem um travo de moralidade azeda e de inflamações purulentas que cheiram a mofo e a catequese.

Por estranho que pareça, para além de imbuídos de um patriotismo rançoso, abanam os panos de ideologias e de causas até os rasgarem nos pregos que trazem na língua. Esquecem que para vencer uma batalha é preciso que reconheçamos que somos parte do inimigo. Não há tão grande perdedor como aquele que chega ao campo de guerra a acreditar que é o antónimo do adversário.

A Gaffe fica siderada com estes anónimos. Perante os seus comentários, fica catatônica. Jamais entenderá esta forma de se ser patético.

 

Há depois os anónimos com vago sabor a Pessoa.  

São apanágio daqueles que comentam os seus próprios escritos. O inglês vê o elogio ou a exortação – geralmente não ultrapassam estas fronteiras - e finge acreditar que o que lê é alheio ao comentado. São os mais tristes e patéticos, porque revelam uma solidão desesperada. A inutilidade deles é como que privada, transformada numa ilusória companhia, num desejo doentio de se ser ouvido e de se ter alguém a quem responder.

São os que comovem.

 

Haverá outras modalidades. A Gaffe não tem microscópio para as analisar.

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A Gaffe dos cabeçalhos

rabiscado pela Gaffe, em 25.05.15

Um cabeçalho – ou header, como desejarem – é o átrio de um blog.

É por ele que entramos e é agradável que seja o reflexo, ou mesmo o resumo, daquilo que de seguida vamos encontrar. Será, como diria Garcia Marquez, salvaguardando a distâncias gigantescas, o nosso primeiro parágrafo que deve necessariamente captar a atenção do leitor.

Talvez seja por isso que é obra difícil e daquelas a que só vou voltar se o tempo for às riscas, ou seja, nunca.  

Não é passível de ser construído com eficácia quando o conteúdo do blog não é coerente, não possui uma linha condutora nítida e se dispersa e dilui em cada post, não entregando uma personalidade ao seu autor, indeferindo-o.

Exige, quando o seu fazedor não coincide com o autor das palavras, uma leitura completa ou quase completa do já escrito e a procura do leitmotiv que move a esmagadora maioria dos posts, sem esquecer a caixa dos comentários, lugar onde o autor é apanhado quase sempre desprevenido e onde se colhe informação preciosa.

Tentei construir, para além do meu, dois cabeçalhos. O da M.J. e o da Filipa.

http://eagoraseila.blogs.sapo.pt/A cumplicidade que estabeleci com a M.J. tornou mais fácil o desenho. Foi intuitivo. Desde cedo percebi a facilidade com que as ilustrações de Norman Rockwell serviam os escritos do E Agora Sei Lá?.

A quase telúrica resmunguice; o fabuloso mau humor; a capacidade de descarnar personagens torpes; a afirmação de um pensamento politicamente incorrecto; a exposição de personagens que se cruzam connosco todos os dias sem que nos apercebamos dos universos, grandes ou raquíticos, que dentro trazem, o sarcasmo com que as trata e a sua traquinice muitas vezes sacana e patifória, tornam inevitável que pensemos que só alguém que consegue gostar desmesuradamente das pessoas pode ao mesmo tempo, também com crueldade, desvendá-las sem pudor. A M.J. é a miúda sentada ali, depois da briga que venceu, à espera que a venham buscar desiludida.

O Cabeçalho tentou retratar isso.

http://duvidascor-de-rosa.blogs.sapo.pt/No da Filipa encontrei ao lado de esbardalhar - um dos meus verbos favoritos -, esbugalhar e a possibilidade de tantas vezes me rir de mim. A Filipa deixa-me saudável. Rio-me do que sou nos muitos retratos que faz.

Tornava-se necessário esbugalhar o header. Encontrar a imagem que retratasse este espantar esbardalhado que surge de um cor-de-rosa que corre várias nuances, que vai desde o mais ténue, quase nada, ao próximo do vermelho, pisando-o amiúde. Era preciso encontrar a imagem que ilustrasse alguém que se vê enfiado entre dúvidas tontas e que por muito que tente ignorar a imbecilidade e o ridículo, calando a capacidade de se ser corrosiva através de um humor ácido e brutalmente cru e nu, por muito que aperte a boca num assomo de contenção, o esbugalhanço faz romper o dique e arrasar de vez com toda a patetice que somos sem saber ou de que, a saber, gostamos de ser.

 

São dois pobres cabeçalhos possíveis apenas porque as autoras a quem os ofereci me deixam todos os dias pasmada com a claríssima inteligência com que olham o mundo.

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A Gaffe do outro lado

rabiscado pela Gaffe, em 24.05.15

A casa onde passo o tempo dos socalcos tem no centro uma imensa clarabóia por onde jorra a noite e o dia. Há uma perene cascata de luz que nos encharca, porque mesmo o luar entra como um caminhante.
Reflectida no enorme espelho barroco com garças pintadas, envelhecidas e de bicos erguidos, eternos à procura do vento que lhes abra o espaço, a luz reproduz-me sempre que ali entro.


Ao contrário do que seria de esperar, não gosto de espelhos.


Quem sou, ali? Serei eu ou será aquela que eu seria se tivesse o meu caminho sido o outro? Será a mulher reflectida o que o seguiu, sem as amputações na alma que o tempo vai fazendo, ou sou esta que se vê a ver, inevitável?


Não gosto de espelhos. Entregam-me a irresolução ao lado da certeza de que há uma mulher que nunca vou viver, que olha para mim sem dizer nada.

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A Gaffe pirosa

rabiscado pela Gaffe, em 23.05.15

Harry Anderson.jpgOntem à noite uma estrela caiu.

O meu coração soltou-se e como nenhum coração parte sozinho, o meu coração sabe que vai seguir o teu. 
Desprendeu-se da noite. Procurou ainda os braços da lua para não tombar, mas a terra puxou-a com braços mais fortes e a estrela caiu. Um traço de medo e depois silêncio. Rápido, como a vida dos sonhos.  
O meu coração resiste, vestido de guerreiro, à queda que provocas, mas a tua força imensa vem do bater de asas que colhe cachos de estrelas e na penugem das noites cadentes os deposita em mim para me matar a fome.  

 

(Tenho direito a ser pirosa uma estrela por noite!)

 

Ilustração - Harry Anderson

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A Gaffe tripartida

rabiscado pela Gaffe, em 22.05.15

John LaGatta.jpgComo já devia ser do conhecimento geral, a Gaffe viveu em Paris durante a maior parte da sua curta existência.

Este pequeno factor é de importância capital (hoje estamos tão trocadilhos!), porque lhe permite olhar as nossas mulheres, sobretudo as do Porto que agora conhece com mais nitidez, um certo grau de maldade cosmopolita e,de certa forma, ter uma visão estrangeirada acerca deste assunto.


Paris fornece um allure indiscutível a uma rapariga esperta e capaz de o captar sem questionar muito a essência do fenómeno. Somos parisienses quando deixamos de colocar questões existenciais a toda a hora, fazendo perigar as nossas incendiadas ligações que, embora passageiras, nos deixam prostradas de tanto esforço que exigem para que a mangueira cumpra o seu destino. Somos parisienses quando nos preocupamos com a madeixa do cabelo que nos tomba nos olhos e nos impede de ver com clareza o manequim masculino que passa em cada esquina da Sorbonne. Somos parisienses quando oferecemos razões a um homem para se afastar, cansadas que estamos das suas fracas aproximações. Somos parisienses porque reconhecemos que cada torre, por muito pequena que seja, tem o seu encanto e que não é forçoso ter sido Eiffel a assinar o trabalho para que sejamos agradavelmente surpreendidas pela eficácia da lapiseira.
Somos parisienses, porque sim.


As portuenses não.


As portuenses parecem sempre tristes e há, a Gaffe fala das que conhece, uma espécie de subordinação às regras sociais estipuladas por machos pacatos e bastante ordeiros que se torna confrangedora e muito pouco saudável. Obedecem, mesmo quando tentam escapar e deixam no ar uma resignação ou culpa que desculpam baseadas na geografia. São do Norte e o Norte foi e continua a ser um feudo masculino.
São de uma fidelidade quase canina, o que é uma maçada. Os casamentos parecem celas de convento do mais pio que há, benzido e de clausura, e não percebem que se há festinhas para troca de maridos, não as há para trocar de amantes.
Finalmente são peritas em provocar sentimentos de culpa quando uma rapariga se descuida e lambe descaradamente uma peça masculina de qualidade rara na Invicta. Fazem-nos acreditar que não passamos de vampiras promíscuas prontas a ferrar o dente na veia mais saliente de um rapaz. O que, apesar de não ser de todo uma mentira, não custa disfarçar e fazer de conta que não se vê com nitidez.
Não é de todo simpático e é maçador.


Causa-lhe urticária ver, como hoje viu, com aqueles dois que a terra há-de comer, uma rapariga com a sua idade, nada e crescida no Porto, presumivelmente culta e inteligente, a borrar a pintura - mais do que o aceitável e tendo em conta que não é perita no sombrear dos olhos e no espalhar do blush -, dizendo a chorar – dizia a Gaffe – que soube do marido enfiado na cama com uma companheira de luta e de trabalho enquanto ela fazia o turno nocturno nas urgências.


A Gaffe não compreende esta absoluta falta de Paris!

 

Se fosse à sombra da Torre Eiffel tínhamos o caso tratado e dada alta aos três, porque na capital da luz, diria um amigo, uma cama é como um autocarro: há sempre lugar para mais uma.

 

Ilustração - John LaGatta

 

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A Gaffe presidencial

rabiscado pela Gaffe, em 22.05.15

CGNos seus parcos trinta anos - a idade que a Gaffe decidiu não ultrapassar, nem que isso torne os seus pais ilegítimos -, sempre considerou Marlon Brando o mais belo homem do planeta.

Brando era trovoada e vendaval no seu pobre e minúsculo coração.

Tudo naquela criatura tinha um dedo divino e mesmo depois de ter engordado e envelhecido desastrosamente, o seu enormíssimo charme e a sua poderosa capacidade de sedução continuavam a operar maravilhas nas raparigas que, como a Gaffe, continuavam rendidas ao fabuloso animal que nunca deixou de ser.

 

Depois de Brando, muitíssimo depois de Brando, os seus sonhos foram povoados por Cary Grant que substituía de forma um tanto ou quanto vaga a ausência do seu grande amor (seu e de Cleópatra). Esta dupla bastante eficaz foi entretanto desfeita por uma questão presidencial.

Cavaco Silva

 

Cavaco Silva é parecido com Cary Grant, versão de cera, suburbana, esbardalhada, parola, sem glamour, sem pinta de charme e com um garfo enfiado em sítio que não é bonito uma rapariga de boas famílias, tímida e recatada, referir aqui.

Ninguém consegue fantasiar com Cavaco Silva e a Gaffe atreve-se a supor que há alguém nas frias noites do Palácio de Belém a desejar secretamente o calor vintage do verdadeiro Cary Grant.

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