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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Maio

rabiscado pela Gaffe, em 01.05.15

Maio.jpgO jantar será servido com a minha presença, insinuada necessária na véspera com a inclusão de um vestido sóbrio na parca bagagem que transporto, mas a representação oficial da família estará a cargo do meu irmão.

 

Depois de mais de uma década de esquecimento, os festejos de Maio neste recanto do Douro saltam do escuro orvalhado das sombras e, autorizados e patrocinados pela minha avó, espalham-se na eira secundária e desactivada. Longe da casa e perto dos balões de risos coloridos e de alma em fogareiro fumegante.

O cheiro das carnes assadas, jamais suportado pela minha irmã, não se coaduna com o seu Dior creme, crème de la crème. Desce, sustendo a respiração e abanando a mão em frente do nariz. Encaixa as pernas, o charme e o glamour no carro que a levará aos pequenos chefes de mundos pequenos, com hálitos menos aromáticos ainda, mas que a minha irmã suporta estoicamente, tentando amiúde recuperar as forças, a calma e o ar nas varandas solitárias do Douro anoitecido.

Eu fico.

Não há nada como uma oportuna oferta de ajuda no planear da festa.

Não há nada como a possibilidade de ver o rapagão enfrentar uma inevitável carga de abraços e de sorrisos contaminados por pauladas nas costas, para que uma ruiva se una ao embaraço. Juntos, ruiva e rapagão, sentem que o peso da coroa é menor e que há sempre a hipótese de abdicar sem que ninguém sinta a falta de um ceptro.

 

A minha presença não é completamente aceite.

O Douro comigo hesita, oscila e bamboleia. Não sabe se me quer, se não me quer. Não quer beijar-me a alma, já rendido, nem esperar que de joelhos eu rasteje.

Comigo o Douro hesita. Não sabe se há-de amar, se ser amado. Não pode adivinhar, o Douro, que a ruiva não lhe vislumbra no desfiar da paisagem o mais pequeno fio, o mais pequeno elo da corrente que faz do Amor prisão apetecida.

Não sabe, não pode adivinhar. Por isso hesita.

E é nessa hesitação que vou ficando, sorrindo. É nesse balançar que vou permanecendo ilesa e impune, evitando a agressão das pedras cor de cinza e da terra escura torcida pelas vinhas nos olhos do Douro e nos da sua gente.

Sorrio e sei que sou exageradamente azul e escarlate.

 

Facilita ao rapagão o facto de sugerir um maltrapilho, pescado numa qualquer viela do abandono, enfiado numa camisola amarrotada e com uns jeans desbotados em eminente ruptura. Há o notório despertar de uma muito vaga ternura solidária ou de uma solidariedade ternurenta assente no facto de parecer tão desprovido e despojado como este povo para quem a hospitalidade é decisão absolutamente pessoal e pautada por critérios pouco compreensíveis, porque pouco objectivos e muito pouco claros. A aparência, aqui, é tida como nota capital - Como pena capital? - e é um dos elementos responsáveis pelo ostracismo a que é votado o estranho ou pela sua aceitação eufórica e entusiasta. No Douro, a primeira impressão, tem grande valia e deixa marcas indeléveis nos costados do incauto. Somos amados ou olhados com uma desencorajadora falta de confiança, logo no primeiro lance do avistar. Errada ou não, é desta sensação primária que parte o julgamento inteiro que nos condena ou iliba.

 

Mas hoje os velhos cantam mesmo assim e há raparigas que riem risos brancos enquanto soltam canções tilintantes e rapazes que estalam a língua e abrem a boca de espanto luminoso enquanto penduram luzes por entre os ramos das árvores mais baixas.

 

As raparigas, de rechonchudas curvaturas, cruzam os braços encaixando-os entre a barriga e as mamas. Cochicham, tilintam, retinem, coradas e ansiosas, com as pernas vagamente abertas, roliças, mornas, nervosas, suadas. Sorriem descaradamente tímidas e esperam os olhos dos rapazes que sempre aos pares dividem a coragem da aproximação. Não há subtis manobras. Os jovens machos de narinas trémulas, sorvem os cheiros distinguindo o das fêmeas e seguindo a pista. Alguns não vão saber nunca o poder que trazem nos corpos morenos e duros. Mostram o capado, mas de forma explícita, que de tão nua e crua perde toda a força e se reduz ao exibir dos músculos moldados pela força do trabalhar a terra. Não há inteligência na forma de usar os corpos tesos e fortes.

 

As condições são claras:

Nada mais soará para além da música com sabor a terra.

O rancho bailará até à meia-noite.

Nada de foguetes.

Não se darão asas gigantes à multidão que se adivinha a voar picado.

Haverá rígido controlo sobre os desmandos do vinho que escorrer e um domínio claro sobre a euforia tonta que toca aflitiva as raias do histérico quando a noite avança e dança demais.

 

Que se baile então, obedecendo. A noite é da terra e a terra é de noite cantando fogueiras. Que baile esta gente, bailando para nós em quadras brejeiras. Quadrados, quadrículas marcadas no chão - não vá ser pisado pudor ou decência - com os aguçados lápis dos olhos das mães que sentadas vão roendo presunto e sorvendo o vinho como a terra água.

Que se baile então, debaixo de lâmpadas fracas de cores bem vistosas suspensas por fios cruzados, confusos, comigo perdida nos traços que fazem na palma da noite.

Que baile este povo sisudo e fechado em frente da tonta menina de olhos pasmados que morre de inveja por não amar o início de Maio quando o pulsar é terra que dança e se esgota sem luz e sem brilho. Por saber que Maio é o baile de uma terra nua, que sua e que pulsa, aberta e doada, mas que é uma dança apenas amada através do tempo de frios e chuvas.

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